Sobre os amores covardes

“A Cama”, de Henri de Toulouse-Lautrec.

Ao longo da história a humanidade pôde testemunhar, por repetidas vezes, movimentos de afirmação e negação da percepção da realidade. O renascimento reemergiu a precisão realista, que depois seria destruída pelos Impressionistas. O desmanchar das pinceladas, sinal de tempos esfumaçados e cinzas, seria então superado pela afirmação do progresso dos Futuristas. Por fim, o Dadaísmo, frente à destruição das novas máquinas de matar, mais uma vez negaria tudo. O processo se repetiria mais uma vez — agora misturado às pretensões políticas emergentes no século XX — para ser destruído pelo que parece ser, hoje, o suprassumo da negação da realidade: a pós-modernidade.

Nos relacionamentos, como na arte, fenômeno similar parece abater a juventude. Meus pais nasceram na década de 60 e foram, muito provavelmente, meus primeiros antepassados que de fato puderam escolher livremente com quem passariam o resto de suas vidas. Aparentemente não conseguiram lidar com a pressão dessa conquista, e acabaram separados quando ainda não tinha uma década de vida; eles já na casa dos quarenta e tantos anos. Se insurgiram contra a certeza forçada do amor bruto, sem sentimento, arranjado, falso, e terminaram perdidos em meio ao romance verdadeiro. É evidente, este não é o caso de todos os que nasceram na metade do século passado; mas é fato dado que a partir dessa geração o número dos que “não souberam escolher” só cresceu.

Pouco tempo depois, é minha geração que se rebela; agora contra os relacionamentos em si. Criam um amontoado de desculpas mal dadas para evitar os arrepios no coração; fazem sexo como trocam likes nas redes sociais — com a profundidade de uma folha sulfite, com o máximo de pessoas que consigam, em troca de um estímulo que, sem dúvidas, é mais fugaz do que a chama que incendeia o cigarro do pós-coito. Em outros casos, dizem estar em “relacionamentos abertos”; modalidade de relação na qual os seres buscam o máximo de benefícios com o mínimo de comprometimento e, obviamente, acabam por se destruir mutuamente na melhor das opções e, na pior, por destruir seu “companheiro(a)”. Essa é a geração que se nega a apegar-se a outra pessoa antes dos trinta e cinco, que quer “aproveitar a vida” sem perceber que a morte é que se aproveita deles: devora-lhes a carne antes mesmo que tenham dado o primeiro berro, que tenham tido o primeiro seio. É a juventude que descobriu que não há um príncipe ou princesa encantada, e que por isso nega a existência de pessoas que lhe farão bem e lhe trarão alegria.

É verdade; não estamos destinados a encontrar uma outra pessoa específica cuja existência foi moldada para nossa alegria, em uma espécie de aventura mítica da qual só sairemos completos com a outra metade. Mas isso não significa que somente sozinhos estejamos completos, ou que não possamos ser mais completos diariamente. Também não significa, é claro, que qualquer um dos 7 bilhões de habitantes do planeta terra possam nos trazer alegria; aceitamos o perigo do alto mar e a possibilidade de pescar botas para, como o Velho de Hemingway, conseguir um grande peixe. Na orla, a vara só puxa pequenas sardinhas, que devem ser descartadas.

Fica a frase que, de tão célebre, já é clichê: a história se repete. Talvez o mundo não possa ser limitado às pinceladas de Da Vinci ou às pancadas de Michelangelo, mas o irracionalismo, a negação da realidade, o Dada e o Pós-Modernismo niilista também não nos libertará. Construamos outro mundo; partamos pela aceitação da existência do atual. Não há resistência quando se parte da negação da realidade. Desta maneira, vendamos nossos olhos e pulamos alegremente no poço da decadência humana.