Precisamos falar de Luke Cage e o porquê dela ser a melhor série do Universo Marvel/Netflix até agora

Sweeeet Christmas! No último dia 30, a Netflix nos presenteou com mais uma obra-prima dessa sua parceria com a Marvel. Mas pelo que notei na roda de amigos que costumo debater sempre que assisto algo, essa foi uma obra que dividiu — e muito — opiniões, sendo que até agora eu não entendi exatamente o motivo disso.

Mike Colter, que homem!

Para quem estava acostumado com a pancadaria e golpes ensaiados a lá Bruce Lee de Demolidor, ela é uma série chata. Para quem esperava pelo sexy appeal e o “politicamente incorreto” modo de viver de Jessica Jones (coloquei em aspas porque isso é assunto pra uma outra conversa) ela deixa a desejar. Pra quem esperava pela violência e sangue frio apresentado pelo Justiceiro de Shane Jon Bernthal, a série ficou sem graça.

Mas Luke Cage se mostrou muito maior que isso. E se mostrou também, talvez a peça chave para unir todas as pontas soltas das séries anteriores, e meio que o checkpoint inicial do que está por vir com Punho de Ferro, Defensores e as séries individuais dos personagens acima.

O mundo está realmente preparado para um negro a prova de balas?

Luke Cage conseguiu transformar o Harlem em um personagem. Conseguiu transformar sua trilha sonora (que aliás está muito foda) em um personagem. Conseguiu transformar a consciência negra e o preconceito americano, em tempos difíceis e tortuosos como o de hoje, em um personagem.

Como Thiago Cardim escreveu em publicação recente: “Não é apenas a primeira produção Marvel protagonizada por um negro. É a primeira produção Marvel na qual ser negro é essencial.

Criado em 1970, por homens brancos durante o movimento blaxploitation, teve suas primeiras aparições ao público de uma forma meio que, constrangedora, vestindo uma camisa amarelo-canário, um cinto de corrente e uma tiara prata bizarríssima (sim, se você assistiu a série, ele era bem daquele jeito LÁ) alugando seus poderes para quem pudesse pagar.

A Netflix, a Marvel, Mike Colter e mais quem estivesse por trás do desenvolvimento desse personagem deram a oportunidade de Luke Cage tornar-se um personagem importante e imponente, praticamente um Super-Homem Negão que não voa.

Na série, a ideia de não se apressar para mostrar a origem do personagem que já conhecíamos de Jessica Jones se mostrou eficaz, e reduzir a um episódio toda a história de background dele era tudo o que precisávamos. Sem fantasiar e enrolar muito. Mostrou apenas como foi de forma crua e sincera, afinal, a série e seus diálogos deixam a impressão de que apesar do nome, o personagem principal não é o Luke Cage, e sim absolutamente TUDO o que está ao seu redor.

Luke Cage (desculpe-me pela repetição, mas é que infelizmente eles resolveram colocar o nome do personagem como nome da série, então não tenho muito pra onde correr. Ah, e pra quem ficou perdido nas linhas anteriores, Carl Lucas é o nome civil dele, e Mike Colter o nome do ator, ok?). Retomando, Luke Cage é diferente de tudo que vimos até então. É um lado que o Universo Marvel ainda não tinha chego com um mergulho bem mais profundo na história real das ruas, tal qual a Netflix já havia apresentado com The Get Down; falando muito das guerras entre gangues, negros vs latinos, da cultura afro americana e principalmente da música.

Aliás, a trilha conduzida e composta pela dupla Ali Shahee Muhammad (do grupo A Tribe Called Quest) e Adrian Younge com influências do rap, soul, blues, jazz e hip hop, tem papel importantíssimo no andamento da história. Caso tenham 3 minutos disponíveis, o vídeo a seguir tem visualização mais do que recomendada:

Mas voltando a série, Luke Cage mostra a obsessão dos subúrbios americanos por esportes como possibilidade de redenção, tal qual nossas favelas com o futebol, o diálogo flui entre os personagens falando de baseball e basquete.

A forma como foi abordada as questões sociais e o preconceito tornam a série muito maior do que ela realmente é, com cenas em que os personagens criticam a polícia por pegar mais pesado com os negros e pegar mais leve com os brancos, ou fazer o mesmo com ricos e pobres.

Mike Colter dá vida a um personagem contraditório ao que apresentou em Jessica Jones. O homem íntegro de caráter inabalável e feição triste deu lugar ao herói canastrão que conhecíamos dos quadrinhos, que foge do passado, fica puto, dá soco na parede e bate nos transeuntes do mal com um sorriso nos lábios. Cara, que atuação.

O restante do elenco também vai bem e entrega o que veio disposto a fazer, aliás que surpresa boa foi Mahershala Ali interpretando o vilão Cottonmouth e seu amor pelo Harlem’s Paradise, hein?

Achei foda

Particularmente, achei muito mais daora que o Kid Cascavel.

Luke Cage deixou um terreno mais do que preparado para o que está por vir com Punho de Ferro e Defensores, além de deixar uma enorme lacuna para o que está por vir na sua próxima temporada.

Obrigado, Netflix.