PARIS, 05 DE JUNHO DE 2013

Pilar

A primeira vez que vi essa mulher, soube que seriamos grandes amigos. Na verdade já a tinha visto antes mas não havia me chamado a atenção, talvez porque não a ouvi. Então, nesta noite, ao ouvi-la pela primeira vez, a olhei com tamanha perplexidade e interesse que fui repreendido com um belo tapa no ombro direito, acusado de querer despi-la com os olhos. Soube que não seria a ultima vez que levaria um tapa dela, e que iríamos nos divertir e nos amar por muito tempo.

Sempre despertei interesse por esse tipo de garota que, por ignorância ou preguiça de tentar compreende-la, a maioria prefere chamar simplesmente de maluca, compreensível. A Pilar não era diferente, nos primeiros segundos você se decidiria se iria ter atração ou repulsão pela figura. A maioria das pessoas preferia se afastar, e o grupo dos que gostariam de atrai-la, eram muito influenciados por sua beleza, mas a todos ela despertava interesse. Sua boca grande e seus pequenos olhos castanhos que se fechavam bastante quando ela sorria. E como ela sorria! Ela deveria ter apenas um metro e sessenta de altura mas quando se movia ou falava parecia maior. Seu jeito de falar variava de acordo com o teor das palavras, que eram predominantemente provocações e sarcasmo, e isso era responsável pela repulsa de muitos. A maneira como se movia envolvia a todos. Ora andava graciosamente, mas quando provocava alguém, se movia muitas vezes como um moleque. Essa postura, que a muitos confundia, me pareceu simplesmente uma forma, um tanto agressiva, de espantar uma enorme quantidade de chatos invasivos que permeiam a noite. Estratégia um tanto quanto questionável, mas sem duvida, eficiente.

Por vezes, me esbarrava seu braço ou seu joelho, e aquilo me fazia estremecer. Naquela noite, após ser responsável pela partida das pessoas da mesa, tamanha era sua postura ofensiva com praticamente todos a sua volta, ela acabou no meu carro, e em meu pequeno loft que alugava na Rue Vavin, quase na esquina da movimentada Boulevard du Montparnasse. Este endereço me encantava, próximo ao La Coupole e seu “Curried Red Label farmhouse lamb” servido desde 1927, e ao La Rotonde, com seus confortáveis assentos em veludo vermelho que me abraçavam, quando frequentemente, tomava cerveja e conversava com Jules, o gentil garçom. O loft sempre causava boa impressão, apesar de bem pequeno. A vista era fantástica! A noite eu podia fumar e observar a movimentação da Place Pablo Picasso e o charme do Boulevard. A poucas centenas de metros podia ver o descampado na área do cemitério.

Em aproximadamente duas horas muita coisa aconteceu. Me diverti bastante apesar de não ter conseguido tirar sua roupa. Rimos, bebemos, fumamos haxixe, dançamos e rolamos no chão da pequena cozinha. Compreende-la era libertador. E despi-la de sua cápsula protetora de idiotas me enchia de esperança, para então em breve, despi-la de fato. Ela me disse que dançava e cantava, e seu sotaque catalão a deixava ainda mais atraente para mim. Livre da inicial verborragia, pude ver de perto essa intrigante garota. Com senso de humor afiadíssimo que, sem o menor pudor, poderia ofender os mais distraídos, ela me seduziu. Desviei o olhar enquanto ela fazia arriscados passos de ballet no chão da sala, para não mostrar o quanto estava impressionado, e isso a ofendeu. Invadiu minha cozinha e preparou um belo mix de frios que bebemos com vinho Argentino. Deitou-se no chão, espalhou meus livros e graciosamente leu trechos de Don Quixote com uma voz ja rouca. Subitamente, deitou-se em minha cama e antes que pudesse cobri-la dormiu pesadamente.

Esses dias que antecedem a quebra do gelo, sinceramente são os melhores. Antes de conhecer cada parte do corpo, cada curva, cada barulhinho. Manter aquela tensão no ar era o que mais gostava. Mas sabia que isso iria mudar, em breve Por essa razão, não quis acorda-la. Pego a jaqueta de couro e deslizo pelas escadas. O frio invade quando abro a pesada porta de vidro e saio. A ideia de ter aquela garota na minha cama e ainda assim poder ir até o bar era paradoxal mas prazerosa, afinal, ela não iria sair de lá, mas so para garantir trouxe a chave comigo e a deixei presa. Se ela quisesse descer pela escada de incêndio isso revelaria que aquilo deveria acabar por ali. isso não iria acontecer, eu sabia disso. Sabia que seu encantamento pelas horas que passamos foi verdadeiro.

