O câncer e o futebol

Sábado, 6 de maio, ao voltar da faculdade, me preparava para chegar em casa e cair no sono após quase 30 horas acordado. Seu Francisco, o meu pai, se preparava para a sua estreia no campeonato intermunicipal da categoria 55+. Aos 58 anos, ainda segue com a condição física de alguém anos mais jovem. O mesmo vale para a paixão e a vontade de jogar, essas nunca o abandonaram. Os olhos, aparentemente cansados. Foi dormir tarde e não haveria tempo suficiente para descansar, pois, a partida havia sido marcada para iniciar as 13h30. Os minutos que lhe restavam antes do jogo seriam insuficientes até para almoçar.

Ele, que por sinal, até o amadurecimento dos filhos, se desdobrava em meio a futebol, trabalho e cuidar das crianças após o falecimento da minha mãe. E assim como sempre se destacou dentro de campo ou quadra, desempenhou um papel do mesmo nível fora deles.

No dia do jogo, no pouco tempo que lhe sobrara para fazer alguma coisa, recorreu a uma vitamina de beterraba com laranja, o popular Suco Rosa. Em meio a esse período eu chegava, e vinha comigo uma preocupação. Meu pai tem câncer e no horário da partida… geralmente tem sol forte.

O já citado câncer é de pele, especificamente no nariz, e possivelmente é o maior desafio e adversário que meu pai vem enfrentando ao longo dos últimos tempos. Apesar de o inimigo ser um Barcelona na escala de perigo, meu progenitor aparentemente não o temia. Pelo contrário, parecia mais disposto a enfrenta-lo, principalmente quando podia desfrutar de seu maior prazer, o futebol. Em uma das aventuras que tivemos no mundo da bola, a qual já foi contada em um texto anterior a esse, o então “carcinoma” já havia dado indícios, mas não aparentava ser o que viria a se tornar.

No que discorria o tempo, em uma conversa rápida nossa, a qual pareceu mais uma entrevista ping pong entre o meu pai e eu, lembrara de que havia prometido que assistiria ao jogo daquela tarde. E como promessa é dívida, iria cumprir. Mas em meio ao cansaço e a felicidade por poder contar com a presença do filho na torcida, para quem é próximo poderia se notar um certo e estranho abatimento. Na sexta, após alguns exames, a provável data para a cirurgia havia sido colocada em mesa. Dos problemas, para ele esse era o menor, o qual mais o preocupara é o fato do seu nariz precisar de uma “plástica” após o procedimento cirúrgico.

Como eu, seguia o seu rumo. Um para o chuveiro e outro para o campo de futebol. Como eu, também estava preocupado. Nos últimos dias, conversamos muito sobre velocidade, resistência e derivados. Sentia no ar um leve receio, mas que logo seria deixado de lado. Entre as conversas, um dos famigerados “fut dos Jornalistas” da minha faculdade. Veteranos do jornal contra os calouros da comunicação era a bola da vez. Meu pai, por um breve momento foi escalado para a partida, devido a falta de um membro da minha equipe, mas acabou não acontecendo.

Vitória dos veteranos. Não foi merecida, eu reconheço. Faltava marcação na nossa equipe, e o meu pai, seria o zagueiro. Um dos então chamados “Bixos da comunicação” era muito veloz. Ele, que praticamente carregou os adversários nas costas, deu um senhor trabalho, sendo parado somente na falta. Velocidade, o que tanto conversamos após esse jogo não faltava para os demais colegas. O que faltava era conhecer os atalhos do campo. Quem tem 58 anos, em 90% dos casos é mais lento do que alguém com 20, mas, meu pai, que sempre se cuidou, não bebia e tampouco fumava, foge um pouco dessa linha.

Já chegava a marca das 30 horas acordado e em meio a um atraso para chegar ao campo, a equipe da casa já perdia por 1 a 0, com pouco mais de 15 minutos do primeiro tempo. Meu tio Jorge, que havia chegado no exato momento do gol, foi quem me avisou. “Nem te preocupa que não foi falha do Chico, foi de fora da área”, disse, como se notasse uma possível preocupação. O jogo seguia, e junto dele um sol de rachar.

O calor que fazia naquele sábado era de causar certa estranheza para uma tarde de outono. Como se não bastassem os 11 dentro de campo, meu pai teria que enfrentar outros dois junto deles. A primeira etapa terminaria com o segundo gol adversário, novamente de fora da área, mas dessa vez com colaboração do goleiro.

Atualmente, 8,2 milhões de pessoas morrem por ano de câncer no mundo. No Brasil, foram registradas 189.454 mortes por câncer em 2013. Entres os diversos tipos, o mais incidente foi o de pele. O que às vezes pode ser uma mancha, ou até mesmo uma espinha, a qual não se dá muita importância, pode ser o início de um carcinoma.

