15 notas sobre violência e medo
A maioria de nós é incapaz de matar alguém assim, olho no olho. Não matamos nem os bois que comemos. O cidadão de bem paga os seus impostos pra não ter que sujar as mãos. A pusilanimidade é um traço da civilização.
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1. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, ainda. A vida-branca vale mais. Mais ainda a vida-branca-zona-sul. Mais ainda a vida-rica. Não é certo. Não é justo. Mas é assim que é. Ainda.
2. É mais cidadão quem pertence à parte da cidade que concentra maior poder de consumo — o que inclui o consumo de outras vidas: a do lixeiro, a da empregada, a do faxineiro.
3. A mídia não apela para a nossa razão quando dedica suas capas e sua a escalada nos telejornais à violência: fala às nossas vísceras.
4. É com as vísceras que se vota nos Bolsonaros da vida. Eles encarnam certo desejo de vingança: se alimentam de nosso medo.
5. Mas não é o consumidor modelo que majoritariamente vota em Bolsonaro (é bruto demais): são os que aspiram a essa condição (mas “nunca serão”).
A mídia dá forma ao nosso medo: dá rosto. Em geral, um rosto escuro; eventualmente, louco: transtornado.
6. Ferrez, em entrevista ao El País: “Quando o cara diz que tem que fazer e acontecer, daqui a dois meses morre um moleque assassinado na periferia, porque essa conversa vai chegar em alguém que vai tomar uma atitude. O dono do comércio pressiona, o político pressiona, o policial vai lá e executa. Todo mundo pressiona, porque as palavras têm poder. Os julgamentos são da boca pra fora, porque as pessoas são guiadas pela mídia.Você vê em pesquisa: 80% das pessoas querem a redução da maioridade penal. Claro. O cara assiste a quatro horas de Datena […] por dia. Eu também iria querer. Por exemplo, o cara vem do Nordeste pra cá sofrendo, apanhando do pai com vara. Chega aqui, trabalha, sofre pra caramba pra ter alguma coisa, quando alguém rouba ele, ele acha que esse cara tem que morrer mesmo. Esse foi o tratamento que ele recebeu a vida toda. Aí quando vem um cara que defende isso é candidato, ele vai votar nesse cara mesmo”.
7. A mídia dá forma ao nosso medo: dá rosto. Em geral, um rosto escuro; eventualmente, louco: transtornado.
8. Do documentário de Charlie Brooker, How TV Ruined Your Life: “A televisão pode condicioná-lo a ter medo de todo tipo de coisas. Por exemplo, becos escuros. A maioria dos becos escuros da cidade que você vê está na TV. E o que eles escondem? Geralmente alguma coisa terrível, como um assaltante ou um assassino, ou uma besta, um terrível intercurso sexual envolvendo um mendigo e um buldogue, se você estiver assistindo a um canal alemão. Em 1970, os professores George Gerbner e Larry Gross, da Universidade da Pensilvânia, realizaram uma pesquisa pioneira sobre o efeito da televisão nos espectadores. Eles acreditavam que em poucas décadas, a televisão tinha conquistado um nível de influência na sociedade que era comparável ao poder que a religião exercera sobre humanidade ao longo dos séculos. Gerbner e Gross desenvolveram uma hipótese conhecida como Teoria do Cultivo. Ela diz que ao longo do tempo, assistir televisão altera a percepção que os espectadores têm da realidade. Que a visão que eles têm do mundo começa a andar pari passu com aquela veiculada pela televisão. Quanto mais frequentemente uma imagem ou evento é reproduzida na tela, maior a importância atribuída a ela pelo espectador no mundo real. Uma vez que a maior parte da programação televisiva é feita de conflitos dramáticos, ações violentas e coberturas jornalísticas alarmantes, quando mais você assiste, mais passivo, nervoso e assustado você se torna. Gerbner chamava isso de “Síndrome do Mundo Vil”. Literalmente, a crença de que nosso mundo se tornou um lugar essencialmente vil e assustador. Sua pesquisa surgiu pra mostrar que os espectadores que mais assistem TV frequentemente superestimam os riscos encarados na vida cotidiana. Eles estão mais inclinados a acreditar que as taxas de crime estão subindo, mesmo quando elas estão caindo e frequentemente acreditam estar mais sujeitos a se tornarem vítimas de crimes violentos”.
Queremos a polícia no papel de carrasco. Não basta prender: tem que bater, maltratar, apavorar: fazê-los sentir um medo que é nosso.
9. O Abutre. O protagonista sociopata Lou, aprende com a editora do telejornal, Nina, o que é notícia: “Nós gostamos de crime. Não todo tipo de crime. Um roubo de carro em [insira sua periferia aqui], por exemplo, não é mais novidade, né? Nós acreditamos que nossos espectadores estão mais interessados nos crimes urbanos que chegam aos bairros residenciais. O que significa que as vítimas são preferencialmente bem de vida e/ou brancos, feridos nas mãos de um pobre ou de uma minoria”.
10. O medo influencia nosso voto. Vem dele nosso desejo de vingança: nosso desejo de matar — com requintes de crueldade. Queremos ver nos olhos do bandido a expressão de um medo que é nosso (vibrar com os bandidos em fuga na ocupação do Complexo do Alemão): a vingança é um prato que se come frio diante da TV.
11. Queremos alguém que mate por nós. Ou, no máximo, juntar-se à horda num linchamento: queremos compartilhar a culpa. A maioria de nós é incapaz de matar alguém assim, olho no olho. Não matamos nem os bois que comemos. O cidadão de bem paga os seus impostos pra não ter que sujar as mãos. A pusilanimidade é um traço da civilização.
12. Queremos a polícia no papel de carrasco. Não basta prender: tem que bater, maltratar, apavorar: fazê-los sentir um medo que é nosso.
13. O medo justifica o acirramento do apartheid.
14. Hélio Luz, no documentário Notícias de uma Guerra Particular: “Como é que você mantém 2 milhões de pessoas sob controle? Ganhando 112 reais, quando ganham… Como mantém esses excluídos todos sob controle? Com repressão, como é que vai manter? É polícia política mesmo. Isso aqui é uma sociedade injusta e nós garantimos essa sociedade injusta.”
15. O futuro das metrópoles será feito de catracas, cancelas e drones. O direito de ir e vir estará condicionado à vigilância.