Teakbois

ou “Gripe espanhola”


Se eu fosse trouxa o suficiente para fazer regressão, eu apenas me contentaria em ver nos meus delírios, enquanto hipnotizado, duas fases: eu como um monge budista ou um cachorro quieto. Algo além disso exijo meu dinheiro de volta.

Digo isso por que, com o perdão do lugar-comum, eu daria uma boiada, a minha propriedade inteira e a mão da minha primeira filha pra não entrar numa briga. Embora eu duvide muito dos ditados.

Nenhum autor, anônimo que seja, pode concordar que “um passarinho na mão é melhor que dois voando” e que “quem não arrisca não petisca” ao mesmo tempo. Se você, quando é procurado para dar conselhos, responde com uma dessas frases feitas, ou você não sabe o que dizer, ou quer se livrar da situação.


Voltando ao cachorro quieto, já tentou fechar um deles numa caixa? Eles apenas aceitam o fato e se retraem, como que se eles não quisessem ser notados. Não que eu tenha fechado algum cachorro numa caixa, mas é exatamente assim que eu me comporto em um lugar e/ou situação com a qual não estou acostumado.

Me lembro de ter feito um curso de informática certa vez (algo que só era possível na década passada, e risível hoje), e eu tenho absoluta certeza que eu não pronunciei uma única sílaba durante os dois anos que frequentei aquele prédio. Eu cheguei ao ponto de, num trabalho em dupla, fazer o trabalho inteiro sem avisar previamente meu companheiro. Ou era isso, ou ter que falar com ele.


Bom, até aí tudo bem (em termos). O problema foi quando eu consegui o meu primeiro emprego, o que me obrigou a sair um pouco da caixa.

Era a minha sétima (se não me engano) entrevista de emprego na vida, e eu ainda tremia mais que câmera de documentarista do National Geographic fugindo de uma manada de bisões que por sua vez fugia de uma leoa que não come há 37 dias.

Eu tinha que responder perguntas de dois caras: um era um careca, magro, com sinais que tinha usado cocaína, talvez. Imagina o outro como sendo o Clark Kent. Mas não quero que você se atenha a ele. Lembre-se do careca


A falta de traquejo social me rendeu algumas comparações dos meus novos colegas — veja só — ao terrível “atirador do Realengo”. O que, caso eu fosse um psicopata mesmo, apenas os moveria à frente na minha lista de execuções.

Enfim, a zombaria chegou ao conhecimento do careca. O problema? Bom, o problema é que o careca é psicólogo.

O tal psicólogo não respondeu com espanto, nem corroborou com os difamadores, apenas mostrou interesse na coisa toda, dizendo que “costumava avaliar se a pessoa tem a capacidade de assassinar outra no primeiro olhar”.

E o diagnóstico dele?

Que eu tinha, claro.

Eu lembro que na época eu levei muito a sério, a minha capacidade de frieza foi silenciosamente dissecada, desvalorizada e posteriormente confirmada por mim mesmo apenas para que eu pudesse a desvalorizar novamente.


Claro que, olhando pra coisa toda depois, se a intenção do tal psicólogo era, temporariamente, me desestabilizar e colocar em dúvida a minha própria humanidade quando supervalorizou a minha frieza, ele conseguiu.

Ainda mais, duvido muito da sinceridade da afirmação, uma vez que o careca teve voz nas negociações que levaram à minha contratação, e ele não contrataria um potencial assassino intencionalmente, contrataria?

E outra que todo esse tempo se passou e eu ainda não matei ninguém.

Ainda.