A dinâmica das evidências

Uma música para uma geração.

Ontem, ao ver a notícia sobre poder contagiante de Evidências num vagão de metrô de São Paulo, tive uma epifania. De repente, foi como se tudo que tem acontecido no país nos últimos anos pudesse ser explicado por essa música, que, de um jeito torto, revela o fundamento afetivo da brasilidade classe média. Como se o que melhor explicasse nosso jeitinho de estar no mundo fosse uma certa latinidade enrustida, envergonhada, que só sai do armário na embriagues, nos transes coletivos em grande escala, propiciados, por exemplo, pela Copa do Mundo ou, na microescala, quanto toca evidências no final de uma festa. É nessa hora que a brasilidade classe média se revela em toda sua breguice.

Aliás, toda história do brega e do sertanejo, os ritmos do Brasil profundo, quanto de parte significativa do samba do pagode, poderiam ser sintetizados no nome conferido a um ritmo relativamente recente: a sofrência. Dá pra recontar a história do Brasil a partir da sofrência. É como se, na base de nossa personalidade, estivesse uma dor de corno. Um amor não correspondido, uma traição, uma mágoa que a gente, do brasil classe média, tenta esconder, negando as aparências e disfarçando as evidências. Daí o efeito catártico dessa música de Chitãozinho e Xororó, que só se tornou realmente popular quando virou camp, quando foi resgatada do brega pelo consumo irônico da classe média universitária. Porque o consumo irônico é que nos permite performar, em público, coletivamente, uma dor que só experimentamos privadamente, mas não sabemos explicar de onde vem. Uma dor de corno metafísica.

É na cornitude compartilhada que todos os bêbados se abraçam, no final da festa. É ali que todos se reconhecem traídos. No micro e no macro. Traídos pela distância abissal entre expectativa e realidade em nossas vidinhas. Mas traídos, também, pelo ideal de país. Pelo país do futuro, que sempre escapa. Um país que promete berço esplêndido, pátria amada, idolatrada que nos ilude com milhões de promessas, com o sonho de um Brasil Grande – eternamente frustrado. Um Brasil que, quando a gente diz que deixou de amar, é porque ama. Que quando a gente diz que não quer mais, é porque quer.

A Dinâmica das Evidências parece valer pro micro, pro macro e pro que está entre as duas coisas: as adesões político-partidárias. Coxinhas e petralhas, ambos de classe média, nos últimos anos, vivem também de negar as aparências e disfarçar as evidências. Cada um abraçado aos seus objetos de amor, sem reconhecer que, na dor, ambos se encontram. Todos traídos por suas escolhas amorosas, sentindo o chão ruir sob seus pés, enquanto mantém os olhos fitos num ideal romântico.

Poderia ser Entre Tapas e Beijos, nossa música, mas essa tem uma latinidade mais explícita: é passional, agressiva, bruta, almodovariana. Entre Tapas e Beijos é Brasil profundo, aquele pro qual a gente, do brasil classe média, torce o nariz. Não que a gente não seja tudo isso. Mas a gente tem vergonha. A gente é Padrão Globo. A gente é novela, mas não mexicana. A gente se esforça para não ser descontrolado (mas é). A gente não quer ser deselegante (mas é). A gente não quer perder a pose (mas perde). É só em ocasiões específicas que a gente deixa essa faceta vir à tona. Só em ambientes controladamente descontrolados. Só envolvido pelo abraço dos nossos, quando toca Evidências. Aí, sim, a gente finge que perde o medo, mas, tal qual o poeta, finge tão completamente que dá o coração. O coração, o abraço, o beijo, as declarações de amor. Ao som de Evidências, coxinhas e petralhas se abraçam, Flas e Flus confraternizam. Ao som de Evidências, todo brasileiro é homem cordial.

Evidências é nosso purgante, nossa sangria, nosso vômito de bile negra. Depois dela, podemos voltar pra casa, renovados, prontos pra encarar de novo e ajudar a construir a vida merda que tanto nos faz sofrer e, no entanto, amamos.