O Segredo Está Na Cabeça — A Neurociência da Lei da Atração

Alex Alprim
Aug 21, 2015 · 10 min read

Esqueça as explicações sobre conversas com o universo, conexões com esferas especiais, mentalizações com as energias astrais. A Lei da Atração existe, sim, mas pode ser plenamente explicada pela neurociência, de forma clara, racional e, o mais importante, com resultados práticos.

Quase sempre, quando ouvimos alguém explicar a Lei da Atração, o “segredo”, existe uma tendência a utilizar um elaborado jogo de palavras que deixa para o “universo” a resposta para tudo, como se houvesse um mecanismo oculto capaz de apresentar uma resposta alheia aos meios físicos e, assim, livrar o homem das “amarras” da racionalidade e da ciência pura.

Não nego que pode, sim, haver uma existência “universal”, uma deidade que atue de forma subjacente a tudo e que forneça uma forma conceitual a nosso entendimento do mundo e, dessa forma, poderia ser entendida como deus (a). Contudo, a chamada Lei da Atração pode ser explicada a partir do ponto de vista da neurociência, da biologia e da psicologia comportamental. É possível, assim, analisar e descobrir como certas pessoas “atraem” os eventos que vão construir o simulacro que elas tomam como sendo suas vidas — considerando que elas a vêem como sendo imutável e vivem presas numa rede de acontecimentos em ritmo de avalanche, sem chance de reação.Primeiramente, vamos entender, de forma simplificada, como funciona o cérebro humano.

A chamada “massa cinzenta” — que na verdade é rosa –, é uma estrutura absolutamente elástica; pode se adaptar de várias formas a acidentes, impactos, idéias preconcebidas, desejos, maneirismos, vícios, substâncias tóxicas e um sem-número de situações estressantes. Isso se deve a diversas construções orgânicas adquiridas ao longo de milhões de anos de evolução.Desde quando peixes nadavam numa lagoa quente, no período Cambriano, até quando descobrimos o fogo, a mente, e especificamente os neurônios, criaram maneiras de tornar certos comportamentos adquiridos em uma vida de sobrevivência em respostas nervosas que equivalem aos nossos mais primitivos atos. Sob o ponto de vista neurológico, existe pouca diferença químico-elétrica entre correr os 100m rasos e fugir de um cão raivoso (embora, organicamente, sejam áreas distintas do cérebro que fazem uma coisa e outra).

Quando começamos um novo hábito, sempre sentimos uma forte resistência a isso (acordar cedo/fazer dieta/fazer exercícios), porque usamos uma região conhecida como córtex pré-frontal, uma região do cérebro que é usada na chamada memória ativa, um local no qual absorvemos a “nova informação” e a comparamos com outras experiências expressas em nossas outras memórias e, para tanto, intensificamos o uso da consciência.Em termos práticos, isso significa que, para começar a dieta da segunda-feira (vou dar o exemplo das dietas, mas que fique claro que é só um exemplo simplificado e não uma generalização sobre as causas da obesidade ou de seus tratamentos — na dúvida, procure um médico), nosso cérebro precisa analisar que estamos mais “gordos” do que éramos em outra época de nossas vidas, que isso aconteceu porque, antes, nunca fizemos exercícios, e que começamos a comer mais do que o normal. Depois de tudo isso, o cérebro também precisará decidir que sentir fome deve ser aceitável por uns dias.

Como podem ver, não é um processo fácil; implica num gasto de energia muito superior ao que teríamos se, simplesmente, tivéssemos o hábito de comer saudavelmente embutido em nosso comportamento natural (desejo de dez entre dez pessoas que fazem regime).Porém, isso é possível. Existe uma área do cérebro conhecida como gânglios basais. É o local em que nossa mente coloca os comportamentos automáticos, isso é, coisas que fazemos repetidamente até o ponto de quase não termos “consciência” de estarmos fazendo. Naqueles que precisam de dieta, essa área atua no incontrolável ato de acabar com uma caixa de bombons “sem perceber”.

