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Rotineiro | Encontro de Sábado

@chelsieautumn

Odesespero agradável caminha lento em dias úteis. Aquele que quase inerte se reclina sobre a marca do café que havia sido derrubada, há pouco e logo cedo, na camiseta branca predileta. E nela, um escrito rústico que se pode ler my way of living, dava “bom dia’’ para Dona Sosô do primeiro andar.

De certa forma não há embaraço na marca marrom aguada que está, agora, desfilando em frente a padaria do Sr. Adilson. Até mesmo se mostra ousada, pousada na 4ª esquina no caminho de ida ao trabalho que já não se deseja mais.

Sobre ele, muito se diz, muito se reclama. A rotina é velha e a casa está bamba, então uma tensão dispara escondida debaixo da cama, e esse lado externo-exposto de descaso, como um posto imposto de desamor ao ponto de ônibus.

O cheiro da comida no almoço já não é presenteado com nome de prato ou um “O que tem para almoçar?’’. Tudo cai no labirinto da memória. Tudo se tornou nostalgias em discos riscados, que cantam a música mais triste de Caetano. Enquanto — O amor morre na mesma medida que a afeição se despede e o ódio se despe — diz Regina, na janela do vizinho de frente ao peito.

A chave gira e ele encara a casa por dentro, pelo vidro de fora. Um vidro de transparência escura, frágil e fino, que descansa sobre a porta. Entra sala, entra corredor, entra quarto como bala. Senta mágoa, senta amargor acompanhando de um licor, senta ele no chão de madeira e — Ôh, amor! Agora?

Encaram a parede, nela os dois enxergam o todo de nada que o tudo tornou:

- E o que tornou? — Ela questiona, apertando um gatilho que a ressaca terá de cuidar.

- O que eu quis me tornar não tornei. Então retruquei vendo o céu, mas nem isso me quis — respondeu ele sem nenhuma esperança de ser entendido — Querer demais um tanto de tudo, tornou tudo um grande nada, pequena. Quando se está em alto-mar, remar para todo lado é sempre não sair do lugar. Querer demais me tornou um zero redondo blasé.

- Se a esperança de tudo se torna o nada, o que se faz? — Ela perguntou com a pressa que só a desilusão pode trazer.

- As coisas seriam mais fáceis se eu soubesse. Um chute de sorte pode ser a busca pelos meios-termos. Talvez viver sem esse mal que temos de dizer que o acerto mora no que o cartão pode comprar — continuou — Então, tenho dito: Capricha! E essa, é a solução que só nosso povo irá entender.

- Será? — Ela concluiu, seguida do silêncio.

End of The Affair* começa a tocar no aparelho de som centrado na sala. Era 23:43 e a noite começava agora quieta. Assim mesmo. Com as estrelas traduzindo o que a noite quer gritar.

*Música de Ben Howard (Álbum: I Forget Where We Were)

(Gabriel) Amon Rá. Paulistano de sotaque pesado. Estudante de comunicação e escritor em aprendizado. 20 anos, mas aprecia cereal como se tivesse 12.

(Gabriel) Amon Rá. Paulistano de sotaque pesado. Estudante de comunicação e escritor em aprendizado. 20 anos, mas aprecia cereal como se tivesse 12.