Quando em Paris, escreva.

Paris é a Scarlett Johansson das cidades. É impossível chegar na capital francesa e não se apaixonar por suas ruas estreitas, cafés de esquina, mulheres de olhos claros e arquitetura estonteante (que remete a duas das escolas mais clássicas da arquitetura, a “clássica” e a “clap clap clap”). A cidade possui uma atmosfera meio inspiradora, aberta, envolvente, dá para entender porque abrigou tantos escritores/artistas/intelectuais e metidos a escritores/artistas/intelectuais ao longo dos séculos — e por isso eu, na condição de metido a escritor, preciso me pronunciar a respeito dos dias de sol e pronúncias oxítonas que vivi na cidade luz.

A grande verdade é que, uma vez lá, dá vontade de sentar na grama com um notebook, uma garrafa de cerveja ao lado e escrever um Os Miseráveis qualquer. Claro, não é que a cada esquina se encontra uma Mélanie Laurent tocando violão com uma boina na cabeça, óculos redondos e uma cópia de Madame Bovary ao lado, mas uma caminhada pelas ruas já mostra que ao menos personalidade é algo que tem de sobra por lá.

Bastidores da Torre Eiffel.

Liberté, Egalité, Café

A coisa que mais se vê em Paris, além de pombas, são aqueles cafezinhos de esquina (que por lá nem sempre ficam na esquina), charmosos, onde sua namorada/esposa provavelmente vai querer parar pra gastar oito mil euros em uma xicarazinha do líquido preto (sim, é caro) mesmo tenha chegado lá partindo do maior produtor de café no mundo. Mas é inegável que eles dão um clima especial à cidade, cujas ruas estreitinhas são também compostas por diversas livrarias, galerias e por aí vai. Tudo bonito e organizado. Até mesmo as banquinhas pequenas que vendem livros e quadros na margem do Rio Sena têm uma grande variedade de material e estrutura bacana, duas coisas que não são muito encontradas no Brasil fora das grandes redes.

A imagem perfeita das diferenças culturais, aliás, está nas multinacionais: ao visitar uma Fnac local, percebe-se que a seção de música clássica não ocupa apenas uma prateleira escura no fundo da loja atrás de uma porta com aquele sinal que tem a caveira e os dizeres “risco de morte”, mas sim um espaço muito amplo em uma área mais nobre e bastante visível do local. Da mesma forma, a parte dos discos de vinil não apenas é grande como oferece os produtos a uma média de vinte euros, ao contrário dos no mínimo 100 reais que o cara tem que desembolsar para comprar um troço desses no Brasil. Porque se os cafezinhos e etc são caros, ao menos na parte cultural Paris parece ter um preço mais justo.

A capital francesa é tão metida a estilosa, aliás, que até mesmo o McDonald’s da Champs-Élysées apresenta cores mais sóbrias e uma disposição diferente das mesas, pendendo mais para o lado de um dos cafés mesmo do que de uma lanchonete fast-food - o que não deixa de ser legal, já quecombina com a atmosfera que a cidade evoca. A gente acha que é coisa de filme, mas Paris tem dessas mesmo, de se mostrar clássica e elegante até nos lugares onde menos esperamos.

Durante a minha estada por lá, Paris me levou à casa de Auguste Rodin (barato pra entrar, interessante e tem O Pensador na frente), a uma apresentação sobre fundição (gratuita e com bastante gente interessada), a um sarau elétrico (meio bizarro, mas ok, a cerveja não era tão cara quanto nos pubs) e a uma instalação artística no Grand Palais des Beaux-Arts (ou Grande Palácio das Belas-Artes) que me obliterou completamente — e estamos falando de um lugar que pode muito bem bater na porta da Torre Eiffel e pedir açucar emprestado, tamanha a proximidade. Precisa ser assaz arrebatador para se destacar.

A Cinemateca da cidade (sim, eles têm uma cinemateca. E é enorme) é outro espaço proveitoso, sempre com propostas interessantes e bem organizadas para os amantes da sétima arte (na minha época de visitação, era uma mostra sobre Stanley Kubric, repleta de figurinos, pedaços de roteiros e muitas outras peças dos filmes dele. Incluindo o figurino das duas gêmeas de O Iluminado. Não dormi por meses). E por falar em cinema, os de Paris são aqueles de calçada — quase não vi shopping centers lá, aliás -, que parecem muito mais simpáticos e legais que os de shopping (melhor sair do filme para a rua do que para um monte de lojinhas e preços etc), e cujas salas parecem mais aptas a incentivar a cultura nacional: cerca de metade delas eram para produções hollywoodianas, e a outra metade para produções francesas.

A melhor coisa, entretanto, é simplesmente sair na pernada e ficar admirando a capital enquanto toma um sorvete, ou uma cerveja, ou um sorvete e uma cerveja. A região de Montmartre, perto da basílica de Sacre-Coeur, então, é uma belezura só, cheia de lugares para comer, artistas de rua desenhando, pintando, fazendo mágicas ou qualquer coisa do gênero, além de uma vista descomunal da cidade — que talvez só não seja mais bonita do que a dos passeios de barco durante a noite. Porque de dia, com sol, Paris é sensacional; mas quando a noite cai, ela parece ainda mais espetacular.

Cultura Turística

Sombra e Torre fresca.

