O Mundo Sonoro de “Playtime” 

Um breve mergulho no universo de Jacques Tati


Jacques Tati (1907-1982) foi um diretor, ator e escritor francês consagrado pelo personagem Monsieur Hulot, caracterizado pelo seu cachimbo, casaco de chuva e chapéu, e por ser desajeito mas afetuoso com as pessoas à sua volta, retratado corriqueiramente como ponto de contraste em uma sociedade cada vez mais materialista e fria.

Particularmente, sou fã do trabalho de Tati e tenho a impressão de que ele é esquecido pelos apreciadores de filme, ainda que seu último roteiro tenha originado uma bela animação de 2010, chamada L’illusionniste. Não assisti toda a filmografia dele (mas deveria, é bem pequena), mas o que vi me encantou, seja pelo já citado personagem ou pelo olhar diferenciado que o diretor expões nos seus filmes.

As premissas são relativamente simples, são utilizadas muitas gags clássicas com um toque pessoal de Tati, sempre com uma crítica social que parece ser ainda mais atual agora do que na época de seus filmes. Um dos principais motivos para isso ocorrer é o som, um dos elementos mais subestimados de um filme, infelizmente. Nesse texto, que escrevi originalmente para um trabalho da faculdade, discorro um pouco (bem pouco mesmo) sobre o papel do som nesse universo fantástico de Jacques Tati, utilizando como exemplo uma cena do filme Playtime (1967).

Não é indispensável você conhecer o trabalho dele ou esse filme específico, mas vai fazer mais sentido se o tiver feito. De qualquer forma, coloquei o link do filme completo no youtube, pra quem se interessar. Como foi um trabalho acadêmico, você pode encontrar alguns termos que não conhecia, mas a linguagem é simples e não é super aprofundado, pode ler tranquilamente (se quiser saber mais sobre o assunto, a bibliografia ao final vai ajudar, vale a pena conhecer , até mesmo para apreciar de forma mais completa a experiência cinematográfica).

  1. PLAYTIME

Playtime (1967) é um filme do diretor Jacques Tati, realizado na França e na Itália, e retrata o famoso personagem do Monsieur Hulot em uma Paris moderna e evoluída, repleta de novas tecnologias e avanços tecnológicos, enquanto o mesmo precisa realizar algumas tarefas e se perde em meio a tantos aparatos que representam não só avanços, mas também uma desumanização e massificação da cidade e das pessoas.

Playtime é o ápice da carreira de Tati. Foi nesse filme que ele investiu todo o dinheiro que tinha e demorou anos para realizá-lo, o que ocasionou sua falência.
http://www.youtube.com/watch?v=ZO3SIkso0QQ

Semelhante a outros filmes de Tati, Playtime tem como recurso principal o uso do som muito evidente, incluindo os diálogos, que são poucos e de menor importância, como se percebe em várias cenas nas quais certas conversas não são filmadas por completo e são faladas nos mais diversos idiomas mas sem necessidade de legendas. Por esse motivo, o som diegético da cidade, do trânsito, dos aparelhos tecnológicos, das máquinas e das coisas que se quebram, são de extrema importância e caracterizam o aspecto cômico e crítico do filme.

A cena escolhida para análise se encontra no intervalo entre 01:31:14 a 01:32:58 do filme, quando, em um momento frenético da festa de inauguração de um restaurante, o personagem de Tati derruba o forro do teto e parte da decoração do lugar, reforçando e iniciando uma série de defeitos técnicos no local:

http://www.youtube.com/watch?v=_6s1BGAkKgQ#t=5473

É também a partir desse momento que a festa se torna ainda mais agitada, as pessoas começam a conversar e agir euforicamente e quando o Mr. Hulot se aproxima da moça que é elemento importante do filme para demonstrar a “quebra” entre aquela cidade mecânica e desumanizada, na qual tudo está no seu devido lugar e todos determinam sempre suas funções específicas (inclusive os turistas), e o que se tornará após a festa, como uma grande confraternização.

O intervalo do filme em análise demonstra a quebra no mundo frio e mecânico retratado, o momento em que ele começa a ruir e as pessoas ali presentes interagem mais e agem de forma natural, descompromissada, ultrapassando, inclusive, a barreira do idioma, divertindo-se ao tempo em que o local sofre rupturas físicas e, mais além, com o padrão específico e rígido seguido por aquele universo.

2. PROCESSO DE OBSERVAÇÃO

Através do Método das Máscaras proposto por Michel Chion, primeiramente apenas se ouve a cena, sem nenhuma imagem, e, nesse caso, pode-se imaginar que a cena ocorre em um local muito barulhento, agitado e cheio de pessoas, além de ocorrerem barulhos estrondosos, como coisas quebrando, portas “rangendo” ao se abrirem, algo semelhante a uma explosão, além de uma música agitada e frenética, não se entende muito bem o que acontece, nem onde.

Em determinado momento, após o ruído mais alto, como uma explosão, um tiro, ou algo que se quebra, a música para e só se ouve a multidão falando, conversando, sussurrando, para logo em seguida a música continuar.

