Desmontando um artigo da Folha de São Paulo


Pensamento Coxinha
Guilherme Boulos

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2015/04/1611492-o-pensamento-coxinha.shtml

O orgulho coxinha entrou na moda. Muitos andam por aí, nas ruas e nas redes, autoproclamando-se “coxinhas” sem nenhum pudor. Virou identidade positiva. O coxinha se considera trabalhador, estudioso, um cidadão de bem que cumpre seus deveres. É contra a corrupção e privilégios que firam a meritocracia.

Senhor Guilherme Boulos, não há mal algum de uma pessoa se ver como alguém trabalhador, estudioso e de bem, ou senhor, como ser humano, se enxerga como alguém torpe, vagabundo e de má índole? E ser contra aspectos que ferem a meritocracia é a pedra-de-toque não só de coxinhas, de todos os cidadãos que compreendem que gostando do governo que habita o planalto, ou não, só há um jeito de colocar comida na mesa e pagar as contas, é trabalhando com orgulho das conquistas que obtêm.

Mas, já nos ensinou Freud, sempre é bom desconfiar do juízo que as pessoas fazem sobre si próprias. Os coxinhas que têm infestado o debate político atual não são exatamente modelos de retidão e coerência.

Citar uma frase de Freud fora de seu contexto é o que se tem costume em 99% das argumentações da esquerda, quando se falha em atacar os argumentos — ser contra a corrupção não é algo que é fácil contra-argumentar — atacam-se as pessoas, declarando-as não confiáveis. Ao se dizer que por não serem exemplos de retidão e coerência, não podem eles serem contra o que é errado, como o fato de que se eu não sou santo, não posso condenar e entender o que é errado, e se partirmos desse pressuposto, sequer a esquerda pode falar mal dos coxinhas, considerando a quantidade de assassinos, ditadores, fascínoras, homofóbicos, posso, como o senhor fez ao afirmar que os coxinhas não são santos, tomar o caráter de alguns sanguinários líderes da história da esquerda como sendo de todos e declarar falsamente, que toda a esquerda é assim, mas não, eu não farei isso, eu não ataco as pessoas, mas os argumentos, afinal, atacar pessoas é arte monopolizada de argumentações tradicional da esquerda desde Marx.
São adeptos do “dois pesos, duas medidas”. Sua visão tacanha do mundo, que dificilmente resiste à crítica, com frequência descamba para o ódio e a intolerância. Substituem os argumentos por xingamentos.

Nesse caso concordo, embora, novamente generalizar é algo complicado, pois da mesma forma que existem extremos da direita que fazem isso, e assim são associados aos “coxinhas”, existem aqueles do PT e dos partidos de esquerda que são associados aos “petralhas”, o que ambos os casos apenas revela radicalismos anti-producentes e se torna uma discussão de gritos para ouvidos surdos, como não compactuo com esse direcionamento, volto a dizer, vamos analisar argumentos.
O coxinha se indigna com os R$ 25 bilhões que o Estado paga anualmente ao Bolsa Família, mas acha normal os R$ 978 bilhões pagos por este mesmo Estado ao bolsa banqueiro.

As críticas ao Bolsa-Família é pela natureza assistencialistas que muitas vezes ela assume, ao invés de ser uma porta para sair da pobreza, ela se torna uma assistência sem fim. Há poucas exigências — e as que existem muitas vezes são simplesmente ignoradas — quanto a filhos na escola, mínimo de rendimento escolar, vacinação e outros pontos, que havia no programa Fome-Zero/Leve-Leite unidos para gerar o Bolsa-Família, e quanto ao Bolsa-Banqueiro, esse é uma daqueles argumentos-pegadinha, pois qualquer um vai olhar os números e se assustar, mas vale dizer que sem um sistema bancário saudável, o trabalhador é que sai perdendo, pois o crédito para Minha Casa Minha Vida, sai de existir um sistema bancário eficiente e devidamente estruturado. Bem como não se deve esquecer que o dinheiro não fica parado nos bancos, que ele retorna de diversas formas para a economia, e só não é mais eficiente esse retorno por conta dos problemas que os diversos governos criam com as taxas de juro absurdas, obstáculos ao empreendedorismo, as taxações aos trabalhadores, aos empresários, os abismos de infra-estrutura e tudo que torna mais inteligente manter o dinheiro gerando juros nos bancos do que no universo produtivo, e só para completar, tudo com a benção de mais de 12 anos de governo petista.

