Donald Strangelove

Ou como eles pararam de se preocupar e aprenderam a amar a bomba.

Saca Doutor Fantástico? Então, volta e meia, olhar para a política americana (ou, de modo geral, a vida corporativa, institucional, a “vida muderna”, enfim) me faz lembrar desse filme. E me faz lembrar de como o maior ameaça à vida na terra talvez venha mesmo da idiotice. O pai de uma amiga minha minha costuma repetir uma frase que parece ressoar naquele personagem paranoico do General (Jack D.) Ripper — aquele que, no filme, surta e desencadeia aquela loucura toda — o M.A.D.: “A burrice é pior do que a maldade”.

E aqui, por favor, compreendam a burrice num sentido lato, pensem-na como esse comportamento autodestrutivo que leva as pessoas a votarem numa figura como a de Trump (ou desencadear uma guerra nuclear), certos de que estão tomando a decisão correta. Convictos de que isso vai ser o melhor para elas e para suas famílias. Figuras como Trump (ou o General Ripper) colocam toda sensatez à sua volta em suspenso: a loucura deles leva todo mundo a reboque. Em meio à grita, todo chamado à razão parece inútil. Até porque parece muito difícil interromper o movimento desencadeado por eles. É uma onda. Die welle. É essa a sensação que tenho, hoje, quando olho pro Trump. O código já foi enviado. Deram início ao mecanismo do doomsday. Ainda que Trump não ganhe, ele me parece o ápice de um processo. Algo fermentado mundialmente, que só agora emerge de forma mais explícita no seio do Império.

Penso, agora, em como o Hayek culpava as ideias social-democratas — e a planificação das economias — por terem preparado o terreno para a ascensão do nazismo. Pois é, Hayek, olha o Trump aí, brotando na (suposta) terra do livre mercado e defendendo o fechamento das fronteiras, o protecionismo. Não seria o “fenômeno” Trump, em grande medida, fruto desse modelo econômico que levou à crise de 2008? Não se alimentaria ele do medo das famílias que perderam suas casas, que veem os os empregos desaparecerem e, não raro, são incapazes de relacionar esse fenômeno à complexidade da economia em tempos de mercado globalizado?

Lia ontem mesmo que, pela primeira vez em anos, os trabalhadores sindicalizados mostram simpatia por um candidato republicano. É que, possivelmente, pela primeira vez em anos, um republicano fala em gerar emprego, proteger a indústria nacional. E, de quebra, dá vazão ao ódio contido pelo outro, sejam esse outro muçulmano ou mexicano (ou, eventualmente, mulher). São eles, esses outros, a encarnação do mal. Os responsáveis por todos os fracassos pessoais. Os culpados. E Trump promete se livrar deles. Com muros, com balas imersas em sangue de porco (ou com o fim da “ditadura do politicamente correto).

Hoje o Guga Chacra, o comentarista de política internacional, falou sobre Trump em sua coluna do Estadão:

“É inacreditável, mas Trump pode ser o escolhido do Partido Republicano mesmo sem ter o apoio de nenhum governador, senador ou deputado republicano. Sem ter o apoio da Fox News, a rede de TV mais associada aos republicanos. Sem ter o apoio do Wall Street Journal, principal jornal com ideologia mais próxima dos republicanos. Sem ter o apoio e sendo duramente criticado pela National Review, mais tradicional publicação conservadora dos EUA. Sem ter o apoio dos ultra bilionários Koch Brothers (30 vezes mais ricos do que Trump), mais importantes doadores dos republicanos. Sem ter o apoio de estrelas conservadoras, como Glenn Beck. Sem ter o apoio do Tea Party. Sem ter o apoio dos libertários. Sem ter o apoio dos Rockefeller Republicans. Sem defender o livre o mercado, adotando uma política protecionista, contra as tradições republicanas. Sem ser religioso”.

YOU BETTER BELIEVE IT

Inacreditável. Tenho certeza de que Trump não é o único que recorre a essa palavra para se referir a Trump. Somos tão céticos, nós, “os mudernos”. Com nossos monóculos no rosto, olhamos estupefatos para certos fenômenos, que consideramos “excrescências”, “barbarismos”, “atavismos”, ou seja lá que palavra melhor usemos para nos referir ao que precisamos lutar, muitas vezes, para não resumir a vestígios de um passado que acreditávamos superado pelo desenvolvimento da “civilização”.

