Summer is on its way.
Eu estava contando pra minha vizinha, enquanto a gente estava indo pegar um ônibus em direção a uma cidade que eu nunca quis conhecer, assistir um campeonato de CrossFit, dormir num sítio, numa rede, do lado de fora, com insetos, pessoas que eu não conhecia e com uma mala pequena que, agora, nesta aquela exata hora, às 5 horas da manhã, eu estaria pedalando para fazer CrossFit e depois ir pro Yoga, em um dia normal. Ela me perguntou o que aconteceu. Eu disse que Luana me aconteceu. Minha nova roomate é a responsável pelos passeios à feira orgânica e pedalar na chuva aos domingos.
Mas depois que eu falo isso pra Nat, uma pessoa cochicha no meu ouvido que era isso mais 40mg de fluoxetina por dia antes de sair. Eu morei sozinha por 1 ano e 8 meses. Quase. Mas não precisa de muito tempo sozinha pra começar a falar com outra pessoa. Não, não é esquizofrenia, você sabe que na real tá falando com você, mas quando um ser humano fica completamente sozinho por mais de. 4 dias e 17 horas você já debateu tantas questões na cabeça que criou mais uma, duas, três, Marinas. Depende do que você ingeriu no dia.
Eu amarrei todas essas Marinas dentro da minha cabeça com dois comprimidos por dia. Não matei porque ainda as quero de olhos abertos, vendo tudo e sem poder interferir. Mas ainda tem uma Marina aqui dentro, que conversa comigo, que responde quando eu pergunto se tudo bem a gente dormir sem tomar banho hoje. Ela sempre topa. Por isso que deixei essa Marina me respondendo. Essa Marina não sente tanta pena da Marina e também não cobra tanto da Marina. Ela me diz que está tudo ok se você descansar de manhã, mas só se se exercitar. Tudo bem passar o domingo trancada, mas só se der bom dia pro porteiro, puxar assunto com estranhos e atender o telefone. É uma das mais equilibradas, dentro do que é possível para uma Marina, claro.
Morar sozinha, além de uma certa dose de esquizofrenia, também dá depressão, ansiedade e crises de pânico. De trás pra frente agora, eu quase sempre tinha crise quando estava doente. Às 3 da manhã, quando você tá abraçada na privada, com a vista meio escura, – ou eu esqueci de ligar a luz do banheiro – vomitando roxo todo o vinho que você bebeu no dia anterior, combinado com – a última vez que comi foi no almoço – você começa a se questionar: se você morresse ali, agora, o que aconteceria? A sua pressão cai mais e você sente o chão gelando em baixo de você. Você já está vomitando a sua bile. É bem nessa hora que você começa a achar que – para que lutar e ficar boa? Vai demorar muito mais pra ficar bem do que se eu desistisse e morresse logo. Mas, eai? Talvez na segunda à tarde alguém sentisse minha falta no trabalho e achassem o meu corpo. Eu estava de calcinha e maquiagem borrada e 5 kg a mais do que gostaria e com cheiro de vômito. Meus funcionários não podem me ver assim nunca. Nem morta. Melhor colocar uma roupa e limpar essa cara para… – Você passa mais 2 minutos vomitando.Você tá há 16 horas sem beber água. Tá muito ruim. E você tá sozinha. Vai morrer sozinha. Vão te achar sozinha.
E se você sentir medo? E se doer mais do que isso morrer? – E mesmo que eu não morra hoje, eu vou aguentar morrer? Eu vou morrer em paz ou vai ser essa agonia? Eu não quero morrer sozinha. Eu tenho medo de sentir isso de novo. Medo de ter medo. Eu choro desesperadamente pq eu sei que um dia eu vou morrer. Eu sei que não vai ser hoje, porque hoje eu tô só de ressaca e sou uma panaca de não ter comido antes de encher o cu de vinho. Mas eu vou morrer e eu estou com medo. – Isso é uma crise de pânico.
Mas eventualmente passa. Quando passa sobra só uma tristeza tão profunda que só a falta da inocência trás. E uma ansiedade. Um medo. Uma fragilidade. Uma hostilidade. Mas tudo isso passa com terapia uma vez por semana + 40 mg de fluoxetina + 2 ou 5 horas de exercício por dia.
Quando você tá com depressão, todas as suas memórias ficam em preto e branco. Quando eu lembro do vômito de vinho e bile, ele é preto. Junto com o banheiro. O chão é branco. O dia anterior foi preto e branco. Tudo fica meio lavado, sem nitidez, sem contraste, sem cor. Eternos dias de chuva.
Mas a Nat é agrônoma e no caminho da nossa aventura em João Pessoa, ela me disse – a última vez que choveu tanto assim em Maceió foi há 7 anos, Ma. O clima é cíclico, no sertão tava todo mundo precisando, esse ano a safra vai ser boa. – Eu não pude concordar mais.
