Rico acha que pobreza é “cool”, pobre gosta é de viver bem.

Depois da derrota de Haddad no primeiro turno, em São Paulo, para um “coxinha”, como Dória, o pânico tomou o partido dos trabalhadores, pois pela lógica eleitoral, tudo estava certo para o domínio na Capital.

Afinal o prefeito-gato tinha colocado tudo que o eleitorado da Vila Madalena gosta, e a periferia “nunca” iria deixar o PT na mão e se aliar aos “patrões”, mas o impossível ocorreu e o PT perdeu em quase toda a periferia e de maneira acachapante teve de encarar a realidade e ir para um cantinho pensar no que fez de errado.

Entra em cena os pesquisadores da Fundação Perseu Abramo que resolveram então entender por que, afinal, as regiões mais pobres não votam mais no PT. Foram 63 entrevistas em profundidade, com uma amostra heterogênea da população dos bairros periféricos — aqueles locais da cidade de São Paulo, que os hipsters adoram clamar e declamar frente a um quitute vegano de R$50,00 bebendo cerveja artesanal de mais R$50,00. Mas tirando a periferia de fantasia que esses seres acreditam existir, eis a realidade que a Fundação descobriu:

  1. Para os que moram na periferia, não há luta de classes entre ricos e pobres — ao contrário, há empatia com empresários e patrões;os moradores da periferia sentem admiração pelos empresários e acreditam que se ele mesmo empreender (o pobre), também poderá chegar lá.
  2. O inimigo é o Estado, ineficaz e incompetente — vivem essa experiências diária, com saúde deficiente e agora, depois de elevar os índices educacionais, conseguem ter noção de que não existe “ALMOÇO GRÁTIS”, tudo que é “de graça” na verdade é pago e pior, é de péssima qualidade, sendo assim, consideram o mercado mais confiável;
  3. Há um “liberalismo popular”, com demanda de menos Estado — “se pago impostos, tenho direito de cobrar” e quero ter o poder de decidir o que quero da minha vida e do dinheiro que ganho, e como passaram a valorizar o empreendedorismo, descobriram que o Estado lhes toma 70% do que ganham, e agora sabendo disso, valorizam ainda mais a vida e o suado dinheiro;
  4. Há identificação não com quem pertence ao mesmo grupo, mas com o grupo a que se almeja chegar;
  5. A ascensão social está associada à coragem, ousadia, disciplina, mas acima de tudo ao mérito (meritocracia);
  6. Estudar é fundamental para subir na vida;
  7. O empreendedorismo é a aspiração de quem quer vencer pelas próprias forças;
  8. Há um desejo por bens de consumo e, entre os jovens, marcas de status;
  9. Há mais individualismo que solidariedade, se tornaram conscientes de que há os que trabalham e os que vivem de não fazer nada, se sustentando apenas da ajuda estatal e isso causa desconforto e revolta;
  10. Religião e família são o centro da vida;
  11. A igreja é vista como instituição de apoio para evitar o caminho do desemprego e do crime;
  12. A vinculação entre política e religião é mal vista;
  13. A política é suja e gera desconforto, mas influencia a vida — dos serviços públicos aos impostos altos;
  14. A corrupção é o principal problema do país, de onde derivam os demais;
  15. Não há lógica no uso de termos como “esquerda” ou “direita”, nem polarização — todos os partidos são iguais.

Ao final, o estudo resume suas conclusões na seguinte frase:

“Este cenário de descrédito da política, compreensão do Estado como máquina ineficaz somada à valorização da lógica de mercado e à ideologia do mérito abrem espaços para candidatos e projetos como o do João Doria ‘um não-político, gestor trabalhador que ascendeu e, por isso, não vai roubar’.”