Mas voltando ao jogo, por mais que a derrota estivesse sendo contabilizada no placar, o que se via dentro de campo era equilíbrio. O time da casa não aproveitava as inúmeras chances a seu favor, acabou pagando caro. No intervalo, uma rápida conversa e pedidos para o meu pai passar a jogar de volante no segundo tempo. O time perdia o jogo no meio-campo. Faltava alguém técnico naquela faixa e meio aos desfalques, era ele quem poderia suprir a carência no setor.

Como eu, meu pai é teimoso. Como eu, também tem o pavio curto. Só que diferentemente do filho, sabe lidar com isso no futebol. Mauro, o seu companheiro de defesa é um bom zagueiro, mas estava em um dia ruim. Em seus três toques na bola, ele cometeu faltas que acarretaram em um cartão amarelo. Devido a falta de proteção na meia-cancha, seria apontado por quem assistia de fora como o responsável direto pelo terceiro gol adversário. Os amigos dos veteranos, que se reuniam todos os sábados para amistosos naquele campo, lamentavam não poder ajudar os amigos. A maior parte deles tem menos de 55 anos, o que de fato é um empecilho para a disputa do torneio.

Não se via intensidade. “Mas são uma cambada de velhos, não tem como existir intensidade”, dizia o meu tio. Realmente, essa não era a palavra certa para se usar. Mas não havia compactação, nem transição. O meio era uma bagunça, justamente ele que é o principal campo de batalha em uma partida de futebol. É o meio quem geralmente dita o vencedor

As jogadas dependiam praticamente de um ataque de velocidade, que jogava pela ponta direita para fazer o facão. Faltou capricho nas suas finalizações. Mesmo com a bagunça na meia da equipe da casa, o resultado não mostrava o que era visto em campo. Para piorar ainda mais, o adversário marcaria o quarto gol. Novamente em jogada com contribuição de jogadores da zona intermediária.

O que me amassava era que mesmo com a goleada acachapante, o placar ainda era injusto. Não era apenas isso. Via que meu pai mesmo abatido pelo placar, seguia buscando motivação em cada jogada que disputava. Não perdeu uma durante os 70 minutos que assisti. Como não havia mais nada a temer, parece que lá no fundo ele resolveu escutar um jovem torcedor, já sem voz, e começou a jogar no meio.

Foi com surpresa e indisfarçável contentamento de quem via de fora, que já conhece o pai do escritor há um bom tempo, que a equipe melhorou de rendimento. Agora sim a central do gramado ganhava o “carinho” que faltou durante os 90 minutos. Logo, o Bonsucesso descontaria com dois gols relâmpagos. Haveria tempo para o centroavante perder um gol com o goleiro já caído, mas que devido a idade, faltou força na perna para completar.

O placar ficaria por isso mesmo. 4 a 2, mas com gosto de que era possível ter saído de campo com um resultado melhor. Logo, isso foi deixado de lado, já que a cerveja que os esperava estava esquentando. Eis que, entre um murmúrio e outro, recordo-me de escutar dois amigos preocupados com a mancha preta no nariz do meu pai. Devido ao sol e ao calor, o suor fazia com que ela parecesse algo ainda pior.

Por mais que o perigo esteja em vista, é um adversário que meu pai vem sabendo lidar. Dentro de campo já enfrentou rivais duríssimos e saiu vitorioso. Quando era mais novo, em uma de suas aventuras com a bola, enfrentou o hoje comentarista, Batista, no litoral gaúcho. Na época o ex-volante já era titular do Inter, e o meu pai, alguns anos mais novo que ele, seguia com o sonho de ser jogador.

De férias em uma das praias, mal sabia o ex-jogador que teria que parar aquele rapaz franzino e com uma vasta cabeleira com chegadas brutas. “Eu entortei o Batista na praia. Como era muito rápido e fazia o que bem entendia com a bola, partia para cima sem medo. Ele não aceitou e me “levantou” algumas vezes. Não tinha problema, isso me dava ainda mais vontade de jogar”.

O câncer e o futebol estão ali, lado a lado. Um como prazer e o outro como odiado. E esse, como seu adversário, sairá derrotado. Não há motivo para ser diferente. Para conter o carcinoma e liquidar com ele de uma vez por todas, uma cirurgia está para ser agendada em junho, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Casos assim continuarão acontecendo, como o do jogador de futsal, Neto, que retirou um tumor do pulmão. “A m**da é que vou ficar com o nariz deformado e vou precisar de uma plástica, e pra piorar vou perder jogos do campeonato”, lamentou meu pai, que num primeiro apontamento médico lhe foi dito que era somente uma espinha.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.