O lado sombrio da internet

Os agressores usam as redes sociais para cometer crimes (Foto: Internet)

Andrea Rangel, é chefe de cozinha, tem 37 anos e há pouco mais de seis meses, enfrentou sérios problemas na rede social. Este não é o nome original da vítima, que prefere não ser identificada por tudo que passou em tão pouco tempo.

Em questão de segundos, sua intimidade foi compartilhada por vários usuários de uma página de relacionamento através de fotos e vídeos onde ela aparece nua. “Vivi dias de terror em casa. Não queria sair! Parecia que estava dentro de uma prisão e, quando eu ameaçava abrir o meu notebook, todas aquelas mensagens surgiam em frações de segundos… Me sentia qualquer coisa, menos a Andrea, quando ingênua tirou todas aquelas fotos para o marido”, declarou. Acontece que Andrea, havia tirado as fotos pouco antes de pedir o divórcio.

Ela descobriu que o cônjuge tinha um caso com alguém do trabalho. O fato dela saber da traição gerou muitos conflitos na vida do casal, até ela realmente revelar o que estava acontecendo e comunicar ao então marido que estava saindo de casa. “ Eu não sabia mais conviver com aquilo, estava longe da minha família e eu não podia simplesmente ir embora sem ter o mínimo de segurança, alguém que pudesse me ajudar. Quando minha irmã disse que ia me ajudar, não pensei duas vezes, abri o jogo e disse o quanto sentia nojo, por tudo que ele me fez e não voltaria nunca mais para aquele inferno que chamávamos de lar”, conta Andrea que, com lágrimas nos olhos, enfatiza: “depois disso, minha vida nunca foi a mesma”.

Decidida a sair de casa, recolheu o máximo de coisas que podia, colocou em um carro às pressas, sem ligar para o que ela deixava para trás… O computador pessoal. “Não sei como pude esquecer meu notebook. Queria tanto deixá-lo, sair daquele bairro, ir para o mais longe possível do meu ex e não pensava em mais nada, nem pensei, nem lembrei das fotos…”, desabafa.

O maior problema, entretanto, não era esse. No computador de Andrea, todas as suas senhas era ativadas automaticamente na hora de acessar suas contas. Era apenas digitar o endereço do e-mail ou o seu perfil em alguma rede social que a sua senha e login apareciam para começar a navegar. Com um simples “ok”, qualquer pessoa estava acessando as informações e dados de Andrea on-line, sem alguma dificuldade.

Não demorou muito para que o ex marido descobrisse isso e, ainda, seus arquivos que estavam completamente expostos em pastas aleatórias no desktop. “Eu sei que fui descuidada mas nunca imaginaria que tudo isso fosse acontecer e que o crápula do meu ex marido ia me expor de tal forma, até porque quem errou comigo, foi ele.”

Andrea estava enganada, ele não só acessou, expôs publicando as fotos publicamente da mulher, como também trocou mensagens com amigos e desconhecidos que chegavam a comentar o que estava acontecendo. “No meu perfil no facebook, eu tinha um número de amigos, em questão de minutos eu tinha milhares. Quando comecei a receber ligações sobre isso, de madrugada, desde amigas a pessoas comentando coisas absurdas e me insultando, percebi que tinha algo errado. Tentei acessar as minhas contas e não consegui! Até que entrei no computador da minha irmã e vi o que estava acontecendo… Ficamos horrorizadas!”, relata Andrea ao lembrar de uma noite que marcara para sempre sua memória.

Andrea Rangel foi à delegacia de crimes eletrônicos do Espírito Santo que se encarrega pelos delitos praticados através da internet que podem ser enquadrados no Código Penal Brasileiro resultando em punições como pagamento de indenização ou prisão. Por enquanto o processo contra o marido está em aberto, “caminhando” diz Andrea. Ela está o processando também por calúnia, difamação e falsidade ideológica. A vítima espera a solução do caso.

Suas fotos já foram retiradas da internet, sabe que muitas circulam por aí ainda, mas, a única coisa que quer agora é que o culpado por toda essa exposição pague pelo que fez judicialmente. Hoje, ela mora em Miami (EUA).

O que ganhou maior repercussão foi o da atriz Carolina Dieckmann, após fotos em que aparecia nua terem sido divulgadas na internet. Ao todo, 36 imagens da atriz foram publicadas na web em maio de 2012., sendo assim, deu o nome da lei de crimes cibernéticos. A lei 12.737, chamada lei “Carolina Dieckmann” de 2012, que, entre outras coisas, torna crime a invasão de aparelhos eletrônicos para obtenção de dados particulares, entrou em vigor em abril de 2013. Casos assim são registrados diariamente.

A atriz Carolina Dieckmann já foi vítima de crimes na internet (Foto: Internet)

A psicóloga Gisele Boieiro, 30 anos, diz que as consequências do cyberbullying podem ser devastadoras para a vítima. “Por menor que seja, os ataques na internet podem desencadear uma gama de problemas psicológicos às vítimas. O mais comum é que a vítima desenvolva um trauma psicológico, isolamento social e até mesmo depressão.”

Gisele ressalta ainda que os conteúdos publicados na internet, quando tornados virais, dificilmente será apagado por completo e esse conteúdo se torna um elemento permanente na vida da vítima. O fato do conteúdo estar disponível na internet por tempo indeterminado potencializa o desgaste emocional sofrido pela vítima.

Graciela Schuwartz, especialista em tecnologia da informação e educação, explica sobre a presença do cyberbullying nos meios de comunicação e complementa pontuando a amplitude que um “simples comentário” ou uma “postagem qualquer” pode ganhar, pela grande força das redes sociais na atualidade.

A seguir veja um exemplo sobre as consequências causadas pelo cyberbullying:

Em sua obra “As regras do método sociológico”, o sociólogo Émile Durkheim diz que o crime não se produz só na maior parte das sociedades desta ou daquela espécie, mas em todas as sociedades, qualquer que seja o tipo destas. “ Não há nenhuma em que não haja criminalidade. Muda de forma, os atos assim classificados não são os mesmos em todo o lado” afirma. Qualquer tipo de sociedade haverá criminalidade. Com isso, podemos classificar o crime virtual como fato social, dentro da visão do sociólogo.