ARQUIVO PSICODÉLICO NACIONAL

Nada mais adequado do que abrir uma lista que pretende sondar o Psicodelismo no Brasil com a banda que encarna a reinvenção no nome: Mutantes. A balada “Fuga nº II” — autoria de Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee — abre sua mala cheia de ilusão para apresentar a viagem mutante com itens básicos e obrigatórios da psicodelia conferidos: temática libertária, experimentação de sons, melodia inspirada e estrutura amorfa que vai da balada à valsa sem perder o fio condutor da bela canção ao melhor estilo chute-o-balde hippista.

Não daria mesmo para falar de psicodelismo sem injetar o movimento hippie na transação. O sincronismo mágico que fez explodir corações e mentes da juventude ocidental ao final da década de 1960, rompeu padrões do anacrônico modelo de sociedade vigente, transgredindo conceitos ligados aos exercícios do amor e da guerra ao contrapor politicamente o lema Peace & Love à brutalidade ianque no Vietnã. O uso indiscriminado de drogas praticado por esses jovens seja para fuga ou recreação teve no LSD (Dietilamida do Ácido Lisérgico) sua maior estrela. Entre a busca do equilíbrio corpo-espírito das pinturas viajandonas de Alex Grey e a pop-art da-lata de Andy Warhol, criadores contemporâneos a essa revolução de costumes repaginaram o resultado de seu trabalho fazendo nascer a estética psicodélica que derivava basicamente da alteração de percepção do mundo exterior que o ácido provocava. Cinquenta microgramas debaixo da língua proporcionavam uma viagem de 12 horas ininterruptas onde multiplicava-se a capacidade da percepção das cores e alterava-se a recepção de sons, só para citar algumas modificações receptoras. Manifestava-se também o fenômeno da sinestesia no qual as informações sensoriais podem misturar-se capacitando o usuário a, por exemplo, “ouvir” uma cor e “ver” um som. A Música Psicodélica, participando dessa gênese lisérgica, seria uma espécie de droga para ouvir inspirando gênios a relatarem suas viagens através de sons e palavras não plugadas necessariamente na lógica cognitiva usual. O LP dos Beatles que inaugurou em 1968 o conceito de álbum, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, é sua mais perfeita bandeira e tradução.

Embora sem a motivação de uma guerra, parte dos jovens de classe média no Brasil tinha na reação à perda de liberdade impetrada pelo Golpe de 1964 motivo de engajamento (através de protestos e até luta armada) ou alienação. Na música, o psicodelismo abriria uma terceira via aos opostos Jovem Guarda/Canção de protesto atraindo para ele uma penca de artistas que nem sempre tiveram sequer o nome incluído na história da música produzida no país.

Entre os artistas que transpuseram o rótulo, além de Os Mutantes que também aparecem em quatro trabalhos solo de Rita Lee e Arnaldo Baptista, está, pasmem, o Pequeno Príncipe da Jovem Guarda: Ronnie Von. É, ele tem na discografia suas ousadias psicodélicas com as quais tentou escapar da sina de cantor romântico que acabou por definitivamente abraçar. Delas selecionamos “Silvia 20 Horas Domingo” de 1969 e seu encontro em disco com os afilhados Mutantes na hilária “O homem da bicicleta” de 1967. Para quem estranhou apadrinhamento da banda por Ronnie, é bom informar que foi o cantor quem sugeriu o nome para o grupo inspirado no livro “O Império dos Mutantes” (de Stefan Wul) que devorava à época.

Vale ressaltar que, ao contrário de gêneros como o Heavy Metal, com contornos quase de “seitas” ante o compromisso de seus filiados, o aspecto livre dessa linguagem influenciava a todos sem que esses fossem taxados de seguidores, representantes do segmento ou até mesmo usuários da química sintética que potencializava a criatividade. Nesse escaninho temos ainda o Tropicalismo que embarcava na viagem para evidenciar sua conexão com a aldeia pop global e efetivar sua “negação” à Bossa Nova também por essa fresca via alternativa. Do disco “Gal Costa” de 1969, ouve-se aqui a contestatória “Cultura e Civilização” de Gilberto Gil e “The Empty Boat” de Caetano — ambas, libelos dos duros temos londrinos de deportação dos dois baianos. À presença híbrida dos Mutantes na Tropicália representada na lista por “Panis et cincenses” — também de Caetano e Gil, soma-se a de Tom Zé com a industrial “Botaram tanta fumaça” exibindo uma pegada antropofágica brazuca típica do movimento.

Esgotado pelo trabalho castrador de atender às encomendas de trilhas para novela, influenciado pela pegada do piano de Elton John e pela convivência com artistas da cena do rock progressivo nacional (uma das ramificações derivadas da psicodelia), Marcos Valle participa também da gig fazendo um disco praticamente inteiro baseado na liberdade psicodélica cuja faixa título, “Vento Sul”, e “Deixa o mundo e o sol entrar” — ambas em parceria com o irmão Paulo Sérgio Valle — são bastante representativas. De Ipanema para Itapoã, extraídas do disco “Ferro na boneca” de 1970 situado no período pré-encontro com João Gilberto, aparecem a faixa-título do LP e “Colégio de Aplicação” dos Novos Baianos ostentando a base portentosa dos extintos Leif´s dos irmãos Jorge e Pepeu Gomes e as letras idílicas de Galvão para garantir a filiação psicodélica. Como mais um exemplo da influência estética definitivamente sedimentada na MPB, vale conferir “Voo” do segundo disco dos meteóricos Secos & Molhados de 1974.

Um descompromissado flerte psicodélico pode ser notado no trabalho de um Alceu Valença estreante. A energética e semi-mântrica “Sol e chuva” e “Papagaio do futuro” cortam em direção ao sul o céu nordestino de 1974 onde o movimento psicodélico já fervilhava com o grupo Ave Sangria, de seu guitarrista até hoje — Paulo Rafael — aqui com duas faixas: “Momento na praça” e “O pirata”. Da mesma região curiosamente influenciada pela estética psicodélica estão os especialistas Marconi Notaro e sua “Made in PB” do curioso álbum “No Sub Reino dos Metazoários” e “Beira mar” — de Lula Côrtes e de Zé Ramalho (este em sua estreia fonográfica) — faixa integrante do lendário disco “Paêbirú” que ganhou mundo pela excentricidade de tornar-se um dos mais raros LPs do planeta (duplo com apenas 11 faixas) por sua fita máster e a maior parte da primeira e única fornada ter sido perdida na enchente de 1975 que se abateu sobre o Recife.

Bandas que apoiaram Milton Nascimento e Gal Costa também integram a coleção. Os mineiros do Som Imaginário contribuem com “Morse” e com “Feira Moderna” — de Lô Borges, Fernando Brant e Beto Guedes — defendida pelo grupo no quinto Festival Internacional da Canção. Vindos dos shows de Gal, Os Brazões mostram “Feitiço” de Tom Zé e “Gotham City”, de Macalé e Capinam, que defenderam na edição anterior do mesmo festival em 1969.

As carioquices psicodélicas de A Bolha, Modulo 1000, Paulo Bagunça e Guilherme Lamounier, reforçam o conceito de que a linguagem do psicodelismo não tem tempo ou lugar. Ainda que até hoje existam especialistas muito dedicados, o estilo não se tornou exclusivamente um gênero, mas, uma ferramenta de expressão musical conquistada a partir de 1968 que se espalhou e foi assimilada naturalmente dentro de vários gêneros e tendências que abrigam artistas tanto do rock quanto do Pop ou da MPB.

Ponham os fones, relaxem e aproveitem a viagem!

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