Mas quando o ato de se controlar vai ganhando força, semana após semana — como andar até a padaria em vez de pegar o carro, usar a escada em vez do elevador –, e se torna tão comum quanto ir até a esquina, esses comportamentos acabam se tornando parte da memória de longo prazo nos gânglios basais, e lá, para atuarem, esses comportamentos consomem bem menos energia e se tornam parte de nosso ser, como se nunca houvéssemos agido de outra forma.No entanto, existe um fenômeno mental chamado “detecção de erro”, desenvolvido para ajudar nas atividades de sobrevivência e de caça. Ele ocorre quando o cérebro percebe uma diferença entre a expectativa e a realidade.

Se a pessoa resolve perder 30 quilos por semestre, mas sua atividade somente permite perder 10 quilos, automaticamente toda a energia do cérebro é retirada das regiões que cuidam dos pensamentos de alto nível, do córtex pré-frontal, e é levada para a região do córtex orbital frontal, que está ligada às áreas que ativam o medo no ser humano. Por conseqüência, nossos instintos mais primitivos vêm à tona, e toda nossa capacidade de comparar memórias e tomar atitudes corretas (como vimos no parágrafo anterior) é comprometida.Mas nossas memórias continuam a surgir e a ser comparadas com o erro, só que pelo circuito do medo, da frustração, da raiva.

E surge um problema, pois toda essa força emocional começa a reforçar memórias nos gânglios basais, criando comportamentos automáticos que dizem que o caminho seguido está errado; mas como o pensamento evoluído está bloqueado pelos medos primitivos, a tendência é voltar ao comportamento anterior, que traz a sensação de conforto e, assim, abandonar a dieta, os exercícios e tudo o que vínhamos tentando mudar, fixando a frustração como norma automatizada nos gânglios basais.

Para aprofundar o lado científico de nossa análise, vamos explicar um pouco como funciona a rede eletroquímica que chamamos de pensamento. Sabemos com certeza que os neurônios se comunicam utilizando íons de potássio, sódio e canais de cálcio. Toda informação absorvida, palavra falada, beijo dado, grito de gol, vêm de uma série de trocas neuronais desses três tipos de íons.Sendo trocas iônicas, podemos supor que elas estejam sujeitas às leis da física de partículas, sem esoterismos; a mecânica quântica responde à forma pela qual esses íons se comportam em escala atômica. Assim, podemos dizer que, quando entramos num estado de alegria, de tristeza ou de bem-estar, os neurônios trocam os íons entre si, e estes automaticamente atuam usando as leis do universo físico.

Como aparte, precisamos citar um evento da mecânica quântica conhecido como Efeito do Zeno Quântico, descrito pelo físico George Sudarshan, da Universidade do Texas. Esse evento é, na verdade, uma extensão da famosa questão do paradoxo do observador, tantas vezes explorado nas obras básicas sobre os fenômenos da mecânica quântica [quando se observa uma partícula, a interferência do observador muda a velocidade e a posição dela no espaço, assim como quando “não se observa” a partícula, ela fica num estado de “múltiplas” realidades, podendo assumir um sem-número de posições e velocidades que somente serão definidas no momento da observação].Esse efeito funciona não só com partículas, mas também com íons.

Isso significa que, se “olharmos” vezes seguidas, aumentamos a probabilidade de que as partículas/íons fiquem num estado cada vez mais parecido com as posições iniciais. Analisando um sistema neuronal, podemos dizer que, caso prestemos atenção a determinados assuntos insistentemente ou tentemos manter determinados tipos de pensamento, as conexões dos neurônios funcionam como “observadores” e fazem com que os íons atuem em uníssono numa mesma forma/freqüência, pois as partículas possuem um campo eletromagnético associado ao seu estado quântico.

