Žižek estava errado

Žižek errou grosseiramente quando viu em Trump o “mal menor”, simplesmente porque, supostamente, representaria esperança de mudança — qualquer mudança, ainda que na direção do caos. Volta e meia a gente se depara com essa fantasia de que uma situação limite nos conduzirá à revolta, à “revolução”. A gente pira na crise como oportunidade, na janeira do kairós. Mas às vezes desconfio que gente subestima a própria capacidade de viver nos limites do intolerável, tanto quanto o caráter fluido — líquido, diriam alguns — desses limites. Sobretudo quando os liberais de “esquerda” e de “direita”, os social-democratas de terceira via, podem emitir suas opiniões sensatas em segurança, bem longe da fronteira do intolerável. Até porque é pra eles, ou melhor, pra gente que as coisas estão organizadas dessa maneira. Pra gente, que tem voz, faz barulho, cria hashtag. Pra maioria que vive do lado de lá da fronteira e tenta sobreviver no seio do intolerável, esse vozerio não diz muita coisa. Tomavam bomba do Obama, tomam bomba do Trump. Os EUA existe pela guerra e para a guerra.

Obama, vá lá, era mais “limpinho”, mais “humano” — com seus Drones. Mas abusou dos bombardeios tanto quanto dos sorrisos. É que, sem guerra, os títulos da dívida americana deixam de ser seguros, perdem solidez. E aí não dá. Vai que a China resolve parar de financiar a dúvida pública americana? A propósito, repararam que toda bravata anti-China da campanha Trump já começa a desabar frente à parceria militar que se insinua nessa “crise” com a Coréia do Norte?

Nenhum presidente parece ter muita escolha. A alternativa à guerra sem fim parece ser mesmo a aniquilação, o botão vermelho, o amor à bomba. Žižek, desconfio, é desses: ama a bomba. Fantasia com o fim do mundo, dança com Stalin à luz do luar. (Não por acaso sua releitura da Antígona redunda numa ode ao suicídio). Mas esse sentimento, me parece, não é exclusividade dele. Tem muita gente desejando um suicídio coletivo, clamando pelo meteoro, orando pro Cthulhu — e listando bem mais de 13 razões para.

Só que Trump não é o Cthulhu. Assim como Obama was a just a fake hope e, como presidente, provou que, no, we can’t não fazer guerra. E Obama fez. Fora, contra árabes, dentro, contra pretos. Trump se opôs à Guerra do Iraque quando era apenas um aprendiz. Como presidente, não tem mais esse direito. A máquina — Clockwork Orange — não pode parar. A alternância de poder nos EUA funciona como um relógio, tique-taque, tique-taque, tique-taque: Democratas lubrificam as engrenagens, Republicanos colocam-nas para funcionar a todo vapor. Fazem par nessa dança da morte. E todos parecem dançar com Putin. E nada do que a gente disser sobre isso agora vai fazer a menor diferença.