“O aborto legalizado diminuirá muito a mortalidade”, defende o médico Clodoaldo Cadete

Por Natália Rocha

Clodoaldo Cadete, médico ginecologista e obstetra.

Clodoaldo Cadete é médico ginecologista, obstetra e professor de Medicina da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Cuida dos bebês conquistenses há 32 anos. Em entrevista ao Avoador, ele fala sobre aborto, que é a causa de 800 mil mortes por ano no Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). A prática é crime no país segundo o Código Penal, exceto em casos de estupro, risco de vida à mãe e anencefalia do feto. Mas uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou que mais de 8,7 milhões de brasileiras já realizaram pelo menos um aborto. Além disso, o órgão considera que haja ainda um grande número de abortos não notificados.

No Nordeste, do total de mulheres que fizeram o aborto, o percentual das que não possuem instrução (37%) é sete vezes maior do que o das com ensino superior completo (5%). Esta é também a região do Brasil que mais registra abortos (39% deles). A Bahia faz parte desta estatística. Segundo dados do Instituto Mulheres pela Atenção Integral à Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos (IMAIS) de 2012, o aborto inseguro é a principal causa de mortalidade materna no estado. Salvador, por exemplo, tem o índice de mortalidade materna cinco vezes maior do que o aceitável pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Clodoaldo Cadete fala sobre o contingente de mulheres que morrem todos os anos, discute as causas da não legalização do aborto e comenta o perfil das mulheres que fazem o aborto inseguro.

“A grande parte das mulheres que fazem o aborto de forma clandestina são mulheres de baixa renda, que fazem isso não porque o aborto é bom ou gostoso, mas pelo desespero. E porque não têm dinheiro.”

Repórter: O que o senhor pensa sobre a legalização do aborto?

Cadete: Eu acho que o aborto deve ser legalizado. Isso não quer dizer que as pessoas precisam abortar. Eu, por exemplo, sou contra o aborto. Não pratico e não praticarei. Mas por que eu acho que o aborto deve ser legalizado? As pessoas que são contra [a legalização], não são contra por ser ilegal ou não, mas por formação religiosa, por história de vida. Sendo legalizado, você pega aquelas pessoas que fariam de qualquer forma e que fazem de forma inadequada, com pessoas despreparadas e que aumentam a morbidade (as doenças) e a mortalidade da mulher. Até pouco tempo atrás, a Bahia tinha uma estatística triste, a maior causa de mortes maternas era o aborto, feito por pessoas com baixa condição socioeconômica e sanitária. Abortando com uma pessoa legal, com um médico, o risco é quase zero. É uma coisa simples, que só se torna complicada quando é mal feita.

“O aborto era feito com a introdução de alguns materiais, como talo de mamona, agulha de crochê, curetas. Introduziam isso dentro da vagina”

R: No aborto ilegal, quais são os riscos?

Dr. C: No passado, o aborto era feito com a introdução de alguns materiais, como talo de mamona, agulha de crochê, curetas. Introduziam isso dentro da vagina, e criavam uma infecção. Aquelas que não abortavam poderiam ter lesões, na mãe e no feto. A maior lesão da mãe é deixar cicatrizes na vagina, alguns jogavam até ácido na vagina, e isso causava morbidade durante a vida, dificuldades de ter relação sexual, de ter uma nova gravidez. O aborto tem que ser legalizado para evitar esse contingente de mulheres que estão morrendo. E por que elas morrem? Porque a grande parte das mulheres que fazem o aborto de forma clandestina são mulheres de baixa renda, que fazem isso não porque o aborto é bom ou gostoso, mas pelo desespero. E porque não têm dinheiro. Aquelas que têm dinheiro vão procurar os médicos caros, de grandes e bons hospitais. Então, existe uma desigualdade social, um lado da moeda muito ruim para aquelas pacientes que são de baixa renda. O aborto legalizado diminuirá muito a mortalidade das mulheres, independente de citação filosófica ou religiosa.

“Se eu achar que a vida só começa quando nasce e então matar antes do nascimento, não estou cometendo crime nenhum.”

R: Como o aborto é feito atualmente?

Dr. C: Hoje é melhor que no passado, porque existe uma droga muito conhecida, chama-se Misoprostol e foi inventada para o tratamento de doenças gástricas, mas o efeito colateral produziu o aborto. A droga é ilegal quando vendida na farmácia ou adquirida por outros meios, mas tem nos hospitais, para abortamento em curso ou restos fetais.

R: A pílula do dia seguinte é abortiva?

Dr. C: Não. Ela não é abortiva. Tem gente que acha que é (risos). A pílula do dia seguinte modifica a estrutura do útero para receber o ovo (formado após a fecundação do óvulo). Por que o aborto não é legalizado? Porque ainda não se chegou a um consenso de onde começa a vida. Para alguns, a vida começa no encontro do espermatozoide com o óvulo. Se isso for verdade, isso acontece até 24h depois da relação sexual. Para outros, só começa quando o ovo se descola e implanta no útero, isto é, oito dias depois da relação. Para alguns, só existe vida se houver a formação do cérebro, de 8 a 11 semanas, dois meses. Para outros, no segundo trimestre, e outros, só quando nasce. Isso é muito filosófico. Se eu achar que a vida só começa quando nasce e então matar antes do nascimento, não estou cometendo crime nenhum.

R: Mas se o aborto fosse legalizado, com até quantas semanas se poderia abortar?

Dr. C: O conceito de aborto na medicina vai até 20 semanas, ou quando o feto tem até 500 gramas. Acima de meio quilo é considerado parto imaturo. O aborto pode ser feito em qualquer época, mas ao fazer um aborto com um de um bebê de 400 gramas, que é muito grande, o risco de sangramento e perfuração do útero é grande. Aborto seguro é no início da gravidez, no primeiro trimestre [até 14 semanas]. O ideal é o mais cedo possível.

Escrito em Abril de 2016 para o Avoador, site laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

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