Abrindo a conta do cartão de crédito.


Meus dedos se fecharam ao redor do envelope. Aquele pedaço de papel cuidadosamente impresso e dobrado, não tão cuidadosamente entregue na minha casa, era uma estrutura pálida e em desacordo com tudo que seu conteúdo representava. Afinal, ali dentro constava o quanto eu tinha desperdiçado da única moral e status que as pessoas realmente entendem, o dinheiro. Ele continha o quanto foi gasto e determinava quanto eu poderia gastar, continha os registros do que aconteceu e acabaria por ditar o que vai acontecer. Ele era o passado e o futuro. O branco opressor do envelope só cedia em um pequeno intervalo de plástico transparente, uma janela momentânea onde eu podia ver, na folha de dentro, meu nome inteiro escrito em caixa alta, fonte impessoal, sem resquícios de solidariedade ou compreensão, um conjunto de caracteres implacavelmente factual. O nome de uma pessoa talvez seja seu bem mais importante. É como seus amigos a chamam, seus amores a chamam, seus inimigos a chamam. É algo carregado com um significado toda vez que é utilizado, seja carinho, ódio, amor, preocupação, solidariedade, compaixão, frustração, depreciação — mas não aqui. Aqui ele é apenas um dado, tão importante e significativo quanto um código de barras. E há algo de atordoante em ver seu nome escrito como informação, apenas informação e nada mais.

Deslizei a mão pela parte de cima do envelope e cuidadosamente comecei a puxar a dobra. O papel cedeu rapidamente, mas logo um som áspero se pronunciou e pude perceber um pequeno rasgo na folha. Tentei compensar puxando pelo outro lado, procurando equilibrar a abertura e manter a dobra o mais intacta possível, realizar a ação da forma que ela foi pensada pelas pessoas que criaram tal sistema. Enquanto puxava o papel com mais lentidão e mais cuidado, amaldiçoei minha personalidade covarde, sempre presa ao controle e jamais livre para rasgar papéis e paradigmas, como se ficar sempre dentro das linhas permitisse dominar os acontecimentos, evitar as decepções e frustrações e riscos e perigos e corações quebrados que espreitam todas as almas desde que o homem é homem. As duas partes coladas iam se desapegando em ordem conforme minha mão exercia sua soberania sobre o envelope, mas eu sentia que estava agindo no limiar, que qualquer passo em falso resultaria em outro rasgo, outra cicatriz no corpo desse impecável resultado de um oneroso processo industrial. Então, como sempre acontece com as pessoas que não conseguem perceber que o controle é ilusório, a aleatoriedade da vida se interpôs e deu início a mais um rasgo, e outro, e outro, e outro, a todo momento desdenhando das ambições humanas. Comecei a suar a ver que uma poderosa e imponente linha horizontal ia se formando de lado a lado. Parei por um momento e contemplei a situação, buscando soluções para o problema, mas tudo que eu realmente via eram as possibilidades indo embora. Aquele rasgo era a força irresistível e o objeto irremovível. Uma força da natureza, frente à qual eu não podia fazer nada a não ser me entregar ao caos e deixar que o acaso guiasse meu destino.

Quando dei por mim, o envelope havia se transformado em uma colcha de retalhos, um espantalho repleto de aberturas irregulares que davam a ele uma aparência de ruína, como antigos panteões gregos ou templos romanos. Já era possível ver o fundo azul da parte interna, decorado com milhares de versões ínfimas e negativadas do logotipo remetente, assim como a linha suave da dobra que permitia ao A4 se reduzir o suficiente para caber dentro do compartimento. Puxei o papel com receio. Houve uma época onde os grandes intelectuais achavam que o corpo era apenas um suporte para a mente, que o mundo existia apenas da forma como o nosso cérebro o percebia, mas o súbito pesar no estômago, os dedos trêmulos e o suor tornavam impossível concluir algo diferente de que esse sentimento não existiria sem o corpo, era parte integrante dele. Enquanto sorvia involuntariamente o amargo gosto do suspense, deixei o envelope cair no chão e fiquei olhando para a folha interna, ainda dobrada: era impressionante que algo tão frágil pudesse ser o meio de coisas tão contundentes. A pena é, de fato, mais poderosa do que a espada.

Passado, futuro, decisões, escolhas, sacrifícios, planos e objetivos pendiam no ar conforme eu ia desdobrando o papel. Proliferavam-se por cada célula, cada conexão química, preenchendo corpo e mente com a antecipação do inevitável. Agora já era possível ver o belo degradê verde que decora a parte superior da folha. Pensamentos iam e voltavam, correndo como crianças e contaminando cada sinapse. O que será a partir de agora? A vida vai ter que se adequar ao novo ou ela continuará fluindo normalmente? Olhei para o canto direito, procurando o quadrado que abrigava os únicos números importantes de hoje, ontem e sempre. Será que isso vai afetar minha rotina? Que pequenos prazeres terão que ser cortados, que os dias se tornarão uma corrida cuja chegada é a estabilização da situação, um mundo alternativo onde tudo que se faz é pedalar até que o circuito chegue ao final? Que meus dias serão menos alegres, assombrados por uma prisão invisível na qual eu mesmo me encarcerei, condenando assim momentos de prazer, de diversão, de vida? O quadrado estava lá como sempre, indiferente a tudo ao seu redor como sempre, ao impacto que tem, às vidas que muda. Apertei os olhos sem perceber na hora de ver os números ali presentes. Então minha respiração e o mundo pararam.

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