Solomon, Suicídio, depressão e controle

A Riechel
A Riechel
Sep 5, 2018 · 5 min read

Sabe por que temos medo da escuridão?

Porque tememos o que não vemos, o desconhecido. Por isso os fantasmas aparecem de noite, por isso o bicho-papão se esconde embaixo das camas e nos cantos dos armários na hora de dormir.

Se você for corajoso e apontar a lanterna verá que não há nada a temer. Basta jogar luz e o que estiver lá irá se revelar e, então, acabam os motivos para medo.

Isso funciona com quase todos os demônios. Menos com um: a depressão. Andrew Solomon chamou seu livro de Demônio do Meio Dia por isso. Esse monstro que você descobre, joga luz sobre, mas ainda assim irá te atormentar. Não adianta acender as luzes.

O livro publicado no ano de 2000 reúne relatos, a experiência pessoal do autor e muita pesquisa com opinião de especialista sobre a doença. Fala sobre medicamentos, história, psicologia e a maneira como Solomon interpreta os dados, misturando relatos pessoais, torna a leitura bem mais agradável, mas também bastante pessoal em alguns pontos.

Irei focar em um dos capítulos do livro: Suicídio.

Não vou colocar aviso de gatilho porque 1.o título é explícito e 2.concordo que precisamos conversar sobre. Mas se estiver lendo isso enquanto vive um momento delicado eu sugiro que procure ajuda. Eu sei, é cliché, mas salvou minha vida.

A primeira coisa que Solomon faz é diferenciar suicídio de depressão: “a tendência ao suicídio tem sido tratada como um sintoma de depressão quando na verdade pode ser um problema que coexiste com a depressão”. Ou seja, nem todo depressivo vai tentar se matar e nem toda pessoa suicida tem depressão.

Capaz que você já tinha ouvido falar isso, mas quando o livro surgiu essa não era uma ideia recorrente. De qualquer forma, o livro foca no caso da depressão.

Mas ele defende uma diagnose diferenciada para os problemas principalmente porque, galera, sério, tentar se matar é um puto esforço. E transformar um pensamento em ação exige uma energia e vontade que, no geral, depressivos não possuem.

Medalha por ter conseguido sair da cama! BuzzFeed Internacional que fez uma lista com 19 pequenos prêmios que qualquer pessoa com ansiedade merecer receber. Algumas servem bem para quem tem depressão.

E mesmo dentro do assunto morrer/morte/querer estar morta, Solomon faz novas diferenciações:

“Há sutis mas importantes diferenças entre querer estar morto, querer morrer e querer se matar. A maioria das pessoas, de tempos em tempos, tem o desejo de estar morto, anulado, além da dor. Na depressão, muitos querem morrer, fazer uma passagem concreta do estado em que se encontram para se libertarem das aflições da consciência. Querer se matar, contudo, requer todo um nível extra de paixão e uma certa violência dirigida”.

Pensar em morte não é incomum e nem necessariamente algo ruim. Quando se pensa na morte se pensa também na vida, em sua finitude e significado. (Não recomendo embarcar muito nessa pira aí, mas caso queira, vá acompanhado de alguns bons filósofos para não se perder no caminho).

Isso explica porque é tão difícil encontrar casos de suicídio em outras espécies. Animais não entendem sua própria mortalidade e por isso não cometem suicídio (no máximo podem ferir-se quando criados em situações opressivas extremas).

Os motivos para que uma pessoa tente suicídio podem ser tão variados quanto os motivos para continuar vivo. No caso das doenças mentais é comum que ao chegar no ápice da tristeza a pessoa absorva a crença de que as pessoas estarão melhores sem ela, já que sua existência se tornou um fardo. (e ei, isso é a doença falando).

Nesse ponto o amor é pouco eficiente. As ligações com as pessoas são bastante dificultadas e a ideia de morte tende a parecer a única solução. Destruir o corpo, destruir a morada a dor.

No livro Solomon diz que é necessário algum espaço para que esse sentimento cresça. Pessoas que vivem em situações extremas de violência (como guerras e campos de concentração) não tendem a se matar, porque estão focadas em sobreviver. Mas o número de pessoas que voltam de guerra e depois de um tempo se suicidam é altíssimo. Você precisa de reflexão até para assimilar o horror.

Isso vai de encontro ao pensamento de que divulgar informações sobre ocorrências de suicídio é perigoso, pois estimularia pessoas a pensarem no tema ou encontrem formas de o fazer, copiando comportamentos. Isso é parcialmente verdade, já que é importante falar sobre, mas com certos cuidados.

Não falar sobre suicídio não ajuda quem está passando por momentos difíceis e poderia ser salvo pela informação, pelo diálogo e pela compreensão. Citando Nietzsche, “a ideia do suicídio mantém muitos homens vivos na parte mais sombria da noite”.

Então entra a ideia de controle de Solomon. Não um controle externo, mas individual. Jogar uma luz sobre pode ajudar. Solomon resume que quanto mais alguém se concilia com a ideia do “suicídio racional” (pessoas que acreditam que a dor da vida é maior do que as vantagens de se viver), mais protegido estará do suicídio irracional (aquele de impulso ou por “vingança” contra alguém ou algo).

É o famoso “ah, hoje não”.

Em suas palavras:

“Saber que se eu atravessar esse minuto sempre poderei me matar no próximo torna possível atravessar este minuto sem ser totalmente esmagado por ele. O suicídio pode ser um sintoma da depressão; é também um fator que a suaviza. A ideia do suicídio torna possível atravessar a depressão”.

É uma chance de restabelecer controle pela própria vida e a partir disso, buscar controle sobre outros aspectos. Assim, com o tempo e tratamento o sofrimento diminuiu e, então, o suicídio deixa de ser uma obsessão no caso da depressão.

E a morte como um todo pode ser discutida. Neste capítulo Solomon também narra a doença sem cura de sua mãe e o pedido de eutanásia antes que a doença a consuma. É preciso ter algum controle sobre a própria vida, para que possamos conversar de forma madura sobre a morte.

A luz que a lanterna de Solomon joga pode não ser das melhores. Pode ser que faça muita sombra e traga novos monstros nos armários. Mas a verdade é que sem a sombra você não consegue saber de onde vem a luz. E a vida sempre vai ser um pouco assustadora.

E se você apontar sua lanterna em minha direção, hoje, vai ver que estou ensinando os meus próprios demônios a dançar.

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Lembrando que o CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. https://www.cvv.org.br/

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A Riechel

Opinião. Literatura. Ilustração.

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