Ele sai às ruas de branco pedindo redução da maioridade penal quando um cidadão de classe média é assassinado, mas mantém seu silêncio sorridente ao saber que, a cada dia, dois jovens pobres são mortos pela polícia de São Paulo.

Vamos lá, que nem todo coxinha, aliás boa parte deles, não é necessariamente a favor de colocar crianças na cadeia, que é uma falácia, pois o que o cidadão, isso rico, pobre, classe média é que todo infrator seja penalizado pela crime cometido, o que se dá é que como hoje menores de 18 anos são inimputáveis perante a lei — NÃO PODEM SER RESPONSABILIZADOS — não há como indicar a esses pequenos cidadãos que ao cometer um crime, há consequências, pois não há maneira de dar esse andamento. E isso, líderes criminosos sabem, e assim aliciam menores de diversas maneiras e devido ao desnível social, aspectos sócio-culturais do crime e da antropologia contemporânea, tirar a vida humana se torna corriqueiro e não há mecanismo legal que induza o menor a entender as consequências desse ato terrível, dessa maneira, a população clama por uma solução — que igualmente é equivocada — a redução da maioridade penal, no entanto, concordo, isso não vai solucionar o problema. A solução envolve ações em tantos níveis interdisciplinares, que considerando o expertise brasileiro em fazer iniciativas caírem no vazio, esse assunto jamais vai ser solucionado.
No entanto, contra-atacar o argumento da maioridade penal sinalizando a morte de jovens pobres, sem contextualizá-las é novamente uma desonestidade intelectual, pois eles morreram, e sim é uma tragédia, mas deve se dizer em que condições essas mortes ocorreram, se por simples assassinato quando voltavam da escola, do trabalho e foram abordados por meliantes que desejando alijá-los das poucas posses, os mataram ou se foi por envolverem-se com o crime que tais jovens foram mortos, num confronto com outros criminosos, ou com as forças policiais (nada de dizer que a PM mata e portanto está errada, pois sim, ela mata, mas muitas vezes protegendo outros cidadãos e a própria sociedade de ladrões e outros criminosos e em situações que outras soluções não seriam possíveis). Há de se colocar contexto, dados e amostras estruturadas e não-tendenciosas.
Por exemplo, dizer que a polícia mata alguém a cada 36 horas em São Paulo, é parcial, pois dá a ideia de uma polícia assassina, quando se deve dizer, exatamente como se deram essas mortes, se por motivos fúteis ou se defendendo de assaltantes/assassinos, ou ainda, levantar quantas vezes a polícia matou para salvar outros cidadãos em confrontos armados com criminosos ou quantas pessoas são mortas por criminosos em São Paulo. Que há uma cultura de violência no Brasil, isso é fato, mas considerar a força policial como única maligna nesse contexto é esquecer a torpeza que criminosos impetram todos os dias à pessoas inocentes no Brasil e especificamente em São Paulo. Ninguém merece ser assaltado, morrer ou ser estuprada sob quaisquer condições.

Acha que a corrupção no Brasil começou com o PT e faz vistas grossas ao trensalão, ao escândalo do HSBC ou ao aeroporto do titio.

Aí que você se engana, muitos coxinhas, não posso generalizar como você o faz, pois não sou dado a essas hipérboles, mas grande parte quer que todos os corruptos paguem o preço de seus crimes, que são a espoliação do patrimônio de todos nós. Eu sei e muitos igualmente sabem que a corrupção não começou com o PT, mas irritamo-nos com o fato disso ser usado como desculpa para perdoar-se o PT, num sentido de “ele não começou então não pode ser punido”, não compreendo a esquerda apoiando o PT como se tudo que foi feito de errado fosse simplesmente, pasmem, certo! Isso revolta qualquer um com brios e mais que 2 neuroônios, errado é errado e pronto, o PT foi pego, que pague o preço do crime, se qualquer PXYZ igualmente for pego, que seja firmemente investigado, julgado e condenado. Faltou a esquerda dizer isso claramente, mas como sempre, atacar os outros e atacar as pessoas ao invés dos argumentos é ato corriqueiro do pensamento de esquerda.

