
Zeca Baleiro e Chico César — Parceiros MPB
Simplesmente por achar que os dois se identificariam, o jornalista maranhense Celso Borges realizou a importante liturgia aos olhos dos deuses da música de apresentar o conterrâneo Zeca Baleiro a Chico César sem saber que deflagraria o choque de dois universos criativos de grande representatividade potencial naquele final de milênio para a MPB.
Contudo, não só os biotipos completamente díspares separavam o longilíneo Zeca do pequenino Chico. Muito embora egressos do interior da metade norte do país que migraram seus talentos para Sampa e não para o ensolarado Rio, José Ribamar Coelho Santos viera do meio-Norte, mais precisamente de Irará, enquanto Francisco César Gonçalves deslocara-se desde o Catolé do Rocha, sua cidade natal paraibana. Diferenças regionais de consequências estéticas acentuadas no estilo e na substância de suas canções.Chico, mais velho, de 1964, e Zeca, de 1966, nasceram numa década em que dois anos poderiam significar vinte, dada a velocidade das transformações culturais, políticas e de comportamento que o planeta sofreria.
No primeiro encontro na casa de Chico — precipitado também pela urgência de um amplificador emprestado para o primeiro show de Zeca em um barzinho na região que se tornaria o bunker artístico da dupla, a Zona Oeste de São Paulo — Baleiro mostrou suas canções a Chico. A partir dali parceria, amizade e projetos cresceriam para andarem paralelos por algumas décadas. Por um curto tempo, aliás, dividiram um endereço paulistano comum na efervescente Rua Heitor Penteado. Estendida até a um estúdio em sociedade na Avenida Pompéia, prejuízos mostraram que a parceria seria realmente produtiva apenas na arte. A dupla teve então os devidos (e merecidos) fracassos administrativos para focarem na conquista do público primeiramente da capital paulista para em seguida serem apoiados pelo produtor Mazzola, dono do selo MZA, na época distribuído pela Universal Music, onde gravaram seus primeiros e muito bem sucedidos discos a nível nacional.
Cuzcuz Clã (1996) e Por Onde Andará Stephen Fry? (1997), respectivamente de Chico e Zeca, seriam seus incensados discos de estreia ao excetuarmos, no caso de Chico César, o fenomênico projeto Aos Vivos — registro de palco feito pelo selo Velas. De um lado temos os standards “Mama África” e “À Primeira Vista” — ambas apenas de Chico César. Na primeira, Jamaica e Brasil denunciam a dupla jornada da mãe África na tarefa sublime de espalhar a negritude pelo planeta e empacotar o preconceito em subempregos. A balada seguinte, gravada com sucesso por Daniela Mercury, deu ainda mais visibilidade a um emergenteChico, que abriria portas para Zeca Baleiro com o registro do delicioso carimbó, “Pedra De Responsa”, autoria dos dois.
Zeca Baleiro, a seu turno, debuta batucando com Chico no terreiro de umbanda aberto com “Mamãe Oxum”, regrava à sua maneira “Pedra de responsa” e atualiza influências tropicalistas com a pós-romântica“Flor da pele”, na qual sampleia Gal Costa (“oh! Minha honey, baby…”) que renderia a ele um convite para o Acústico MTV da artista, produzido também por Mazzola.
Autores por vocação e intérpretes pela própria urgência da expressão, ambos sempre estiveram abertos a releituras. Chico César, menos constante, tem aqui seu exemplo com a irônica LGTB friendly “A nível de…”, feita para o Songbook de João Bosco, que a compôs com o Aldir Blanc. Por sua vez, a Zeca Baleiro apraz a brincadeira de intérprete e aqui é possível ouvir na popular “Eu, você e a praça”, do ídolo Odair José, para quem produziu disco em seu selo Saravá, no avesso romântico de Chorão cunhado em “Proibida pra mim (Grazon)” e na bela “Ave de prata” — pérola do projeto “Zeca Baleiro Canta Zé Ramalho”, dedicado inteiramente à obra do último, que aparece dividindo com Baleiro a ácida e divertida “Bienal”.
Neste escaninho de duetos, Zeca traz ainda para a lista o xará Pagodinho, no samba de breque “Samba do approach”, e em “Não tenho tempo” ao vivo com Fagner, com quem dividiu um disco inteiro: Raimundo Fagner & Zeca Baleiro. Já Chico César, que ecoa mais naturalmente na verve da tradicional MPB, canta com o xará Buarque a sofrida “Antinome”, com a alteza Maria Bethânia sua “A força que nunca seca” em parceria com a gata Vanessa da Mata e o lindo xote “Paraíba, meu amor” com o conterrâneo sanfoneiro,Flávio José.
A aventura política de três anos de Chico César na Cultura do Estado da Paraíba desandou um pouco o passo em sincronia dos dois artistas no tabuleiro musical brasileiro, mas rapidamente outro “estado”, o de poesia, resgatou o artista para um novo disco homônimo: “Estado de poesia” do qual degustamos além da faixa-título a canção “Da taça”, enquanto do parceiro que nunca tirou férias da música podemos ouvir a beatlemaníaca “Era domingo” de seu novo disco também assim chamado.
Talvez os mais importantes cantautores da mais recente safra do país, para sempre será importante poder tê-los, vê-los e ouvi-los atuantes e parceiros numa MPB que é eternamente contemporânea em seu estado de domingo definitivo.
Este texto é parte integrante do conteúdo musical disponibilizado em streaming para os assinantes do Vivo Música by Napster. Ouça a playlist na íntegra aqui.
