O cortiço, de Aluísio Azevedo

Primeiramente, faz-se necessário tecer alguns comentários sobre o autor, Aluísio Azevedo, bem como sobre o contexto social e histórico em que se inseria à época em que a obra clássica “O cortiço” fora escrita e publicada (1890).
O jovem escritor, maranhense de nascença e pintor por vocação, foi levado ao Rio de Janeiro, ora a capital do Brasil, por seu irmão mais velho quando tinha apenas 19 anos de idade. Lá se dedicou às artes e, logo após, retornou a suas origens devido ao falecimento de seu pai.
Escreveu dois romances em São Luís, “Uma lágrima de mulher”, fortemente influenciado pelo romantismo e “O mulato”, obra precursora do naturalismo no Brasil e forte crítica ao racismo existente na burguesia maranhense. Rechaçado pela sociedade conterrânea, retorna ao Rio de Janeiro, onde escreve o livro que aqui se analisa, “O cortiço”.

A obra retrata, resumidamente, as condições materiais enfrentadas pelos trabalhadores de baixa renda no Rio de Janeiro no fim do século XIX, que se amontoaram num cortiço fétido construído por um português ganancioso.
À resenha.
O livro se inicia, relatando a biografia do tal português ganancioso, o João Romão, que outrora era empregado de vendeiro e enriqueceu — não só às custas de muito sacrifício e poupança — mas também, da condescendência de seu patrão que deixara dinheiro e a própria venda de herança para o português.
Juntou-se, mais tarde, com Bertoleza, uma negra escrava, muito trabalhadeira, a qual João Romão tomou conta de suas finanças e falsificou, sem que a coitada soubesse, sua carta de alforria. Passaram, então, a conviver e trabalhar juntos.
O português vivia em miséria e abstenção constantes, tudo em prol da máxima economia. Com isso, iniciou a construção de um cortiço para alugar as casinhas a trabalhadores de baixa renda, os quais eram seus fregueses na venda. Comprou, além disso, uma parte de pedreira, a qual seus próprios inquilinos eram os operários e suas respectivas esposas serviam de lavadeiras e exerciam os ofícios no próprio cortiço.
Vizinho ao cortiço, estava a família do Miranda, também com origens lusitanas. Mas estes eram finos, diferentemente do vendeiro. O Miranda não tinha dinheiro e nem honra, casou-se com Dona Estela, mulher de muitos dotes, porém infiel e como a grana era toda sua, o marido tinha que aguentar resignadamente, sendo sua única aspiração o título de barão. Tinham uma única filha, a Zulmira, menina pálida e prendada.
A família hospedava, ainda, Henrique, que fez safadezas com sua anfitriã, era jovem e estudante de medicina, cujo pai, fazendeiro abastado, e sua família residiam em Minas Gerais e, além desse, um velho parasita, o Botelho, que era amigo. servo do Miranda e um escravocrata ruim da peste.
João Romão e Miranda, no início, não se davam bem, já que o cortiço fedorento ofuscava o glamour do sobrado do Miranda.
A vidinha no cortiço era rotineira nos dias da semana, acordavam todos ao raiar do dia, cheiro de café. As mulheres saiam as suas tinas, para lavarem toda a roupa encomendada, a criançada barulhenta a brincar e os homens trabalhando com toda sua força até o sol se por.
O livro discorre sobre cada personagem do cortiço com detalhes. Cada um com seu drama psicológico e características peculiares. Na estalagem, os trabalhadores procriavam-se como coelhos, vez que sem quaisquer aspirações e fadados à eterna estagnação social e econômica.
Aos personagens moradores do cortiço.
De nome Leandra, mas apelidada “Machona”, uma portuguesa desquitada e com duas filhas e um caçula: a “das Dores”, também separada, a “Nenen”, moça virgem que sonhava em casório (todas, por óbvio, faziam as vezes como lavadeiras) e seu único filho, menino levado, Agostinho.
A Augusta “Carne Mole” era brasileira e branca, casada com Alexandre, soldado da polícia, tinham uma penca de filhos pequenos. Um desses, a Juju vivia na cidade com sua madrinha, Léonie, francesa prostituta, que tinha dinheiro e muito bem vestida, a que todos no cortiço bajulavam e admiravam.
Tinha também a Leocádia, portuguesa e luxuriosa, esposa de Bruno, que era ferreiro e ficava louco com as vadiagens da mulher. Além dessa, a Paula, cabocla e velha feia, a que todos chamavam de “Bruxa”, devido aos feitiços e a curanderismos que fazia em troca de umas moedas para seus vizinhos.
Depois, a Marciana, mulata e com T.O.C de limpeza. Tinha uma filha jovem, Florinda, muito sensual e hormônios à flor da pele. Segurava sua virgindade com todo zelo, apesar das investidas dos velhos safados que a circundavam.
Ainda, a Dona Isabel, que antes era rica, mas, na falência dos negócios, o marido suicidara-se, deixando-a às traças com sua filha, Pombinha, tão boazinha, atenciosa, à espera do casamento com João da Costa e, por efeito, de sua menstruação que não chegava nunca.
