LX. Olfato

Minha mestra sempre me contou haver uma relação semiótica tão concisa entre o que eu via e todas as associações mentais que me traziam os conceitos, as características e o contexto por meio do qual eu me sentia confortável e segura para sentir o aroma daquilo que estava a ver. Parecia besteira, mas jamais pensei nisso novamente até um dia — em mais uma daquelas minhas incontáveis e às vezes contadas viagens físicas — estar diante de uma jarro-titã com uma parede de vidro entre nós. Alheia aos pormenores da sua biologia, encontrei-me vislumbrando a enormidade das pétalas abertas e todo aquele vermelho imediatamente associado a paixão, movimento e toda a multidão de coisas e ideias que já até traziam ar de mistério ao vazio central cuja borda parecia uma armadilha natural aos incautos. O olfato já havia decidido que só poderia sair dali algum tipo de aroma chamativo e agradável para atrair insetos como algum tipo de dioneia estupidamente grande, e decidiu porque fazia sentido. A ideia central, o contexto de armadilha, a cor vermelha do perigo e mais a minha completa ignorância para as reais características daquela que, descobrir pouco mais tarde, também ostentava o nome de raflésia e flor-cadáver por atrair moscas e outros insetos congêneres com seu odor de putrefação. Que abstrato e sonhador foi o olfato traído pelas artimanhas da mente, quando finalmente estando do mesmo lado da vidraça o cheiro de peixe podre me levou a afastar-me e repreender — de forma singela, perceba, porque nem mesmo eu sou tão rígida assim comigo — essa minha cabeça de semiótica sonhadora que acostumou tão mau o olfato a ponto de trabalhar por ele. “Má gestão de recursos”, é o que eu poria em um relatório de caso.
A coisinha que mais ficou martelando no final de tudo isso foi uma cutucada incômoda: quantas outras percepções são deixadas em segundo plano e deixam minhas viagens semânticas trabalharem em seu lugar? Pena que nem todas as vidraças são visíveis como foi a da raflésia, pois ao que parece perdemos muitas oportunidades de dar conferidas no outro lado, no lado mais real, para procurar o sentido existente atrás dos véus que construímos com a mera visão do fato, da coisa, da pessoa. Nem sempre corretos.

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