Os olhos

(escrito em outubro de 2011)

O grito ecoou pela casa. Ofegava. Sentou-se na cama para recuperar o ar. Sentia o coração batendo na garganta. Maldito pesadelo. A silhueta dos olhos brancos infestou sua mente: qualquer pensamento que viesse, qualquer ponto em que olhasse, lá estavam eles. Flutuando. Precisava respirar.

Levantou-se e desceu as escadas. Precisava de um copo d’água para se acalmar. Na mesa da sala, viu a sujeira. Os restos de comida, as marcas dos copos, a louça suja.

Se causar pesadelos fosse um crime, aquelas seriam as provas. Vestígios.

Na cozinha, trêmulo, encheu seu copo. Tomou-o em uma golada rápida. Ficou parado por alguns instantes. Olhos fechados. Massageava suas têmporas e suspirava. Limparia tudo pela manhã, assim que descansasse. Apesar da agitação, seus olhos estavam pesados. Voltaria para cama. Seu coração estava desacelerando… Quase…

Barulhos. Teve a impressão de que a porta estava sendo forçada. Encarando o vazio, tentou definir uma linha entre a força do vento e a da imaginação, e falhou. O esforço, no entanto, serviu de alavanca para encher a cabeça de flashes. Sentou-se no sofá, no mesmo assento em que estava há algumas horas. Perdeu-se. A fita da noite começou a rebobinar.

Não me zoem, é sério. Nunca vi nada parecido com isso…

E foi assim que começaram a história que perturbaria sua noite.

… sério. Depois de contar tudo, espero que acreditem… Tá, eu não acreditaria, mas juro pela roupa que vocês estão vestindo que foi de verdade…

Levantou-se. Não queria perder o sono. Sem saber o que fazer, ficou em pé. Ouvia o farfalhar de folhas e galhos. Olhar pela janela lhe pareceu uma boa distração.

… sabe desses barulhos que ouvimos? Passos, gente chamando, que nunca sabemos se foi de verdade? Ou então aquelas formas e vultos que vão se formando quando olhamos fixamente para o escuro? Então, é com isso que me preocupo… tenho receio de que seja a natureza me chamando…

As nuvens se moviam rapidamente, iluminadas pelo brilho da Lua. Perdeu o sono. Resolveu se cansar adiantando os serviços da manhã do outro dia. Já que não teria uma noite bem dormida, resolveu poupar os esforços que teria pela manhã.

… a história começou quando eu era criança, no colégio. Na época em que as pessoas ainda chamavam os “anos” de “séries”, eu era daqueles alunos que pulavam entre panelinhas. Cada hora em um grupo, mas, por pouco tempo, tive um amigo.

Logo nos primeiros dias, na volta das férias, um menino magro e encolhido tinha mudado de escola. Sentava sempre na frente da sala, perto da porta. Era famoso por ser o recordista em trocas de escola. Já havia passado por várias. Estava sempre sozinho e, sentindo uma pontada de identificação, resolvi me aproximar…

Separou o lixo, lavou a louça. Arrumou os móveis. Passou pano, varreu. O saldo da noite foi bom: um copo quebrado. Uma blusa e dois cachecóis esquecidos. Sua casa já estava no estado usual de arrumação e a sala já não lembrava da reunião, mas sua cabeça…

O barulho que o vento fazia ao passar pelas frestas das janelas era assustador.

… ficamos próximos. Das conversas na sala passamos para o boliche, festas, filmes, partidas de vídeo-game… enfim… Até que chegou o momento em que fui convidado para visitar e dormir em sua casa, como amigos fazem, vocês sabem…

Navegando e passando como um filme, a memória ganhava cada vez mais espaço.

Ligou a televisão, a fiel amiga eletrônica. Sentado, pegou o controle remoto. Não havia bons filmes, matérias ou programas na televisão, não naquela hora. Achou um documentário. Era sobre os dinossauros, seus hábitos alimentares, vida e extinção. O meteoro os atingiu, os eliminou da face da Terra quando chegou a hora. A TV não foi uma amiga fiel.

O cheiro que infestava a casa, que vinha com a brisa, era forte. Talvez chovesse mais tarde.

… e foi bem naquela noite. Ventava tanto que assobiava. Era um barulho sinistro. Como era a primeira vez em que eu dormia fora de casa, parecia bem mais alto do que o normal.