O coxinha, ao saber que as riquezas do 1% mais ricos ultrapassarão a dos 99% restantes no mundo em 2016, atribui isso ao trabalho e esforço desse 1%, mesmo estando sem dúvida alguma entre os 99%.

Esse é outro argumento-pegadinha, pois a riqueza desse 1% dos ricos não se encontra num cofre-forte estilo Tio Patinhas em que o 1% se joga todas as manhãs para nadar nas moedas de ouro de sua riqueza, mas essa riqueza encontra-se investida em empresas, países, lojas e movimenta a economia mundial. Nos regimes socialistas 100% da riqueza é do Estado, e nada se vê de errado nisso, pois sabe-se que ela está na verdade, idealmente — embora a realidade negue essa visão — investida nas atividades produtivas do povo, e da mesma forma, esse 1% para ter a riqueza que tem, o coloca nos ciclos capitalistas ao redor do globo, e mesmo que 100% desse capital estivesse somente em investimentos financeiros, ele serviria de lastro para os empreendedores que quisessem realizar empréstimos, portanto, indiretamente o capitalismo financeiro tem de vir beber no mundo real, no entanto, os fatos mostram que os 1% mais ricos do mundo tem seu capital investido no universo produtivo e melhor, a riqueza do mundo, que cresceu em termos reais nos últimos 30 anos, é sim fruto de inteligência e ousadia desses 1%, que cedo ou tarde irão doar grande parte de suas fortunas, após suas mortes ou em vida, para a filantropia, portanto, esse 1% é por demais relativo temporalmente. Mas claro, não dá “audiência” explicar os fatos, melhor é usar uma argumentação falaciosa, dramática e impactante.

É contra privilégios desde que não sejam os dele. Queixa-se de que o aeroporto virou rodoviária e de que a classe média já não pode ter empregada doméstica.

Novamente, pegar algumas manifestações preconceituosas das redes sociais e colocá-las como fatos da maioria é absurdo, somente bater a quantidade estimada de pessoas que voam e os números da classe média no Brasil para ver que é um embuste argumentativo tomar essas ideias como representantes da maioria. Quanto ao segundo argumento, é interessante que a classe C estava também contratando empregadas domésticas, exatamente porque as condições empregatícias de então assim permitiam, mas alterando-as alijamos essas pessoas dessa possibilidade restaurando um ponto anterior que só os que tem muito capital podem bancar empregadas-domésticas. Se isso é certo ou errado o tempo vai mostrar, mas novamente, não tome algumas manifestações pessoais pela consciência do grupo, se isso não funciona para a esquerda e seus seguidores, igualmente não serve para a direita.

O coxinha se mobiliza contra a corrupção, mas não lhe passa pela cabeça defender o fim do financiamento privado das campanhas eleitorais, fundamento de 11 entre 10 escândalos de corrupção no Brasil.

Esse é um ponto que penso haver distorções importantes, pois o financiamento público via por fim aos atos corruptos, mas se for assim, como fazer com que os governantes e demais membros do sistema eleitoral mantenham a lisura do financiamento, sem favorecer os seus partidos de origem? Como o PT não seria privilegiado com mais verbas que o PMDB num governo que já se mostrou profundamente permeado por comportamentos anti-éticos? Ou ainda, como um governo como o PSDB poderia atuar em São Paulo, sendo essa cidade claramente um jóia da federação desejada pelo PT, se por um acaso o financiamento por ventura seca-se as fontes do PSDB e favorecesse o PT? E dizer que haveria controles não satisfaz pelo simples fato de que é a raposa que cuida do galinheiro.

Para ele, o mundo se divide entre esforçados e vagabundos. Por isso é contra as cotas e programas sociais. Se os negros ganham 42% em média a menos que os brancos, deve ser porque trabalham menos. Se ainda há pobres é porque se escoram no Bolsa Família e não querem aprender a pescar.

