Os 68%

Desde o início de 2016, é cada vez mais comum nos discursos pró-impeachment o impressionante dado: 68% dos eleitores brasileiros são favoráveis ao impedimento da presidenta. Estranhamente, esta informação não enfrentou barreiras para ser assimilada e já figurava como um elemento nas minhas previsões sobre o futuro político do país — eu não havia me atentado para a perversidade e sobretudo para o absurdo que é esta afirmação.

O órgão responsável por este dado é o instituto Datafolha. Afirmo com toda certeza que não fui questionada pelo instituto acerca de minha opinião sobre o assunto, e afirmo também com igual certeza que sou uma eleitora brasileira cujo título está em plena validade. Teria então o Datafolha perguntado a opinião de todos os eleitores e acidentalmente se esquecido de mim?

Não, não foi isso que aconteceu. As pesquisas do Datafolha são realizadas por amostragem — isto é, tomam se as opiniões apenas de uma parte de determinado universo (eleitores brasileiros, no caso) de tal forma que essa parte abranja pessoas de comunidades diferentes, de modo que o resultado reflita com relativa precisão a opinião do contingente total. A pesquisa realizada acerca do impedimento da presidenta entrevistou 2.794 eleitores em 171 municípios. Nessa altura, já posso responder a pergunta do parágrafo anterior: o Datafolha não me entrevistou, ele induziu a minha posição. Um tanto pretensioso, não?

Principalmente se trazido à luz o fato de que, segundo o TSE, mais de 142 milhões de eleitores votaram nas últimas eleições presidenciais — que elegeram com mais de 55 milhões de votos a presidenta Dilma. Cinquenta e cinco milhões de eleitores presencialmente, não por amostragem.

Um pouco mais do que os quase 3 mil ouvidos pelo Datafolha.

O Datafolha não precisa de números para justificar sua pesquisa. A insatisfação está clara, os brasileiros estão nas ruas pedindo o impeachment. Segundo a polícia militar, as maiores manifestações foram realizadas em 13 de março de 2016 e contaram nacionalmente com 3,6 milhões de pessoas. Bem mais do que os míseros 3 mil do Datafolha, mas a conta ainda não bate.

Há também os panelaços. No mais populoso bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, Copacabana, residem aproximadamente 140 mil pessoas. Em Ipanema, mais de 42 mil. Somados os bairros paulistanos Morumbi, Bela Vista e Pinheiros temos mais 400 mil pessoas. Seriam 400 mil panelas? Supondo que o estado de São Paulo inteiro estivesse batendo panelas. São 44 milhões de pessoas. Ainda não são 68%, ainda é pouco.

É pouco para substanciar o impedimento de uma presidenta eleita por tantos. É pouca transparência por parte de quem faz parte desse jogo de interesses e informações. É pouca verdade, é pouca responsabilidade. É muito pouco para deliberadamente ignorar a minha opinião.

Se existe um golpe em curso no Brasil, eu não tenho dúvida alguma de que é um golpe da mídia contra o país. Um golpe daqueles que detêm o controle sobre os meios de comunicação contra aqueles que são manipulados pela realidade ilusória que estes meios retratam.

A questão não é quem assume a presidência. A questão é que ninguém, salvo o povo brasileiro, deveria ter o poder para decidir.

Gráfico apresentado pelo jornal do Globo News.