Inside Llewyn Davis

Uma balada dos irmãos Coen


Aviso: provavelmente contém spoilers.

Assim que terminei de ver Inside Llewyn Davis, já sabia que escreveria sobre ele. Desde já adianto que tenho consciência que não é o melhor filme dos irmãos Coen dentre os que vi, mas definitivamente se tornou o meu preferido. Como paixão à primeira vista, é difícil de explicar, mas tentarei expor alguns fatos sobre o filme e momentos que me encantaram.

Como em todos os filmes deles, tem humor negro, mas também um pouco de road movie e um final enigmático, além da colaboração habitual de T Bone Burnett na maravilhosa trilha sonora.

O filme conta a história de Llewyn Davis (Oscar Isaac) , um músico de folk em Nova York (especificamente Greenwich Village) nos anos 60, um pouco antes desse estilo de música se popularizar mundialmente através de cantores como, por exemplo, Bob Dylan. O protagonista não tem uma residência fixa, dorme cada noite na casa de algum amigo, às vezes consegue tocar sua música no popular Gaslight Cafe , seu disco solo de mesmo título do filme não vende bem e seu ex-parceiro musical cometeu suidício (alguns elementos ao longo do filme reforçam a idéia de fracasso, como a falta de um casaco de frio próprio para o inverno de NY e quando, além disso, Llewyn tem que ficar com as meias molhadas ao chegar em Chicago). Sem nada a perder, ele embarca numa jornada que se torna uma desventura, palavra que praticamente resume o filme.

Já fui conquistada na cena de abertura, na qual Llewyn canta Hang Me, Oh Hang Me. A música, originalmente de Dave Van Ronk (em breve falo mais sobre isso), é linda e reflete poeticamente a vida do personagem. Aqui nesse artigo em inglês, Bill Desowitz conversa com Bruno Delbonnel, responsável pela cinematografia, e o engenheiro de som Skip Lievsay (o mesmo de Gravidade) sobre a cena em questão. Tudo foi pensado para que o espectador se sinta no Gaslight naquele momento, assistindo Llewyn cantar. A iluminação também é diferenciada nessa cena, tem mais luz do que o resto do filme incidindo sobre o ator, explica o artigo, mostrando que ele tem não só um lado melancólico e desesperançoso, mas também o lado de músico folk que está imerso na canção.

“ If it was never new, and it never gets old, then it’s a folk song.”

Tudo na vida de Llewyn vai errado e a personagem de Carey Mulligan reforça isso, constantemente o ofendendo (o que irrita com o tempo, mas percebe-se ela gosta dele e a ajuda que ela proporciona é importante para o início/fim do filme), assim como o personagem caricato de John Goodman (no que faz parte do humor negro do filme) e Garrett Hedlund (que revisita, de certa forma, seu papel em On the Road). Li várias coisas sobre a atuação de Oscar Isaac, mas na realidade muito me agradou a forma como ele interpreta Llewyn, cansado, triste, definitivamente não é um herói, mas vemos a sensibilidade no olhar dele, quando canta ou em momentos chave da história.

A meu ver, muito do que deprime Llewyn Davis advém da morte do seu parceiro musical, provavelmente um grande amigo, fato que findou as chances de transformá-lo em um músico de sucesso. Quando vemos os discos solo dele “encalhados”; na cena em que ele descobre na casa de Al Cody (Adam Driver) discos na mesma situação; no jantar com os Gorfein e, especialmente, no seu encontro com Bud Grossman (F. Murray Abraham).

Nessa cena em especial, após Bud Grossman ver a apresentação de LLewyn e dizer para ele voltar para o parceiro, reafirma-se o estigma que Llewyn carrega sobre esse fato e o de que ele nunca será um cantor solo que “faz dinheiro”.

Esse fracasso se reflete na forma como vê seus colegas do meio musical, como na cena em que Jean, Jim (Justin Timberlake) e Troy (Stark Sands) cantam Five Hundred Miles, por exemplo, e todos no bar cantam juntos.

http://www.youtube.com/watch?v=4rnvY3C1Y4Q

Apesar disso, ele é um personagem multidimensional, que se sente culpado e carrega um peso enorme sob suas costas, como quando não pára em Akron ou acha que atropela o falso gato dos Gorfein e ajudando Jean sem ter certeza se causou mesmo a situação, e para mim aí reside o mérito de Oscar Isaac ao compor Llewyn Davis.

A fotografia transforma o universo do filme em algo como um sonho, refletindo o estado de espírito de Llewyn, dessaturado (não monocromático, vale ressaltar), frio e solitário, quase um conto de fadas inverso, nebuloso como se para refletir o futuro do personagem.

Entre as críticas negativas, li que o filme é entediante, sem graça e que não reflete o que foi a cena folk da época (lembremos que isso é um filme), além de ser uma jornada que vai do nada para lugar nenhum, sem sentido e apenas deprimente. De fato, nada dá certo para o personagem, todas as pequenas “missões” que ele se propõe a fazer não atingem o seu objetivo, a viagem para Chicago é um desastre, ele não consegue recuperar o gato por conta própria (seria o gato uma metáfora para o próprio Llewyn?), até mesmo quando ele desiste de tudo e resolve retornar para a marinha, não consegue.

Mas isso não tira o mérito dessa obra dos Coen, pois um bom filme obviamente não é determinado por um final feliz, as idéias e pensamentos que eles provocam em quem assiste é muito mais importante do que um sentido óbvio na jornada do protagonista, além da beleza do trabalho técnico e artístico. Muito menos acredito que Inside Llewyn Davis desmerece o contexto em que se insere (NY, música folk, anos 60), apenas o mostra sob a ótica desse homem infeliz e desesperançoso. É um caminho com infelicidades, mas não deixa de ser um belo filme.

E o loop início/final do filme parece reafirmar essa jornada fadada ao fracasso, se não fosse por algumas pequenas mudanças na cena de início e na cena próxima ao fim. Pessoalmente, creio que até mesmo o fato de Bob Dylan “aparecer” reacende uma esperança para o futuro de Llewyn, ao contrário do que pensamos quando ele abre mão dos direitos de Please Mr. Kennedy, pois a partir desse momento a música folk toma um rumo um pouco diferente, ou, na verdade, direciona-se e se projeta mundialmente de uma forma mais “séria”.

Bônus:

> Pra quem se interessou pelo filme e pelos personagens, uma pequena trivia: Llewyn Davis foi inspirado em Dave Van Ronk, até mesmo no disco solo, Inside Dave Van Ronk:

Artigo sobre o disco Inside Dave Van Ronk: http://www.guitarworld.com/acoustic-nation-fantasy-reissues-classic-1964-alubm-inside-dave-von-ronk-vinyl-lp
Bob Dylan, Sue Rotolo e Dave Van Ronk. http://www.americansongwriter.com/2013/10/buried-treasure-bob-dylan-dave-van-ronk-go-riding-car/
http://www.youtube.com/watch?v=ksLh9uYgZdc

> E aqui sobre os outros personagens: http://www.slate.com/blogs/browbeat/2013/12/02/llewyn_davis_real_person_true_story_behind_coen_brothers_movie_with_oscar.html

> Também recomendo essa análise do filme, com a qual me identifiquei especialmente com o fato de igualmente ficar com ele na cabeça e lembrar das músicas, cenas e sentimentos todos os dias, comprovando que realmente entrou pra minha lista dos favoritos: http://www.standbyformindcontrol.com/2014/02/inside-llewyn-davis-is-a-lament-understanding-the-film/

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