ouro
cheguei em casa depois do trabalho.
abri os portões, guardei o carro e andei pelo quintal. empurrei a porta, que ficava sempre encostada, nunca trancada, e entrei em casa.
deixei a bolsa no sofá e comecei a procurar. eu não ouvia as vozes de sempre, nem as risadinhas, tão pouco o choro alto.
me virei e sai de minha casa. atravessei o quintal e entrei na outra casa. a mais antiga. onde o cheiro das panelas cozinhando o jantar era um lembrete de que eu sempre poderia voltar. sorri.
ao longe, ouvi vozes. primeiro ouvi o que deveria ter sido um choro alto vindo dos pulmões mais fortes da casa, mas que agora cessavam em apenas alguns soluços.
me aproximei da porta da sala, que estava entreaberta e pude ver que não estava sozinha mesmo, afinal de contas. espiei.
vi, em cima do sofá, uma coisa gordinha e pequena. com bracinhos e perninhas, uma cabeça careca e uma testa bem grande para alguém com tão poucos meses. a fralda que parecia ter sido trocada há pouco, cheguei a me perguntar se ela teria dado tanto trabalho nesse momento. estava sentada, soluçando, enquanto olhava para alguém maior. pouco curvada, com braços e mãos marcados por anos trabalhando em fazendas e, depois, por máquinas de costura.
quando vi a sombra pude ouvir, com certa dificuldade, o que a mais velha dizia.
eu já perdi muitas coisas. perdi minha filha, meu filho, meu marido. eu perdi muita gente. e você chegou. você é a maior alegria da minha vida.
não precisa chorar mais, sua mãe deve estar chegando.
eu acredito que tive muitos momentos bons e o dobro de momentos ruins. mas ali eu pude ver que poucas coisas em toda a minha vida teriam aquela força.
contra minha vontade, meus olhos ficaram pesados e a água começou a cair. antes de começar a soluçar como a bebê que há pouco poderia ser ouvida em outras casas, senti uma sombra atrás de mim se aproximar.
era mais alto, magro e, naquele dia, usava os óculos que mais pareciam dois fundos de garrafa, com a armação quebrada em um dos lados. ele me olhou e disse:
eu também ouvi.
sorrindo, meu irmão empurrou a porta e me disse pra ir na frente.
os olhinhos verdes se arregalaram e eu pude ver a boca sem nenhum dente se abrir em um ‘O’. minha avó virou de costas limpando o rosto com uma das barras do vestido azul. repetindo que havia caído algo em seu olho, ou qualquer desculpa esfarrapada dessas.
a pequena, que mal se sustentava em pé, tentou rolar do sofá para o chão e se aproximar daquilo que seria o mais próximo que um bebê poderia fazer em uma corrida.
agarrei a menina que vinha em minha direção e comecei a pensar em desculpas para não sair mais dali. no primeiro dia da escolinha, do ensino médio, do trabalho. eu queria guardar esse momento. com todas as minhas forças, me pareceu que nem todo o tempo do mundo seria o bastante para viver aquele fim de tarde.
o sol entrava pelas frestas da porta da sala. as paredes estavam banhadas em ouro. eu olhava ao redor e via exatamente tudo o que eu precisava. com ele segurando meus ombros, ela me encarando com uma expressão engraçada de satisfação e, no meu colo, a pequena que não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
naquela sala eu via todo o ouro do mundo.