Sob o ponto de vista prático, podemos afirmar categoricamente que “pensar positivamente” leva os neurônios a “escolher” um determinado estado quântico em seus íons, produzindo uma onda elétrica que, por uma questão de afinidade física, seleciona outros íons em escala cerebral, que se comunicam com outros neurônios, e assim, num efeito cascata, o cérebro fica imerso nesses íons “positivos”.Sob o ponto de vista biológico, isso leva os neurônios que mantêm os canais que levam e trazem informação a se estabelecer num mesmo estado. Os canais transportariam formas semelhantes de íons e, conseqüentemente, dariam respostas semelhantes para um mesmo tipo de estímulo.

Assim, pensar positivamente levaria os canais de informação e os íons a cada vez mais ficar no mesmo estado.É fato conhecido da neurociência que pensar em algo com firmeza e constância nos leva, com o tempo, a tomar esses pensamentos como verdades. A explicação é que esses canais se estabelecem e se formam como um ponto de foco, levando, química e quanticamente, a mente a se estabelecer num novo parâmetro de “pensar”. Contudo, sob o ponto de vista científico, isso não responde como a Lei da Atração atua.

Quando tomamos a iniciativa de pensar positivo, essas idéias começam fazendo parte dos circuitos que gastam mais energia — o córtex pré-frontal –, que estão na área da memória que temos para comparar, analisar nossas experiências anteriores e delas tirar conclusões — conforme explicado no início da matéria.Com o tempo, se “pensarmos positivo” por tempo suficiente, as idéias irão migrar para os gânglios basais e, assim, essas atitudes se tornarão como se fossem automáticas. Tomaremos essas ações como se fossem nossas, de forma que nos sentiremos como se “nunca” houvéssemos “pensado” de outra maneira.

E como o cérebro está imerso num novo estado quântico, podemos supor que isso se reflita em outros “pensamentos” e estados de humor, o que nos leva ao nosso próximo ponto de pesquisa sobre a Lei da Atração. Malcom Gladwell, autor de Blink — A Decisão Num Piscar de Olhos (Ed. Rocco), fez um extenso estudo demonstrando como tomamos nossas decisões em questão de segundos baseados numa simples “primeira impressão”.

É fato conhecido entre os psicólogos e médicos que o cérebro só retém 10% da informação que recebe por todos os meios sensoriais; os 90% restantes são enviados ao subconsciente, ficando abaixo do limiar de detecção consciente das ações externas.No subconsciente, estão atuando as nossas respostas automáticas, nossos impulsos primitivos, selecionados em milênios de darwinismo mental. Em termos biológicos, a cada geração são selecionados os mais aptos a sobreviver. Isso significa que os seres humanos que chegaram vivos até hoje são filhos de seres humanos que, quando foram expostos aos predadores, às traições da natureza e às de seus próprios companheiros (nas lutas tribais), souberam deixar aqueles 90% de informação ser usados pelo inconsciente, ouvindo os instintos, reagindo com rapidez e sobrevivendo para passar essas características a seus descendentes.

Podemos dizer com certeza que os circuitos biológicos sobreviventes na mente dos bilhões de seres humanos modernos foram selecionados entres os mais rápidos de sua espécie, ao longo dos 4,5 milhões de anos de evolução humana. Quando temos uma sensação de que “alguém” não é confiável, existe uma grande chance de que ele realmente não seja. Mas aqui entra outro ponto que vai alinhavar a explicação científica sobre a Lei da Atração.

Vamos imaginar um ser humano chato, reclamador profissional, daqueles que, quando conhecemos, temos vontade de correr na direção oposta; um ser humano que acha que chover não é fenômeno natural, mas uma conspiração internacional das águas de cinco continentes contra o bem-estar dele. Ele insiste que seu time perdeu o campeonato apenas para tornar sua vida miserável. Na verdade, tem “certeza” de que tudo de errado acontece só com ele. E mais, que não tem de ser um cara legal porque, toda vez que tentou ser um cara melhor, ele não foi reconhecido como tal, e ainda, tudo que podia dar errado (obviamente!) deu.