Ao lado do protagonismo das mulheres lavadeiras do cortiço, tinha uma figura masculina, o Albino, único homem lavadeiro. Por causa disso e de sua aparência e trejeitos afeminados, era motivo de ouvir confidências íntimas das companheiras de profissão e de brincadeiras de mau gosto dos homens.
Não menos importante, a Rita Baiana. Mulher bonita, brasileira, mulata, boa dançarina e cozinheira, gostava de ser livre e de seduzir. Tinha um caso com o Firmo, um capoeira bravo e assassino, que não morava com ela, mas vinha às vezes no cortiço ter com ela e fazer uma música boa pros pobres coitados que ali moravam.
E a vida seguia. Mulheres a trabalhar nas tinas, lavando, passando, engomando, limpando casa, fazendo comida, satisfazendo os maridos, engravidando, cuidando das crianças; Homens, trabalhando com os braços, e nos descansos, bebendo, fazendo música e filhos. João Romão a explorá-los e a juntar dinheiro. Bertoleza na ilusão de que era livre e braço direito e indispensável ao vendeiro, trabalhava que nem uma condenada, antes fosse escrava, mas se contentava nessa vida, por pensar uma velhice segura. A família do Miranda no seu sobrado, indiferentes àquela gente que sobrevivia em baixo de seu queixo.
Eis que chega o português, Jerônimo, novo encarregado da pedreira, mais novo contratado de João Romão, o qual teve de abrir a mão para adquirir o empenho, disciplina e seriedade da mão de obra do cavouqueiro. Chega ao cortiço, acompanhado da esposa, Piedade, portuguesa com suas mesmas características positivas, dava a vida pelo marido, o qual tinha imenso orgulho. Tinham uma filhinha, que o pai, com muito esmero, pagava o internato, a fim de garantir vida diferente da dele a sua cria.
Jeromo, como era chamado pelos queridos, num primeiro momento, expressava muita saudade da pátria portuguesa. Gostava que a mulher preparasse pratos típicos de lá, todas as noites tocava e cantava em sua guitarra cânticos de lá, bebia vinho do porto, não se asseava como os brasileiros e nem admirava o jeito daqui de ser mole, preguiçoso, sedutor.
Domingo era dia da população do cortiço descansar e fazer o que bem entendesse, dentro de suas poucas opções de lazer. Por isso, bebiam, davam banho nas crianças, vestiam-se de roupas limpas e o pagode e comida boa rolavam solto até altas horas — exceto para Bertoleza, coitada, que não tinha domingo, nem dia santo.
Num desses domingos, acontece que Jerônimo assiste a beleza brasileira de Rita Baiana dançar um samba, em toda sua leveza e requebrado e não resiste, se apaixona loucamente. Caindo em profunda doença da paixão.
Depois disso, uma reviravolta ocorre em sua vida. Jeromo abrasileira-se, deixa pra trás todo resquício da pátria portuguesa: se vicia no café e no parati (cachaça), não quer mais as comidas portuguesas, até o cheiro da esposa lhe dá asco e ela mesma já não lhe serve mais. Nem o afinco pelo trabalho que antes tinha, agora tem mais. Só tem olhos e desejos por Rita.
Numa das investidas que dá contra a mulata, Firmo, o seu parceiro ciumento, se descontrola e se inicia uma disputa feroz entre o português e o brasileiro. Na primeira, Jeromo é ferido e vai parar no hospital. Quando retorna, contudo, planeja a morte do rival e a fuga com Rita Baiana. Ambos os planos dão certo e Piedade, coitada, é abandonada e indigna-se com o demônio que possuíra seu esposo outrora tão zeloso e correto, por isso, vicia-se no álcool, na cachaça brasileira, para aguentar as facadas que a vida dá.
Outra história que chama atenção, ao mesmo tempo, é o destino de Pombinha, que após ser violentada sexualmente por sua estimada Léonie, desce-lhe a menstruação. Com ela, o esclarecimento de que homens, apesar de aparentarem ser fortes e os principais na relação com a mulher, nada mais são do que frágeis coitados indefesos que se rastejam e de tudo se humilham pela satisfação de ter a feminilidade ao lado.
Assim, após casar-se com João da Costa e tentar ser uma “esposa padrão”, não resiste às tentações do mundo, que lhe foram apresentadas por Léonie e acaba por se tornar prostituta de luxo, tal como a mentora.
Enquanto isso, João Romão passa a invejar o Miranda — que agora alcançou o título de barão — e muda drasticamente de estilo de vida: se arruma todo, reforma sua casa, não ajuda mais no trabalho, agora é o verdadeiro capitalista: vai a teatros, óperas e frequenta muito mais a cidade. Quer a filha do Miranda como esposa, a jovem Zulmira e o velho Botelho lhe ajuda nas arrumações com o Miranda.
Só tem um problema: como se livrar da negra Bertoleza?
Após até pensar em assassinar a coitada, o racista Botelho lhe lembra que a negra ainda é escrava de outro. Então, denunciam para o antigo dono e quando vem buscá-la, a negra, não acreditando que João Romão a traíra de tal maneira, nem coragem de matá-la o cafajeste teve, com seu instrumento mais comum de trabalho — a faca de limpar peixe — abre seu ventre de fora a fora e liberta-se, enfim. Da vida que ninguém merece ter.