Com isso na cabeça nem presto atenção no prazeroso trajeto até o La Rotunde, onde Julius me espera com sorriso. Julius era de algum pais do Leste Europeu, não me lembro de onde e como já o conheço a algum tempo, ficou tarde para perguntar, e ele não fala muito sobre isso. As vezes me preocupo com a frequência que ele vai ao banheiro para mais um bump, e a indiferença que todos tratam isso ajuda muito. Eventualmente percebo como isso é serio, e como o habito o mantém numa espécie de mundo próprio, o que o afasta do convívio de muita gente interessante. Constrangimento talvez, o que não e comum por aqui. Ou culpa, na qual me identifico trazida de casa que parece familiar. O que ele usa por aqui tem melhor procedência, mas isso, depois de algum tempo, faz menos diferença do que eu imaginava. Geralmente, meus amigos deixavam de ser interessantes mais rápido quando cheiram, com o Julius, parecia diferente, por isso compartilhava de uma ilusão de estava tudo bem.

Nesta noite, ele parecia animado. Ele me traz uma Weiss e um bilhete. Uma tal de Dana havia deixado com ele. Disse que tinha visto meu trabalho e que precisava de um fotografo. Pela empolgação do Julius ela deveria querer algo mais. Me interessei pelo trabalho e ignorei o restante. Talvez essa seria a primeira chance de trabalhar por aqui e imediatamente liguei para ela na cabine nos fundos do restaurante. Ela parecia com um pouco de pressa e estranhou a ligação, mas me identifiquei e ela relaxou e foi muito receptiva. Disse que eu havia sido indicado, não entendi bem por quem. Ela parecia um pouco nervosa e foi uma delicia falar inglês com aquela garota. Dana era alemã, e seu inglês era melhor do que os americanos que já conheci, e mais agradável que os ingleses. Marcamos de nos encontrar para um almoço no dia seguinte. O lugar escolhido foi o restaurante do museu D’orsey. Já queria conhecer a tempos aquele restaurante. Fui ao museu mas não ao restaurante. Nada como unir trabalho com arte, comida, vinho e uma companhia agradável. Torcia para que ela fosse mais uma dessas garotas surpreendentes que eventualmente conheço por aqui. Mal podia esperar.
Tentei me distrair com a cerveja, com o Confit de pato, com a expectativa do encontro com a Dana e com as piadas ácidas do Julios com os clientes, mas não tirava a imagem da Pilar deitada na minha cama com aqueles cabelos. Quando pensei se ela teria ou não tirado a roupa para dormir, imediatamente fiz um sinal para o Julios e me vi na calçada. A conta eu pagaria outro dia. Não tirei as luvas do bolso pois meu sangue fervia e acendi um cigarro no caminho. O Boulevard era realmente impressionante e não me canso de observar. Nunca vou comprar um carro em Paris, pensei. Passo pela entrada do metrô e penso o mesmo, numa cidade rica como essa não entendo quem se movimenta pelo subterrâneo, prefiro os ônibus. As linhas de ônibus são inúmeras, baratas e pontuais, e ao atravessar a cidade você pode ser surpreendido após uma curva pela Torre ou por um belo Boulevard. Como ao ouvir rádio, eventualmente vem aquela música que você nem lembrava mais.

Entrei em silencio e pude ouvir sua respiração, ela ainda dormia. Vi que ela havia acordado e dormido novamente. Desisto do ultimo cigarro na sacada, tomo um banho e, controlando meus impulsos mais fortes e me deito ao seu lado, sem a pretensão de acorda-la. Mentira! Não consegui dormir por ao menos uma hora. Toquei meu pé com o dela, respirei alto, fiz barulhos com a garganta, mas nada a acordava. Resignado, dormi. Sonhei com viagem, cachorro e com trabalho, ela realmente tinha arruinado minha noite de sono. As 10:00 acordei com barulho que vinha da pequena cozinha, o cheiro de manteiga derretida me tirou da cama. Ela havia descido e comprado croissants, vários, fez suco de laranja fresco, crepe e sorria com a escumadeira na mão, meu avental e com três ovos mexidos na minha Le Creuset que nem havia usado. Até hoje não pensaria numa forma melhor de inaugura-la. -Bonjour!, ela disse. Disfarcei minha alegria e arrumei a mesa junto a janela. Ela era realmente linda. Jovem e linda. Normalmente acharia uma garota de 24 anos jovem demais, mas com ela era diferente. Tinha algo nela que não era compatível com sua idade. Ela parecia ter vivido muito mais que 24 anos. Falava umas coisas que muitas mulheres de trinta e tantos nunca saberia. Deixei meus pensamentos de lado e me dediquei ao dejuner. Comemos e rimos. Ela estava tão animada quanto na noite passada, o sono a fez muito bem.
- Que cama boa! Dormi como não dormia a tempos, a que horas chegou? Nem vi você chegar.
- Fui comer algo.
- Não se importou de que eu tenha mexido no seu armário? — disse me mostrando que vestia uma das minhas cuecas boxer.
- Nao mesmo, confortável?
- Sim — ela disse displicentemente olhando o fundo do copo se suco de laranja.
So não estava 100% a vontade pois sabia que em duas horas deveria estar a beira do Senna para o almoço com a Dana, e ela parecia tão a vontade que parecia que já frequentava aquele local a muito tempo. Oscilei entre deixa-la a vontade e convida-la a sair o mais rápido possível, não atrasaria o primeiro encontro com a alemã, seria uma grosseria.
Ela elogiou a vista e o silencio do loft mesmo tão próximo ao Boulevard.

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