No quarto, brincamos bonecos e bichinhos. Montamos cidades e zoológicos, criamos problemas fictícios. Um carro bateu. Um elefante gigante fugiu e destruiu mais da metade da cidade. Apesar das vezes em que ele olhava para o lado ou sussurrava sozinho, tudo estava bem.

Até que uma louça espatifou no chão, e ele ficou muito assustado.

— Não se preocupe — ele disse assim que ouvimos o barulho — Minha mãe deve ter deixado alguma coisa cair…

Desligou. Não queria deitar. Mediu a escuridão da rua pela janela. Pensava. Não sabia se eram seus olhos, mas, naquele breu completo, as sombras dançavam. Teve a impressão de ver um vulto.

… depois disso, burburinhos foram se formando atrás da porta. Intensificaram, transformando a conversa em uma discussão agressiva. Ali, ele já tinha largado os brinquedos. Sibilava sozinho algumas frases, como se estivesse conversando. Eu não conseguia ouvir, mas ele logo se calou. Levantou e saiu do quarto. Assim que a porta fechou, as vozes se calaram.

Confesso que fiquei sem jeito, não sabia o que fazer quando ele voltasse. Fiquei paralisado, com os brinquedos e a cidade. Como se não bastasse a minha incapacidade, fui surpreendido pelo garoto que voltou, olhou no nos meus olhos e perguntou:

- Você vai me deixar ir embora, não vai? Não consigo mais escapar… Eles não param de me chamar. Eu não consigo evitar.

Fiquei parado, fitando seu rosto…

Soube o que precisava ser feito. Se enfrentasse aquela situação, provavelmente se sentiria bem. Venceria o medo e ficaria tranquilo. Agora, tudo que fazia, era permanecer imóvel.

… naquele silêncio, só ouvíamos o vento. Os galhos se arranhavam, as árvores entortavam um pouco. Acho que ele também ouviu, porque ele foi até a janela e ficou observando a rua.

— Minha mãe me disse que só morremos quando a natureza nos chama. Eu tinha medo, mas acho que sei o que ela quis dizer. Você também ouve, não ouve?

Ele se virou para mim, inclinou a sua cabeça um pouco e, sem expressão, acho que ele me olhava com os olhos completamente brancos…”

Tomou forças. Foi para a porta e abriu. Uma leve brisa encheu sua casa e levantou seus cabelos. Agora, parecia uma noite deliciosa. Envolvente. O cheiro de chuva estava delicioso.

… e eu só entendi o que aconteceu por causa do brilho da Lua, ou do poste, não sei, que refletia no objeto prateado.

— Eu… sinto muito…

Seus pés agora tocavam a trilha de concreto que ligava a calçada com a porta. Sentia e aproveitava cada sensação, cada detalhe. Suspirou.

… se não fosse pelo sangue que escorria, eu não saberia dizer se tinha um corpo ali. Parecia dissolvido, leve. Parecia ter cortado o ar. Assim, ele caiu. Os olhos, brancos, continuavam me fitando…

O vento. Os toque nos pés. Os barulhos da noite e o cheiro da chuva. Absorvia tudo. Sentia-se mais leve. Enfrentava seu medo.

… eu não faço ideia do que aconteceu depois, nem como reagi a tudo aquilo naquela época. Mas, até hoje, não consigo deixar de pensar… Como será quando minha hora chegar? Será que a natureza também vai me chamar?

Logo, seus pés tocaram outro pavimento. Sentiu algo mais compacto e mais áspero. O asfalto. Enfrentou seu medo e foi necessário. Sabia disso. Sentiu isso crescendo dentro dele. Não teria voltado a dormir, não poderia ter voltado a se sentir tranquilo. Não sem fazer isso…

Finalmente livre. Poderia voltar para casa.

No entanto, ali, parado, no asfalto, saiu do transe e lembrou-se do sonho, do pesadelo. Viu um par de luzes se aproximando na rua. Foi exatamente assim. Estava imóvel. Não conseguia mover um músculo, embora tentasse… As luzes continuavam a vir em sua direção, talvez até um pouco mais rápido. Foi quando seu corpo adquiriu uma sensação de leveza etérea. Não apenas leve, mas livre. Teve certeza que, naquele instante, seus olhos estavam completamente brancos.