Elizabete, o fusca e o cigarro

— Você é muito bonito, sabia? — Foi o que ouvi, por cima dos fones de ouvido, enquanto estava parado na calçada — Se você estivesse nos anos 60, anos 70, não ia ter cabelo comprido; Não podia. Cortavam tudo.

Desliguei a música; fechei o WhatsApp. Ouvi uma reclamação.

— É, hoje vocês têm que estar toda hora conectados… Mas sabe quem são os dois únicos músicos que eu gosto do mundo inteiro? Um daqui, do Brasil, e outro do mundo. Tim Maia e Elvis Presley. Ver aquele homem rebolando o Rock ’n’ Roll era uma loucura. Mas o que que você tá fazendo?

Eu estava esperando uma amiga minha. Ela morava no prédio onde eu estava parado e ia voltar para casa da mãe nas férias; ficava em Mairiporã.

— Ah! No Interior de São Paulo, né? Eu conheço tudo! De São José dos Campos, Araraquara… — Fechou os olhos, abaixou a cabeça e começou a disparar uma lista de cidades que, obviamente, não vou me lembrar — Tudo que você pode imaginar do interior de São Paulo eu conheço. No litoral, conheço até o Rio de Janeiro.

Ela veio do Ceará e mora em São Paulo há 42 anos, na cidade de São Bernardo do Campo. O nome dela era Elizabete.

— Lá no nordeste é tudo Maria das Graças, das Dores, Francisca. Minhas irmãs têm todas esses nomes. Eu sou a única assim, Elizabete. Vai saber de onde meu pai, analfabeto, tirou esse nome. A gente acha que numa dessas idas para a Igreja, que ia de seis em seis meses porque era 40 quilômetros longe de casa, o padre deve ter falado da Elizabeth, a rainha, e ele ficou com isso na cabeça. Mas o meu é com ‘z’ e ‘e’ no final, não tem ‘th’, não.

O modo como Elizabete e eu nos encontramos parecia ser a maneira com que ela se relacionava com todos: pessoas que, por acaso, esbarram com ela em seu trajeto. Era uma mulher-movimento.

— Eu já fui em vários acampamentos com funcionários da Volkswagen. Ia acampada mesmo, acampava com o presidente, na época em que ele ainda era pobre. — Ela falava de Lula, que já não era mais quem ocupava o cargo. Olha… o acampamento parecia bem divertido. — Se eu dei para quatro mil, eu não contei. Imagina só, eu e mais quatro caras, dentro dum fusca, junto com uma amiga?! Mas, olha lá, que eu fiquei no banco de trás! Na frente não dava, não.

Ela simplesmente não se importava.

— Não tenho problema. Rico, pobre, branco, preto, já fiquei com vários. Eu vejo isso de olho, é na hora que eu olho que eu já sinto. Uma vez sai com um carioca e falei pra ele ‘tô saindo com você, mas é pra fazer filho, ele não acreditou. Ele me disse ‘até parece’, mas foi. Foi dois dias da menstruação. Os médicos falam que são dez, mas não é, não. Saiu a menina dele. Até o sangue, A+, é dele. Eu sou O. Esse daí deixou onze filhos espalhados por aí, e não teve nenhum que ele pegou no colo.

Nesse momento, eu não entendi muito. Elizabete tinha o maxilar um tanto torto e nem sempre era tão fácil de entender. Parece que ele teve uma mulher com 3 filhos e abandonou ela. O mais velho encontrou com ele na rua, um dia, e ‘pegou ele de pau e deixou sangrando no chão’.

O que me pareceu, no decorre da conversa, que essa era uma prática recorrente dela também. Ela já bateu em um pedinte ‘até que arranjassem emprego’; e, por incrível que pareça, arranjaram: camelô na rua dela. Cumprimentava de longe quando a via. Quando Elizabete trabalhava vendendo materiais para laboratório dizia para os compradores: “Se não comprar muito de mim, eu arranco seu pau e seu saco lá fora . Tá duvidando?” Não sei, não… Eu compraria.

Ela trabalhou em comércio desde os quatro anos, quando vendia galinhas no Ceará. Já vendeu carros, móveis e, como tinha uma graduação necessária, passou para venda de materiais farmacêuticos para laboratórios de exames. Em outro episódio, foi vender para o laboratório de seu ex-professor da universidade; talvez ele se chamasse Eric. O encontro foi descrito sucintamente, em duas linhas:

— A secretária não me deixou entrar, dei um soco nela e ainda falei pra ele ‘ô, como que você contrata uma pessoa dessas?’

O cigarro, no canto da boca, é um elemento que parece estar sempre com ela. É um hábito que a acompanha desde pequena. Quando acendia o cachimbo pro seu pai, ganhava cigarros de milho para acompanha-lo. Pegando a caixa de Malrboro, ela me conta que não largou o vício desde então, mas não importa: já que sabe que vai viver até depois dos 100.

— Minha avó teve 18 filhos, 17 morreram depois dos 100, a última está para fazer 102 agora. E eu sou igualzinha minha avó. Todos os filhos nasceram loiros, ou com olho azul. Eu não, sou morena. Olho castanho; Mas ela… Ah, ela era ruim. Era um demônio, batia até nas noras grávidas…

Meu celular tocou. Tive que atender, era minha amiga. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Elizabete, que estava para fazer 62, bateu no meu ombro e foi embora, mancando, devagar, me deixando ali, boquiaberto, sem nem conseguir atender direito o telefone.

— Aaaah…lô? Tayane?

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