Quando pensamos em termos de desigualdade sempre temos em mente a noção de pobreza e miséria em oposição à ostentação e a riqueza desmedidas. No entanto, a desigualdade também se dá em outros números, como o fato de que 10 % dos mais ricos do Brasil concentram 42% de toda da riqueza produzida no país, mas temos hoje o fato de que 53% da população economicamente ativa a população economicamente ativa trabalha e paga os impostos que sustentam o governo, os serviços (saúde, educação e etc), programas governamentais e toda a máquina estatal. Essa massa de 53% sustenta 44% da população economicamente ativa que não quer e não procura emprego, sendo que 48% dela se encontra no programa conhecido como Bolsa-Família, e o restante, 52%, são jovens entre 14 e 18 anos, aposentados/pensionistas da previdência social e quaisquer pessoas que tenham desistido de procurar emprego por qualquer razão, mas para o governo brasileiro, elas não estão “desempregadas”. Somente 3% que procuram e não encontram emprego é que estão desempregadas, portanto, temos uma enorme massa de pessoas que não querem e não buscam emprego sendo assim, podemos afirmar que no contexto atual, há mais zonas cinzas do que a simplicidade confortadora da ideia de luta de classes clássica, pode nos fazer acreditar. E colocar os negros como ponto de argumentação é obviamente uma boa saída argumentativa, pois ninguém vai ser contra, no entanto, eles estão ali, nos 53% que sustentam quem nada quer da vida, perguntemos a eles se desejam que essa massa trabalhe ou viva as custas deles?

O pensamento coxinha é primário. Não passa por elaboração crítica e não resiste a cinco minutos de questionamento. Numa típica formação reativa, transforma a insuficiência em insulto. Mostra que entre a inconsistência e a agressão há apenas um passo.

Boulos, se me permite dizer, primário é o seu texto, que passa por lugares-comuns, clichês, não mostra qualquer base, generaliza, ataca pessoas e não argumentos e se esquiva da auto-crítica e da reflexão. Se há qualquer dúvida quanto isso, releia os dados e os argumentos. Por gentileza, em nome dos fatos esquive-se de atacar a pessoa e o argumentador, lembre-se discute-se ideias, não pessoas.

Alguns dizem que a onda coxinha revela o nascimento de uma nova direita no Brasil. Direita sim, nova nem tanto. São apenas os velhos ranços, preconceitos e indignações seletivas da porção mais conservadora da classe média que encontraram ocasião para sair de algum canto do armário.

Coxinha ser uma nova-direita, realmente é revoltante, pois a direita, assim como a esquerda são 2 esqueletos de fantasmas dos natais passados, e temos de renovar e ir além desses ditames, esquerdistas e direitistas que só servem para atrasar todas as sociedades em que foram implementados. Me assusta os fascismos de esquerda e de direita, a mania de querer controlar o pensamento, as ideias e de impô-las como única expressão civilizatória e ideal. O ponto de que só posso aceitar estar certo e que inevitavelmente qualquer um que pense diferente é tão errado que precisa ser erradicado tem permeado os começos de século de maneira insidiosa e violenta e hoje ela encontra um terreno fértil para se expandir, pois as falácias viralizam, sejam de esquerda ou de direita, não importa, ambas são perniciosas. Precisamos de pluralismo, de opiniões divergentes respeitadas e de uma força inclusiva que não passe pelo Estado, mas pelas instituições democráticas plenas.

Recomenda-se que guarde os fascismos para si. Quando se é racista, misógino e antipopular abertamente, tendo ainda auditórios para aplaudir, é mau sinal. O orgulho coxinha simboliza o emburrecimento do debate público no Brasil.

Aqui você reforça o que disse acima. Que se calem os que não concordam contigo, que se tire suas bocas, cal suas vozes, pois todos são fascistas — eles sim, você não — Aqui temos a falácia de inversão, no começo do seu texto você diz que o coxinha tem orgulho do trabalho e de ser um cidadão do bem e no fim você afirma que pensar assim é ruim para o país, que é fascismo. Pois eu diria, que ao argumentar assim, você notoriamente empobrece o debate, mas ao contrário de você, não exijo que se cale, com certeza, não, em verdade, continue a falar, pois assim podemos debater ideias, não pessoas.

** Fontes:
IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Ministério do Desenvolvimento Social
Banco Central do Brasil (Ministério da Fazenda)
Tesouro Nacional (Ministério da Fazenda)
Secretaria de Assuntos Econômicos da Presidência da República