Eu odeio escrever coisas clichê. Odeio mesmo. Só que às vezes os clichês são a verdade pura e, nesse caso, a verdade pura é a seguinte: ver a Torre Eiffel ao vivo, na minha frente, cara a cara, é das coisas mais emocionantes que já fiz na vida. É uma estrutura monstruosamente grande, imponente e, ao mesmo tempo, linda. Tipo a primeira vez que a gente vê o mar. Lembro que fiquei um pouco decepcionado ao descobrir que ela havia sido construída para a exposição universal de 1889, e não como monumento a algo ou alguém. Mas, pensando melhor, até que faz sentido: a Torre é tão sensacional que só pode existir enquanto ela mesma, sem precisar de histórias ou adendos para elevar sua imagem. Ela é espetacular o suficiente para que sua beleza e história comece e termine nos 324 metros de altura que são o rosto da França.

Após subir os milhares de degraus da Torre (abraçado ao corrimão, porque medo de altura não sofre jetlag) e contemplar a cidade de uma altura sensacional (e assustadora), uma agradável caminhada me levou até o Arco do Triunfo, construção inegavelmente impressionante e bonita — descobrir a entrada dessa desgraça envolve uma investigação maciça e uma dose bíblica de sorte, mas é inegavelmente impressionante e bonita. O preço para subir era bem camarada, mas, como a visão da Torre ainda latejava na cabeça, decidi ficar no amigável nível do mar, mesmo. Bom é que do arco dá para descer na pernada pela bacana avenida Champs-Elysées, com lojas incríveis (como a da Virgin e a da Peugeot), e dar de cara direto com Arco do Triunfo compactado na frente do museu do Louvre (Paris tem três arcos, na verdade: o do Louvre, o tradicional e um modernoso, e estão todos alinhados — ficando entre as colunas de um, dá para ver os outros).

O museu, a propósito, é colossal. Gigantesco. Repleto de corredores intermináveis, salas adjacentes e curvas marotas. O prédio foi construído em 1190 pelo rei Filipe II à guisa de palácio — e só virou museu em 1682 quando o Luis XIV foi morar no Palácio de Versalhes — então não à toa me perdi naquela bagaça (toda vez que topava com a Venus de Milo eu sabia que estava andando em círculos). Mas é extremamente arrebatador também, ainda que meu conhecimento artístico seja anêmico e meu critério de qualidade visual envolve o número de coisas explodindo na tela. E ainda tem a Mona Lisa, que não é pequena como dizem e, descontada a presença de dezenas de pessoas junto ali, tem um impacto tipo “nossa, estou vendo a Mona Lisa” que conseguiu ser bastante intenso - o que já é o suficiente para justificar a visita, acredito.

A Catedral de Notre Dame é outra daquelas coisas que a gente bate o olho e sente os joelhos entrando em greve, de tão bonita que é. Pena que vira um formigueiro de gente indo para lá e para cá, uma rodoviária religiosa eternamente na sexta-feira às seis da tarde, o que já anula qualquer experiência boa que não seja a estética, pois é impossível dar dois passos sem ter a córnea queimada por um flash. Outros pontos interessantes de visitar são os jardins de Luxemburgo e a basílica do Sagrado Coração. E o melhor é que boa parte dessas desventuras são relativamente perto uma da outra, tornando Paris um grande e amigável circuito de caminhadas (com a abundância de queijos e crepes por lá, elas podem se tornar necessárias).

I Love the Nightlife

A vida noturna na cidade é bem enlouquecida e tem bastante francesas de olhos claros indo pra lá e pra cá, o que é sempre bom indício. Parecem existir poucas casas noturnas na cidade, entretanto, fazendo com que a noite caia mais para o lado dos barzinhos, pubs ou, no verão, em piqueniques alcóolicos à beira do Sena (e acreditem, é muita gente que vai para lá. Muita mesmo. E tipo, as gurias andam com abridores de garrafas de vinho na bolsa. Daria para tomar a Bastilha só com a quantidade de abridores pontiagudos encontrados nesses piqueniques).

Só pode haver um (pub).

Perto da estação Châtelet, nas ruas Saint Denis e Rue de la Verrerie, há uma porção de pubs assaz atraentes. Como a entrada é de graça, dá para ficar circulando de um para o outro sem problemas, curtindo desde um pub irlandês com banda ao vivo até um mais alternativo com cerveja barata e gente mais esquisita (mas se você estudou artes ou comunicação deve estar acostumado). Tinha até um bar australiano, mas esse eu não conheci porque só entrava casal ou mulher solteira (aparentemente, na Austrália o menage é liberado).

Lá pros lados da estação de metrô Bastille o night fever também rola alucinado, com diferentes opções para os diferentes gostos. Claro, a globalização também existe para os franceses, então acabei conhecendo um “irish pub” que tocava “música latina” (tipo, funk e tal) e com cerveja não barata (cerca de oito euros, mais ou menos a média da capital francesa), mas valeu pelo nonsense total da situação. Por outro lado, também estive numa casa noturna extremamente underground onde, a certa altura, o guitarrista da banda que tocava subiu nos ombros de alguém da plateia e saiu de carona pela pista — enquanto fazia um solo.

Foi assim, pela Torre Eiffel, turismo, caminhadas, festa e cerveja que eu descobri a cidade. E quando alguém passa quase sete dias perambulando por Paris, fica fácil entender o porquê de tanto auê em torno da metrópole, de tantas declarações de amor e odes à sua beleza. Só de imaginar sair do trabalho e caminhar todo dia pelas ruas da capital sob o olhar atento da imponente Eiffel, tomando diferentes tipos de estímulos alcoólicos, já faz com que eu me sinta como um personagem de livro. Paris é realmente linda, é agradável, é clássica, é impressionante, tem pessoas interessantes, tudo isso é verdade. Mas também um algo a mais, aquela coisa indefinível que faz a gente se apaixonar por algo ou alguém. Nesse caso, chamar Paris de cidade-luz nunca fez tanto sentido, já que cada pedacinho daquela cidade faz os olhos das pessoas brilharem.

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