(As pulgas se agarram ao) Velo de ouro
Corações de giz derretendo no muro do parque
I. O disforme Grendel
Lembro-me de ter uma visão onde eu voltava pacientemente ao meu local de trabalho depois de um satisfatório almoço. Chegando à rua do prédio que seria meu destino, me deparo com o caos.
Pessoas correm em todas as direções possíveis, exceto àquelas que levam ao portão. Alheio a tudo isso, continuo caminhando tranquilamente ao local que todos pareciam querer sair, e o mais rápido possível.
Sou parado por uma figura que aparentemente trabalha lá, ainda com crachá ao pescoço, me alertando algo como:
— Fuja! Há um atirador lá dentro!, antes de sair em desabalada carreira.
O estranho é que não dou atenção ao aviso. Continuo pacientemente, desviando dos aterrorizados vivos e dos pacíficos mortos como se fosse um dia normal de trabalho.
— Minha vida já é uma porcaria mesmo, não me faria pior morrer pelas mãos de um atirador, pensei. Ainda mais, fosse eu para o Inferno, em nada seria muito diferente que meu velado martírio cá em Terra. Pelo menos conheceria algumas celebridades por lá.
II. Pulcinella
Eu tenho um pavor maior que o normal de segurar bebês. Só de imaginar que a vida daquele pequeno ser humano em meus braços, e que qualquer falha destes desastrados braços causaria uma lesão irreparável ou até mesmo a morte dele, meu bom senso prontamente recomenda deixar que alguém com mais experiência assuma a tarefa.

Não raro me vejo com meu próprio rebento aos braços (nunca o derrubando, no entanto) sempre impossibilitado de fazer qualquer coisa a não ser segurá-lo e andar vagarosamente, tamanho o cuidado despendido em manter a continuação de minha linhagem viva.
Coisa que certas pessoas fazem tão tranquilamente, como se possuíssem dom natural ao ser multitarefa enquanto uma dessas tarefas é segurar um bebê. Para mim, se esta não for a única tarefa, me sinto na iminência de causar, ainda que inconscientemente, uma tragédia.
III. Lugudūniānā
Outra visão que costumo ter é a de sempre, em qualquer lugar, estar sendo perseguido. Invisíveis assaltantes me acharam, visam meus bens materiais ou minha vida e nada posso fazer contra eles, embora fantasie ridiculamente sobre minhas vitórias em hipotéticas altercações físicas.
Qualquer um me cria temor, olho constantemente para os lados e para trás, pois me observam silenciosamente a derredor, esperando um momento de distração para atacar. Mesmo assim, dentro desta paranoia, eu sei que este momento vai chegar e eu, invariavelmente, sucumbirei.
Chego a sentir o gelado cano da arma em contato com minha cabeça, vejo a bala desfiar meu cérebro como o frágil órgão que ele realmente é.
Não que eu também queira te assustar.