A ARMADILHA DO AMOR SEM ESCALAS

Existe um mecanismo nas discussões públicas que resolvi batizar — de modo absolutamente personalista — de A Armadilha do Amor Sem Escalas. A escolha é arbitrária, baseada exclusivamente numa experiência pessoal.
Aconteceu assim. Bêbado entre bêbados, me vi certa vez enredado num papo sobre cinema quando, de repente, Amor sem Escalas veio à baila. Não lembro, confesso, como surgiu, quem citou, mas o fato é que a única pessoa no grupo nutria alguma simpatia pelo filme era eu. Isso causou certa indignação nas pessoas. Comecei a defender, a princípio timidamente, o filmete. Mas à medida que os ataques se intensificavam, tornava-se uma questão de honra, para mim, obrigar as pessoas a ver o que eu tinha visto. E o que eu tinha visto nem era lá grande coisa. Não fazia do filme uma obra-prima. Mas quanto mais eu falava, quanto mais eu argumentava, quanto mais eu me esforçava em acrobacias retóricas a fim de persuadir os presentes de um ou outro mérito do filme, mais obstinado eu parecia. E quanto mais obstinado eu parecia, mais certeza as pessoas tinham de que eu só estava falando aquilo porque era um fanático. Não era. Mas, ao cair nessa armadilha, virei um. Porque esse tipo de rótulo não é autodeclaratório. Por mais que você diga, insista, jure de pés juntos para os seus interlocutores que é isto ou aquilo, quem dá o veredicto são eles. É o grupo que decide se você é ou não fanático. Parece cruel, eu sei, mas essa é, de modo geral, a dinâmica dos grupos.
Tô dizendo isso porque acho que a Armadilha do Amor Sem Escalas está espalhada por todos os cantos hoje em dia (se é que não esteve desde que o mundo é mundo). Meu conselho é, se você se perceber um dia nessa situação, aja com prudência. Porque, eventualmente, você vai cair na armadilha. Pela minha experiência — que não é vasta, nem necessariamente confiável, mas é a que tenho — quanto mais você se debate e tenta escapar, mais a armadilha aperta. Se rolar isso, tente respirar e repensar sua postura. Notem que não falo em procurar novos argumentos, novas estratégias discursivas de persuasão: falo em mudar de postura.
Não existe uma atitude adequada a adotar. Você vai precisar ter em conta os seus interlocutores, o tom geral do debate, o lugar — ou a ferramenta de rede social — na qual vocês estão discutindo. Tudo, nesse momento, importa. E o resultado de sua intervenção vai ser tão mais bem sucedida quanto mais informações você conseguir ter em conta nesse momento decisivo. Mas os dados mais importantes para essa avaliação estarão em você. Fique atento para o seu estado de espírito. Está com raiva? Que motivos o levam a insistir nesse assunto? O que, nessa discussão, está além da vaidade para você? Saiba fazer essa distinção. Ela é fundamental para que você consiga deixar claro, ao abandonar a discussão, que não abandona com ela as coisas que são realmente significativas para você. Lembre-se: estamos falando aqui de discussões em que você se vê defendendo algo com o qual concorda apenas em parte, nas quais você está saindo em defesa de uma ideia, de uma obra ou de um autor em relação aos quais você mesmo guarda algumas — ou muitas, o que é pior — reservas. Escapar da Armadilha do Amor Sem Escalas significa poder tratar do assunto sem fazer dele questão de honra. No fundo, você não quer que sua honra esteja associada a esse tipo de coisa, quer?
Acredito que se você conseguir levar isso tudo em conta, quando se encontrar nesse tipo de situação, são boas as chances de que consiga escapar da armadilha e, ainda, dar umas boas risadas com os demais envolvidos. É possível que consiga ouvir melhor os outros também. E talvez descubra coisas fascinantes. É que nesse tipo de discussão, não raro, as pessoas tendem a revelar os mecanismos de sua sensibilidade: elementos daquilo que os toca, que os move. Numa discussão do tipo Amor Sem Escalas, não raro, Amor sem Escalas é o que menos importa. Se você conseguir descobrir no meio disso o que está realmente em jogo pra você e pros demais, sairá da armadilha como uma pessoa, se não melhor, pelo menos mais consciente das próprias inquietações e mais capaz de empatia.
Isso é tudo que tenho a dizer sobre a Armadilha do Amor sem Escalas. Antes de concluir, no entanto, é importante deixar claro que nada disso se aplica às coisas em relação às quais você tem a mais absoluta convicção. Nesses casos, o antagonismo, a briga, o conflito é inevitável. Vai ter guerra. O máximo que você pode conseguir, nesse tipo de situação, é um armistício, uma trégua. Mas essa é uma outra discussão. Aqui estamos falando de uma armadilha muito específica: A Armadilha do Amor Sem Escalas. E é sobre ela — e nenhuma outra — que me sinto à vontade para falar neste texto.
Sobre esse assunto, enfim, esses são os conselhos que vos deixo. Sintam-se à vontade para ignorá-los, ou usem com moderação.