Percebe-se, também, uma quantidade enorme de sons, ruídos, falas, tudo ao mesmo tempo, a relação entre os sons não possui uma hierarquia convencional, com os diálogos como prioridade, pelo contrário, ocorre em alguns momentos uma maior importância para ruídos específicos. Os diálogos fazem parte da multidão, do ambiente, não são todas as falas identificáveis, apenas algumas, e não há apenas um idioma; elas não parecem ter a maior importância, visto que não são conversas propriamente ditas, apenas diálogos aleatórios.

Ao visualizar a imagem sem o som, a maior parte do efeito cômico da cena se perde. Entende-se que é uma festa, que há música, pois existe uma banda no palco e as pessoas estão dançando de forma animada. Não se tem dimensão de qual o tamanho da festa e quantas pessoas estão presentes, pois a cena em questão mostra apenas um local específico, ao lado do palco, onde a estrutura física do lugar começa a ruir.

Alguns personagens falam entre si, um acidente acontece com Mr. Hulot, quando tenta ajudar outros convidados a pegar algo que não alcançam ao alto da decoração e termina por derrubar tudo, inclusive o forro do teto.

A festa parece comum, não caótica, e não se tem a noção de qual som está em foco, se há ou não uma hierarquia, pode se pensar que, como ocorre no cinema clássico, os diálogos entre os personagens é o mais importante, e não o que ocorre à volta dos mesmos. Não há como saber se algo além daqueles diálogos se passa na festa, o foco é a ação dos personagens em cena, o que eles fazem, quais são seus gestos e que estão conversando entre si.

3. DESCRIÇÃO GERAL DO SOM

Na cena em questão existem diversos elementos sonoros, muitos personagens falam, há fala-teatro, na medida em que existem diálogos entre personagens, mas predomina a fala-emanação, devido aos poucos diálogos e não muito significativos, que não são o centro da atenção. A fala também é caracterizada pelo poliglotismo, visto que algumas pessoas falam em francês, outras em inglês e não há necessidade de legendar tudo que é falado, não é necessário, o significado que o diretor quer transmitir não está necessariamente no conteúdo dessa fala, mas no que ela representa.

Em algumas delas ocorre a perda da inteligibilidade, ou seja, um personagem está falando mas não se compreende exatamente tudo o que ele fala, a partir de um momento sua fala é abafada por outros ruídos ou simplesmente é de menor importância e, por isso, não é necessário ouvi-la até o fim. Vale ressaltar que todas as falas são diegéticas, emanadas das pessoas presentes naquele ambiente e ouvida por todas, mas fazem parte de um som de multidão.

Existem muitos ruídos, ambientes e pontuais. Os ruídos ambientes são aqueles que caracterizam, obviamente, a ambientação do local da cena; nesse caso, trata-se de uma festa, lotada com muitas pessoas, por isso é possível ouvir constantemente o ruído da multidão no lugar, dando a entender que realmente há, ali, uma grande quantidade de pessoas. Ouve-se muitas conversas paralelas, pessoas dançando, gritando, murmúrios e sussurros, todo o tipo de sons relacionados à diálogos, mas utilizados para ambientação e para dar um significado para a cena como um todo.

Os ruídos pontuais dizem respeito a objetos específicos em cena que produzem algum som, como, por exemplo, a decoração de madeira que se quebra, o forro que cai, a parte elétrica que sofre um curto-circuito, ou no momento em que um personagem “abre” a parte da decoração quebrada que resolveu utilizar como uma espécie de porta. Neste filme, Jacques Tati utiliza a sonoplastia de forma que esses ruídos sejam exagerados, amplificados, dando o tom cômico da película.

Os ruídos, nesse caso, são diegéticos e utilizados de forma realista, não naturalista, visto que não é apenas uma representação fiel da realidade, pelo contrário, é utilizado com um sentido e propósito metafórico, o uso dos mesmos é expressivo, para simbolizar os sentimentos e significados da cena, de forma crítica e para demonstrar o que já foi citado antes: a transformação que ocorre no próprio filme durante a sequência da festa e, também, na cena tratada neste trabalho.

A música no filme é diegética, visto que a fonte da mesma está presente na cena, já que ela é reproduzida por uma banda que toca em um palco, sendo ouvida por todos os personagens, que dançam ao som dessa música, que é propagada em todo o espaço do restaurante no qual a cena se passa. Tal musica é uma música animada, condizente com a dança dos personagens, caracterizando-se como um jazz instrumental.

Há um momento de silêncio na cena analisada, não é um silêncio absoluto, de grau zero, mas é feito de uma forma diferente que evita esse grau. No momento em que Mr. Hulot derruba a decoração de madeira do local (01:31:40), a música para, algumas pessoas continuam falando e ouve-se murmúrios, nada muito específico, mas através do contraste do momento anterior, no qual havia a música e maior quantidade de ruídos, para o momento em questão, no qual um elemento foi excluído (a música alta), há o silencio, gerado por essa diferença entre o momento especificado e o momento que o precede.