A New York Review of Books recuperou, muito oportunamente, um texto de Umberto Eco, no qual o gênio italiano caracterizava o que entendia por Ur-Fascismo, ou o Fascismo Eterno. O que há de comum entre os fascismo de ontem, de hoje e de sempre. Como reconhecer um devir fascista? Como identificar o momento em que os microfascismos do nosso dia-a-dia coalescem nas câmaras de gás, no holocaustos ou nos paredões?

Eco elenca uma série de signos fascistas. O texto todo merece ser lido e relido, mas destaco aqui um trecho:

“O Ur-fascismo está baseado em populismo seletivo, um populismo qualitativo, por assim dizer. Numa democracia, os cidadãos têm direitos individuais, mas os cidadãos em seu conjunto têm um impacto político apenas de um ponto de vista quantitativo — cada acata a decisão da maioria. Para o Ur-fascismo, porém, indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos, e o Povo é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que expressa a Vontade Geral (…) Há em nosso futuro um populismo da TV ou da Internet, no qual a resposta emocional de um de um seleto grupo de cidadãos pode ser apresentado e aceito como A Voz do Povo”.

Notem que, por um lado, podemos pensar no populismo Fox News, do qual se serviu George Bush para fazer a opinião pública embarcar na paranoia da “Guerra do Terror”. Por outro, podemos pensar em Trump como resultado de um populismo de Internet. Podemos interpretá-lo, de certo modo, como a materialização do troll no cenário político. Trump faz do “comentarista de Portal” a “Voz do Povo”.

O historiador Tony Judt comentou, poucos anos antes de morrer, a experiência de falar sobre o romance Mente Cativa, do polonês Czeslaw Milosz, para seus alunos norte-americanos. Mente Cativa é “(…) um relato sobre a atração de intelectuais pelo stalinismo e, em termos mais gerais, sobre a atração que a autoridade e o autoritarismo exercem sobre a intelligentsia” . A partir do livro, Judt procurava estabelecer paralelos com o contexto das democracias contemporâneas, pois enxergava nas tentativas de reedição da Guerra Fria — na cruzada do ocidente contra o “islamofascismo”, na “guerra ao terror — um cativeiro mental que remetia ao livro de Milosz. Mas o perigo maior, apontava ele em 2011, estava em outro lugar:

O verdadeiro cativeiro mental de nosso tempo se encontra em outra parte. Nossa fé contemporânea no “mercado” segue rigorosamente os passos de seu duplo do século XIX, a crença inquestionável na necessidade, no progresso e na História. (…) Ele tem seus crentes verdadeiros — pensadores medíocres, em comparação com os pais fundadores, mas não obstante influentes; seus companheiros de viagem — que podem, em particular, pôr em dúvida os postulados do dogma, mas não veem alternativa senão apregoá-lo; e suas vítimas, muitas das quais, nos Estados Unidos em especial, engoliram sua pílula com submissão e proclamam as virtudes de uma doutrina cujos benefícios jamais verão.

Embarcando na imagem sugerida por Judt: talvez as vítimas que há anos engolem a pílula da submissão e se conformam às regras absolutas do mercado, nos Estados Unidos, estejam hoje apresentando os primeiros sinais de efeitos colaterais. Talvez a crise de 2008 tenha tenha emitido um sinal de alerta. Talvez o voto em Obama não tenha trazido a “mudança” com a qual tanta gente sonhava. Com sua esperança frustrada por Obama, a América parece querer apostar agora no medo que inspira a figura de Trump.

Ainda que não vença, Trump tem algo a dizer. Algo que parece estar menos na nos discursos que ele profere do no que tem a dizer o impacto desses absurdos no imaginário do americano. Dito de outro modo: não de trata de compreender o efeito de Trump nas pessoas, mas em que medida Trump é um resultado, uma resposta, ao estado de espírito das pessoas — e como esse estado de espírito reflete um estado de coisas, das quais os políticos do dito “establishment” parecem pouquíssimo interessados em falar.

Apparently, the people are mad as hell.

PS: O Chonsky também andou dizendo umas coisas nessa direção que tentei apontar aqui.