Conversa de vestiário

Na semana passada vazaram uns áudios do Donald Trump falando os maiores absurdos sobre como tratar mulheres. Se você tá meio afastado das redes sociais, internet, noticiário ou só não liga pra política do Tio Sam, Trump está concorrendo à presidência do país que manda bastante no resto do mundo. Eis algumas aspas do leak:

“Preciso de uns Tic Tacs, caso eu comece a beijá-la. Sabe, eu sou automaticamente atraído por mulheres bonitas — eu simplesmente começo a beijá-las. É como ímã. Só beijo, nem espero. E quando você é uma estrela, elas deixam. Você pode fazer o quê quiser. Agarre-as pela b****a. Você pode fazer o que quiser.”

Pesado né. Mas eis que em sua defesa, Trump deu outro soco na boca do estômago, falando que aquilo era “locker room talk”, a famosa “conversa de vestiário”. Imediatamente pipocaram times de futebol americano falando que NINGUÉM fala daquele jeito em vestiários. Aham. A fala continua sem justificativa alguma, mas a naturalização trazida pelo contexto e pelo espaço que ela foi dita chegou muito perto de casa.

No fim de semana fui à uma festa e fiquei discutindo com dois amigos o quê podemos fazer quando alguém do nosso círculo próximo fala ou faz uma atrocidade dessas. Pra começar, era muito difícil pra eles entenderem que um amigo próximo fosse capaz de fazer algo daquele tipo. Mais difícil ainda era chegar pra conversar com o cara sobre aquilo. Na minha cabeça era muito claro, não era a primeira vez que via ou ficava sabendo desse comportamento vindo do rapaz. A questão nem chegou a ser como eles estavam acostumados com aquilo a ponto de passar totalmente despercebido. A questão era como ajudar o cara pra que aquilo não acontecesse de novo. Ninguém, nem eu, conseguiu enxergar uma resposta exata. Aí me toquei que é muito fácil a gente escrachar o Trump, lá longe, em outro país. Aí me toquei que é fácil identificar quando o Bolsonaro groselha na TV, ou quando os trolls xingam feministas atrás do anonimato da internet. Mas o que a gente faz quando é um cara de convívio próximo, um colega de classe, um amigo? Dá como caso perdido? Ostraciza, rechaça e alimenta um ódio que ele nem sabe direito de onde veio? (Não sei vocês, mas na minha experiência, vergonha infligida por terceiros não muda pensamento, só alimenta ódio contra os outros e contra si mesmo. Vergonha vinda do entendimento de um erro é outra coisa). Tenta conversar? Manda procurar um psicólogo? Aí me toquei que não estamos falando o suficiente sobre isso.

Existe muita conversa sobre como identificar machismo, como denunciá-lo — e pelo amor da deusa, isso não é pouca coisa. Temos que fazer o barulho que conseguirmos pra defender as vítimas— mas e quando a merda já foi feita? A gente aceita punição e pedido de desculpa, rezando pro cara não repetir aquilo? Fazer alguém entender que é errado algo que ensinaram a vida inteira como certo é muito difícil. E a conversa de vestiário tá muito mais próxima do que você imagina. Muito mesmo. Tão próxima que, às vezes, vai ser difícil de reconhecer, mais difícil ainda de assumir que você fez parte daquilo. Às vezes, vai fazer a gente agradecer por não ter sido uma agressão física e deixar aquilo passar batido, afinal, falar não é fazer. Mas falar é alimentar o fazer. É alimentar uma ideia que se perpetua há séculos e parece tão banal quanto uma conversa cansada pós jogo entre amigos.

Nesse mesmo fim de semana comecei a ver a série Pitch, lançada pela Fox gringa no último mês. A premissa acompanha a trajetória da primeira mulher a jogar em um time masculino na Major League de Baseball, nos EUA.

Tem bastante cliché de filme de esporte #superação americano? Tem sim, bastante. Mas também tem uma moça negra jogando melhor que os caras. Tem uma moça negra tendo que se desculpar por estar no mesmo vestiário que eles. Tem uma moça negra treinando tanto ou mais que os companheiros de time. No segundo episódio, corre a notícia de uma jogadora de outro país que foi abusada por entrar no vestiário errado. Todos pedem a opinião de Ginny, a protagonista, que fica desconfortável em tomar aquela responsabilidade pra si e receosa de uma represália do próprio time. Até esqueci que era cliché quando ela se nega a apresentar um quadro sobre decoração de interiores no Jimmy Kimmel e manda essas frases:

Uma mulher não é responsável pelo próprio estupro porque ela entrou no vestiário errado
Precisamos nos assegurar que todos os garotos sabem que estuprar é errado

Não é uma mensagem exatamente nova. Qualquer protesto feminista tem um cartaz com essa frase. Não é a melhor série estreante da Fall Season, nem de longe. Mas talvez ela seja uma bem necessária, já que ainda vivemos do lado de fora de um grande vestiário, rezando pra que a conversa não vire ação.

É triste e exaustivo pensar que talvez a gente tenha que pegar na mão do amiguinho pra falar “isso não pode, tá?”. Exaustivo pensar que as mesmas pessoas que são vítimas são aquelas que tem que fazer o trabalho doloroso de tentar quebrar um pensamento tão martelado nas cabeças do mundo. Não cheguei a uma conclusão concreta de como ajudar depois que o leite já derramou. Escrever textão de medium é fácil no fim das contas. Difícil é passar por cima da revolta contra uma violência e falar “pera aí, cara, vamos conversar…”

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