Dando nomes… mas com carinho
As coisas têm nomes. Naturalmente, sabemos como chamar a porta de porta. Sabemos que, se quiser chá, deve se procurar por chás e não por sucos. Eu, por exemplo, tenho apenas um nome, com sobrenome e tudo. Não me chamo Roberto, nem Diego. Algumas vezes, no entanto, o nome parece coisa pouca para chamar e, daí, surgem os apelidos.
Segundo o dicionário, que não destaca a péssima fonética, apelidar vem de “ter o hábito de chamar” ou “chamar muitas vezes”. Devia vir de “chamar com sentimento” (mesmo daqueles ruins mesmo) porque é assim que você destaca o um do todo, fica especial, diferente. Sei lá. Apelido nomeia uma coisa que não tem muito como ser nomeada.
Com objeto, o processo é simples, só modificar a palavra original mesmo: chamar borracha de borrachinha, dar nome pra alguma coisa que foi cara e não é pra quebrar, coloca um tom diferente, muda de língua. É mais espontâneo. Com pessoas é que começa a complicar. Para amigos-não-tão-próximos são nomes meio meh, para os mais amigos é o esculacho e se você não gosta de alguém meu conselho é: não dê apelidos. Mas naquelas outras, hm… daí cada um faz um caminho diferente: os que começam bem na linha de saída, sem pular etapas, começam com os “amor”, “bem”, “querida”, que aparecem aqui e ali, devagarzinho, ou com aqueles trocadilhos engraçadinhos. Então, anota-se, formal ou informalmente, nomes que parecem bons de se chamar e ouviu-se por aí, aparecem os “morena”, “pequena”. Outros, descobre-se no convívio e aí vem um traço, um charme, um mimo, um “caracol”.
Então, chegam as variações. Alguns passam pro diminutivo, chamam de amorzinho, benzinho. Às vezes é irônico mesmo, outras é com ternura — só não muito, pra não ficar piegas. Outras vezes, colocamos um pronome possessivo. Não sem culpa, mas uma certa culpa prazerosa. “Também sou, então…” ou “também me chamam assim”. Parece bom saber ser o “meu bem” de alguém, mas dá uns frio na barriga... De qualquer forma, o apelido nem sempre vem no português escrito. Tem gente que faz vozinha. Conheço uns que compõem sinfonias de assovio para se destacar (algumas vezes é até mais fácil, mas em outras, o assovio já caiu em domínio público e não se sabe muito bem quem-chamou-quem).
Tem hora que o bicho cresce dentro da gente e, sem saber o que fazer, uns chamam logo de “vida”. Nem o que é sagrado (e assexuado) é poupado, e aí soltamos um “oi, anjo”. Tem apelidos daqueles que faz você se sentir num filme de bangue-bangue, mocinho e mocinha, um herói. Noutros já passamos pro bandido da filmagem e descobrimos que somos besta, ou não valemos um real. Impossíveis. Claro, não são os únicos filmes. Há aqueles de filmes específicos, ditos entre lençois, cobertas e outras cositas mas, mas desses… Bom, desses a gente não comenta. (Ao menos, não para todo mundo.)
Não pense que tudo são flores, não. Não são. Tem horas que é pra aporrinhar mesmo, ver a irritação. Já ouvi coisas como chupa-cabra, batata. Outros relembram situações constrangedoras e tiram de lá os nomes. Chamam de velho, careca. Aí, só tem uma solução: revira o olho e vida que segue.
No fim das contas, os apelidos passeiam e acabam voltando pro lugar de sempre. Chama-se pelo nome e tudo bem. Talvez uma versão menor, um apelidinho discreto… Um Káá, ou aquela juntadinha no nome composto, daquele jeito “de-quem-já-tá-acostumado-a-falar-nome-grande-de-uma-vez”. Só é engraçado quando, às vezes, o próprio nome parece uma maneira de se chamar, daquelas primeiras, lá do começo… Daí, quando é assim, maravilha!