Assim, ele resolve ter um pensamento negativo (tudo dá errado na vida), começa a comparar isso com os fatos de sua vida e começa a ter certeza absoluta de que está certo; afinal, é uma repetição de fatos conhecidos (negativos). Ele está na sua Zona de Conforto; facilmente, esse pensamento passa para os gânglios basais e, em pouco tempo, os canais de íons de seu cérebro estão selecionando íons em estados quânticos semelhantes, criando uma tendência de foco que reflita esse estado negativo.

Como esse ser tende a usar toda informação de forma negativa e comprova isso diariamente comparando suas experiências com os fatos, é razoável supor que exista um hiato entre suas expectativas (de que algo, alguma vez, dê certo) e sua realidade (em que tudo, obviamente, dá errado). Assim, entra em ação o mecanismo de “correção de erro” (assunto de alguns parágrafos anteriores) do cérebro, ligando os canais de medo, acessando a informação dos centros primitivos da mente e desligando os centros de alto nível, impedindo a essa pessoa analisar o rumo que está dando à sua vida.

Colocando em termos simples, ele ignora que está pensando negativo, pois é incapaz de usar sua mente para descobrir isso. Afinal, o córtex pré-frontal foi desligado, e o córtex orbital assumiu o controle da situação.Dessa maneira, mais pensamentos negativos entram no jogo da memória ativa, e mais facilmente se instalam nos gânglios basais, num processo de retroalimentação negativa que, com o tempo, vai gerando mais sentimentos de raiva, medo, desesperança e, por fim, a depressão, colocando mais canais e íons quanticamente escolhidos para vibrar nesse foco, imergindo o cérebro inteiro nesse estado; e isso inclui até o inconsciente/subconsciente.

Tomando como foco o ponto exposto por Malcom Gladwell, temos que, se nossas decisões são em grande parte baseadas em nossas primeiras impressões, é razoável admitir que escolheremos pessoas cujos estados mentais se aproximem do nosso, pessoas nas quais confiaremos por pensarem de maneira igual. Sob o ponto de vista da neurolingüística, muitas vezes o ser humano responde aos comportamentos alheios com uma cópia desses comportamentos, mas uma pessoa que está num estado positivo, vai ficar desconfortável ao agir negativamente — numa resposta neurolingüística a um ser humano negativo –, pois o cérebro tende a apresentar uma forte resistência natural à mudança de estado por influência externa.

Aqui, a correção de erro age positivamente, pois o cérebro compara o lado externo negativo (realidade) com a o lado interno positivo (expectativa), e usa o medo e as emoções primitivas para impedir a mudança de estado positivo para negativo. Por isso temos medo e nos sentimos desconfortáveis diante de pessoas negativas, e tendemos a fugir da convivência delas.

E, por conseqüência, a nos aproximar de pessoas positivas (claro que isso somente funciona se somos positivos em nossas vidas).Assim sendo, sob o ponto de vista da neurociência, a Lei da Atração é fruto de uma seleção de pensamentos, de decidirmos que rumo queremos realmente dar às nossas vidas, escolhendo conscientemente (ou nem tanto) com quem vamos nos relacionar em nosso dia-a-dia, pois isso pode fazer toda a diferença entre atrair boas realizações ou ser alguém que acha que hoje está sendo um dia ruim.

Pessoas que pensam positivamente acabam atraindo pessoas positivas e otimistas que, obviamente, vivem melhor e podem ajudar os outros; e até ajudam, pois estão num estado de bem-estar que lhes permite ter compaixão pelo próximo, amor por outros seres humanos, abrindo-se para conhecer mais pessoas, criando laços de amizade, deixando boas lembranças por onde passam, criando uma rede de boas amizades que terminam por levar quem age assim mais longe nas empresas, na vida, no casamento e na existência, do que aqueles que são negativas.Agora, cabe a você decidir de que lado vai querer ficar e que tipo de dia quer ter.

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