No filme, como um todo, não existe a hierarquia de sons predominante no cinema clássico, no qual as falas possuem mais importância que os ruídos e a música. Durante a festa, as falas não são o mais importante, mas sim os ruídos e a música; ambos os elementos são essenciais para o desenvolvimento da cena e da sequência. As falas mantem uma relação de igualdade com ambos, visto que também são audíveis da mesma forma, e os ruídos e a música desempenham um papel muito importante neste filme e nos outros de Jacques Tati, direcionando para situações específicas da história e que transmitem uma mensagem desejada pelo diretor.

4. COMPARAÇÃO E ANÁLISES FIGURATIVA E NARRATIVA

A cena em questão, sua imagem e o seu som, estão sincronizados, como é visível, por exemplo, no emprego dos ruídos de acordo com o a ação dos personagens na cena; quando algo se quebra, ouvimos o respectivo ruído e a respectiva reação da multidão presente na festa, e quando a música toca, as pessoas dançam, se ela para por um instante, as pessoas também param de dançar, demonstrando, portanto, a sincronização entre o que acontece na imagem e o que é ouvido pelo espectador e, também, pelos personagens e figurantes em cena. No instante já citado, em que Mr. Hulot quebra o forro do teto, a banda para de tocar, as pessoas param de dançar, há um momento de sincronização claro e evidente entre música, ruído e falas, por exemplo.

Existe, também, uma síntese, além da sincronização, ou seja, no momento em que se “audiovê” um filme, como sugere Michel Chion, percebe-se que não há um elemento do som que seja superior ao outro, principalmente nesse caso específico, o som não é submisso à imagem, ambos estão em uma relação de síntese, um complementa o outro e juntos fornecem um sentido diferente e específico ao filme, desejado pelo diretor/roteirista.

No filme de Tati, inúmeras ações acontecem ao mesmo tempo, há um numero enorme de figurantes que atuam ao mesmo tempo na mesma cena, e o som, incluindo ruídos, falas e músicas têm o importante papel de, além de caracterizar o espaço, a ambientação, agir de forma contrária aos filmes clássicos e não direcionar o olhar do espectador para pontos específicos na mise-en-scène desejados pelo diretor. Em Playtime, não há um diálogo dominante, principalmente na sequencia da festa, tudo acontece ao mesmo tempo e Tati nos direciona para cada um desses elementos que podem ser descobertos e redescobertos a cada nova visita ao filme.

Em relação ao contexto do filme, a sequência analisada, da festa de inauguração de um restaurante, serve de certa forma, para contrapor o que tanto é criticado no filme: uma cidade na qual as máquinas dominam, cada pessoa tem um lugar e uma função específica a desempenhar e não pode realizar nada diferente disso. Por esse motivo, o personagem Mr, Hulot é diferenciado e passa por diversas situações cômicas ao longo do filme: ele não faz parte desse mundo mecanizado e desumanizado, ele age por conta própria e não como deveria agir, provocando pequenos “acidentes” bem humorados e que são reforçados pelo uso do som, principalmente dos ruídos obtidos pela sonoplastia, os quais caracterizam essa cidade robótica.

Durante a festa, entretanto, tudo começa a se desfazer, o cenário criado de forma tão rápida e necessária, o sistema de refrigeração não funciona corretamente, assim como as cadeiras, os uniformes dos garçons, a eletricidade e diversos outros elementos que representam a retratada “evolução tecnológica”. Até as relações entre as pessoas mudam, elas deixam de seguir regras predeterminadas e conversam entre si, independente do idioma, dançam freneticamente, independentemente da música que é tocada, divertem-se, comem, bebem e passam a confraternizar, ao invés de apenas suportarem umas as outras porque devem conviver pacificamente.

As estruturas começam a ruir, as regras e tudo que é mecanizado e falso. E a construção sonora do filme tem um papel extremamente importante para caracterizar tudo isso, a interação entre os personagens, a decadência da tecnologia de ponta e a aproximação dos humanos.

Durante a festa, o ritmo frenético e a sensação de que as estruturas ali presentes são destruídas pouco a pouco são caracterizados fortemente pelo som, de cada objeto quebrado, cada engrenagem que não funciona, e à medida que isso acontece, as pessoas se desviam do comportamento observado no início do filme e conversam, sussurram, gritam, dançam e todos esses ruídos são cada vez mais intensos, como na cena em questão. A interação entre a imagem e o som intensifica a mensagem transmitida, o efeito cômico, direciona o foco (ou a falta dele) na história e transporta o espectador ao lugar desejado por Tati.

BIBLIOGRAFIA

CHION, Michel. The films of Jacques Tati. Toronto: Guernica Editions Inc., 2003.

CHION, Michel. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.

NORTH, Dan. Jacques Tati’s Playtime: Modern Life is Noisy. Disponível em:<http://drnorth.wordpress.com/2008/11/12/jacques-tatis-playtime-modern-life-is-noisy/>. Acesso em 23 fev. 2012.


Bônus:

Aqui um vídeo extraído de um documentário sobre o Jacques Tati (aparentemente feito para uma série de televisão chamada Il était une fois…, que exibe vários documentários de aproximadamente uma hora), no qual David Lynch comenta a repercussão de Playtime para Tati, com excertos de entrevistas do mesmo:

http://www.youtube.com/watch?v=yV5CdseAZ3M

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