Escrita, cidade, mulheres e Ferrante

Escrever é político.

A escritora Elena Ferrante não se mostra, raramente dá entrevistas, não sai em turnês pelo mundo e nem mesmo usa seu nome verdadeiro. Ainda assim, está em todos os lugares.

É que tudo o que ela teria para dizer já está em seus livros, segundo ela própria. A escrita é o seu modo de intervir no mundo e para ela basta.

Eu estava evitando escrever sobre as obras de Ferrante porque muito já foi falado e resenhado, mas não resisti.

E não resisti porque a tetralogia me fez visitar temas que poucos livros alcançaram. Ela fala de pertencimento, da relação feminina com a cidade, apresentando de forma muito direta os conflitos, as dificuldades de intervenção e desigualdades.

É muito bem desenhada as diferentes entre os bairros da periferia de Napóles e os outros cenários, de classes diferentes. Ferrante nos apresenta diferenças no viver, nas vivências possíveis em cada locais e mesmo na fala. O dialeto é uma forma de exemplificar bem essa diferença. A linguagem usada em um lugar não cabe no outro e Lenu precisa entender essas regras quando circula de um ponto a outro.

A forma como as palavras saem: no bairro as mulheres discutem, as relações são marcadas por uma violência explícita. Nas cidades debatem.

Respeitando as diferenças entre os países, a história me fez lembrar muito as periferias da cidade de São Paulo. Quem nasceu nas periferias e favelas conhece bem a sensação e confusão que isso acarreta quando se circula pela cidade e ocupa espaços que comumente não são destinados aos pobres (universidades, aeroportos, espaços culturais, áreas nobres da cidade, etc). As tentativas de se encaixar em diferentes mundos e no fim se sentir deslocada em ambos.

O deslocamento é cansativo não só pela distância física, mas pelo esforço de se tornar adequada para ambos os locais.

“Aquele pequeno deslocamento por Nápoles me esgotou. De que serviam os anos de ginásio, de liceu, de Normal dentro daquela cidade? Para chegar a San Giovanni tive necessariamente que regredir, quase como se Lila tivesse ido morar não em uma rua, em uma praça, mas num riacho do tempo passado, antes que fôssemos para a escola, um tempo negro, norma e sem respeito”.
História do novo sobrenome.

É desgastante participar das cidades. E quem dirá, interferir.

Na obra de Ferrante, as meninas, quando criança, se deparam com o livro Mulherzinhas que apresenta uma visão bastante conservadora do que é ser mulher. Lila decide escrever sua própria história e dessa forma, a autora coloca a literatura como personagem importante no livro que irá seguir por toda a teatrologia. Lenu conquista seu espaço na cidade por meio da escrita, por exemplo.

Foi Mariana Almeida, professora de italiano e pesquisadora que durante uma palestra sobre Ferrante, me ajudou a me organizar melhor os temas literaturas, cidades, política e mulheres e relacioná-los. Nós como sujeitos nos construímos na relação com o outro, portanto, segundo Mariana, a literatura funciona como espaço público.

Essa relação me ajudou de muitas maneiras. Porque retira a literatura da margem (os livros tão bonitos, mas tão cultos e distantes) e coloca coletivo e portanto passível de ocupação e intervenção, de construção coletiva.

Claro que também não é um espaço onde mulheres são bem vindas. Afinal, a vida pública é hostil com mulheres. A leitura é aceitável como um hobby, limitada ao espaço privado e não como profissão ou status.

É fácil associar a profissão de escritor com o glamour e a intelectualidade. Quando são autoras temos que lidar com as constantes tentativas de diminuir a relevância do trabalho. Autores e críticos chegaram a criar uma categorização inexistente de “literatura feminina”. Um espaço café-com-leite, algo como pode ir brincar no seu cercadinho meninas.

Se alguém não sabe categorias de livros são biografias, contos, crítica literária, ficção científica, poesia, etc. Note que obra é categorizada e não o autor ou autora.

Construir conhecimentos coletivos é crucial. A literatura possibilita a construção de novas formas de nos relacionar com as cidades. Porque a ficção cria realidades nos ajudando a responder ao nosso tempo, pensar o futuro e impede o apagamento da história.

O livro começa com o desaparecimento de Lila e para rejeitar essa possibilidade Lenu a escreve.

E acessar essa obra me fez mudar a relação com a escrita e com os livros. Aceitar que minha escrita será influenciada pela cidade em que vivo, mesmo que eu faça esforços para me adequar aos ambientes diferentes. Mas também que cada texto é um ato de resistência.

A cidade precisa das histórias das mulheres e precisamos garantir que elas sobrevivam. Precisamos de novas fadas azuis e não deixar que terminem em uma fogueira no portão de fábrica. Queimada por não caber na cidade dos homens.

Ferrante está certa em não revelar seu nome. Ela já nos deu algo incrível, forte e político: seus livros.

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O texto surgiu a partir de palestra da pesquisadora Mariana Almeida, que aconteceu no Centro Cultural Artemis em São Paulo. Mais sobre o trabalho dela: https://medium.com/passaparola