Selfie

Hébridas Interiores


— Essa parece muito boa, acho que vou levar.

— Ah, ela ficou ótima em você. Vem aqui pra tirar uma selfie com a sua camiseta nova.

— Como?

— Tirar uma selfie. Com a sua camiseta nova.

— Ah, sim. Digo, digo. Não, obrigado.

— Como?, pergunta a vendedora, incrédula.

— Não, eu não sou muito disso, obrigado.

Ela parece ainda não entender.

— Mas daí você compartilha pra todos os teus amigos, ora.

— Eu não tô com muita vontade, sabe. Toma aqui, o cartão.

Ela nem olha pro cartão.

— Mas você não tirou a selfie ainda.

— Eu não quero mesmo, obrigado.

— Olha, a gente separou um espaço na loja pra isso! Tem a hashtag da nossa marca, olha!, diz ela, nervosa, apontando pra uma parede onde estão impressas algumas coisas.

— Interessante, mas eu não tenho vontade de participar. Agradecido.

— Vem cá, vai tirar ou não?

Aí a coisa começa a ficar um pouco mais nervosa.

— Não, acho que você ainda não entendeu.

— Não entendi mesmo.

— Eu não quero tirar a foto-

— A selfie.

— A selfie, que seja. Veja, eu trouxe dinheiro. Aqui, ó. Eu pago à vista. Me deixa ir embora. Por favor.

— Mas como você pode ir embora se não tirou a selfie?

— Indo, ué. Como uma pessoa normal.

— O senhor poderia, por favor, tirar a selfie logo?

— Mas como assim? Eu sou obrigado agora? Que história é essa?

Ela faz um sinal com a cabeça para alguém do lado de fora da loja.

— Tudo bem aí?, diz um sujeito vestido como policial, identificação de policial, voz firme de policial e cassetete de policial. Definitivamente, era um policial.

— Este senhor não quer tirar a selfie, diz a vendedora.

— Qual o problema?

— N-nada, senhor, digo eu. Olha, eu não estou roubando nada. Eu tenho dinheiro pra pagar.

— Eu digo da selfie. O QUE HÁ DE ERRADO COM UMA SELFIE, FILHO?

— E-e-e-eu só não quero tirar, ora. Isso é algum tipo de pegadinha?, pergunto e começo a olhar pro alto.

— Não me resta opção senão acompanhá-lo à delegacia. Com licença, disse ele, sacando as algemas.

— Ei, ei, ei, ei, ei. Que negócio é esse? Que crime eu cometi?

VOCÊ SABE MUITO BEM O QUE FEZ, VAGABUNDO!, exclamou a autoridade, quase me escarrando o rosto.

— Só porque eu não quis tirar uma foto, é isso?

— Pensa que pode infringir a lei e sair impune, como todos os outros. Saiba que foi pego em flagrante, resistência à selfie.

— E desde quando isso é crime?

— Ora, não ficou sabendo? Está em todas as redes sociais, interveio a vendedora.

— Por isso que eu não fiquei sabendo, então. Só faltava essa, obrigação de tirar uma maldita foto.

— Obrigação não. Encorajamento, corrige o oficial da lei.

— Encorajamento?

— É. Um encorajamento vigoroso, vamos dizer assim.

— Sei.

— A selfie é uma manifestação do otimismo nacional, garoto. O nosso engajamento, graças ao incentivo federal, é como nenhum outro do planeta, sabia disso?

— Imagino.

Naquele ponto, eu já tinha me conformado.

— Muito bem, meliante, junte aqui e dê um sorriso, disse o policial, sacando um celular do coldre.

— Como é?

— Tudo bem, pode fazer cara de indignado. Apenas coloque essa algema no alcance da câmera.

— Peraí, você tá tirando uma foto da minha prisão?

— Claro, ora! Como que eu vou provar pro delegado?

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Jônathas Lucas Souza’s story.