Minha amada vulgar

Não amo mulheres, nem homens… E antes que cheguem a conclusões precipitadas, não possuo fetiches raros. Minha amada é ela, tão comum e banal. Às vezes, tão valiosa, mas sempre vulgar… Gosto dela quando tímida, perceptível apenas por alguns olhos mais refinados.

Sou apaixonado pela folha. Não as folhas de árvores que, belas, despencam no outono. É aquela folha em que desenhos e letras são impressos, digitados e espalhados — tenha ela celulose ou pixel. Seja ela da cor que for. Amo-a, intensamente.

Foi paixão à primeira vista… Somos, praticamente, amigos de infância. Crescemos juntos. Ela me preenchia com seus quadrinhos e desenhos. Suportou, quieta, os momentos de abandono enquanto passava pela insuportável fase de querer jogar tudo pro alto. Naquela época, já era mulher e eu, um garoto. Esperou paciente até que eu estivesse pronto, esperou para que me abrisse os olhos. E abriu… Enxerguei outros mundos, compreendi o meu com maior exatidão e (des)conheci a mim mesmo.

Ela tinha um fogo que me envolvia… Era um desejo ardente… Perdia noites, dias, sonhava acordado. Eu estava amando. Era um bem-estar jamais experimentado. Não me lembro de nada na vida ter me deixado tão feliz quanto ela: era mulher madura, me fez levantar a cabeça e olhar de frente pro mundo. Perdi o medo. Me entregava. Contestava. Nos momentos felizes e nos não-tão-felizes ela estava ali. Como poderia fazer tanto por mim?

Me senti tentado a agradá-la. Ela preenchia minhas memórias, paixões e sonhos. Lutava a cada instante para ajudá-la, fazê-la feliz. Todo minuto do meu dia era gasto pensando nela. Como posso ser útil? Ajudá-la tanto quanto ela ajudou a mim? Ah, egoísmo sonhador e ingênuo… E como se pudesse fazê-lo, ou como se fosse o único…

Tantas outras mãos, outros toques… Sensibilidades e lógicas tão mais desenvolvidas e afinadas que tornaram-na tão mais agradável e completa do que eu jamais poderia… tão bela… Sou apenas um sonhador apaixonado — e de onde vem a maior parte dos erros, se não deles?

Ao menos, não me canso de tentar. Nós, sonhadores apaixonados, temos isso de vantagem… Penso nela em branco, solitária. Me doem os ossos… As ideias pulsam. Diálogos. Cenas. Frases. Tudo vem e nada fica. Agonia. Retorço-me. A força quase se vai e, agarrado a um fio de esperança, testo o casamento de algumas palavras. Letra após letra — era reaprender a andar. “Será que é assim que faço?” … “Pareço muito com um de seus antigos amantes, parece repetitivo e piegas” … “Isso não vai dar certo, de onde me surgiu essa porcaria de ideia?”… Enfim, depois de completa a caminhada — fosse ela um passeio no parque ou uma extensa maratona — aquela bendita pulga atrás da orelha — eu polia aqui e ali. Ela me mostra alguns erros, não consigo enxergar os outros. Resolvo deixá-la de lado. Brigamos e damos um tempo.

O orgulho. Mostrar-se incapaz em um momento desse, depois de tanto trabalho e sofrimento… Como assumir os erros? Abro meus olhos. É preciso consertar a situação. Reatamos. Ela estava certa, muitos pontos precisam ser reajustados. A agonia, agora, é menor e os erros estão aparentes. Trabalhamos juntos.

Depois disso, atingimos um ponto estável e feliz — não o ideal. O utópico, afinal, é sempre no jardim do vizinho, mas aprendemos a aceitar nossa realidade. Casamos. Crescemos com nossa crise. Percebemos que, com isso, ficamos felizes e completos. É no jantar de comemoração, no entanto, que percebemos o que houve: nos preenchemos. Estamos bem. Não precisamos mais um do outro — por hora… É o momento de partida– se ela fica comigo, sufoco-a. De tão madura, ela apodrece. Ela precisa ser vista e, como um encantamento, rejuvenescida. Se eu fico com ela, agonizo. Observo meu fracasso denegrindo-a. Perco a esperança no futuro. O saudável é que ambos trilhem seus caminhos.

Divorciamo-nos. Apesar de despedidas não serem fáceis, não nos magoamos. Vejo-a indo. Às vezes, receosa, mas sua obstinação supera qualquer obstáculo. E é enquanto observo-a ir que retomo minha paixão sonhadora. Procuro-a em todos os cantos, esforço-me… Agarro-me às suas lembranças. A agonia retorna. A sensação de paz nunca é estável, mas a gente se acostuma. A minha eterna namorada é a folha que deixo livre. Até agora, nós sempre nos reencontramos, o amor parece certo. Cada vez mais bela, mais viva e com novidades exóticas que, com esforço, acompanho e apreendo. Minha admiração por ela é enorme. Um respeito mútuo. Com olhos de criança eu absorvo tudo o que ela tem para me ensinar — conhecimento que me serve de combustível e, assim, retomamos todo o processo.

Uma voz, no entanto, me assombra na escuridão enquanto repouso ao lado dela: Um dia ela vai voltar, tão jovem e bela como todas as vezes que voltara, tão cheia de energia buscando a partilha como sempre fora. Mas, se nesse dia você não tiver o fôlego para acompanhá-la? Sua mão, trêmula, não puder tocá-la com a maestria de antigamente e sua mente, fugidia, insistir em estragar lhe as ideias? Quando isso acontecer terá a humildade de assumir a derrota e deixá-la para sempre, será egoísta o bastante para sufocá-la em seu narcisismo de moribundo, ou será um daqueles suicidas trágicos?

Com esforço, adio a resposta e adormeço. Não deixo de senti-la em nenhum momento. Nos meus braços, nos meus sonhos, no meu pulsar… A intensa paixão não me deixa um segundo, sequer.