História velhinha, né?

O economista húngaro Karl Polanyi foi um crítico das ideias de Hayek, papa do neoliberalismo que influenciou a Escola de Chicago e, com um empurrãozinho Estado — porque estado mínimo, no dos outros, é refresco — fez-se dogma na macroeconomia ocidental dos anos 80 pra cá.

Em 1944, Polanyi defendia que: “Numa sociedade complexa (…), o significado da liberdade se torna tão contraditório e tão frágil quanto são estimulantes suas injunções a agir. Há, observou ele, dois tipos de liberdade, um bom e outro ruim. Entre estes últimos, ele inclui ‘a liberdade de explorar o semelhante ou a liberdade de obter ganhos extraordinários sem prestar serviço comensurável à comunidade, a liberdade de impedir que as invenções tecnológicas sejam usadas para o benefício público ou a liberdade de obter lucros de calamidades públicas secretamente planejadas para vantagens privadas’”.

Para ele, ainda: “(…) a economia de mercado em que essas liberdades florescem, também produziu liberdades que valorizamos muito. Liberdade de consciência, liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de associação, liberdade de escolher o próprio emprego”. Polanyi acreditava que seria possível preservar as boas liberdades suscitadas pela economia de mercado, desde que superássemos o “obstáculo moral” do utopismo liberal, encarnado por Hayek: “O planejamento e o controle estão sendo atacados como a negação da liberdade. O livre empreendimento e a propriedade privada são declarados vitais para a liberdade. Afirma-se que nenhuma sociedade com Fundamentos que não este merece ser considerada livre; a liberdade que a regulação cria é denunciada como não liberdade; a justiça, a liberdade e o bem-estar que oferece são reduzidos a camuflagem da escravidão”.

“A ideia de liberdade ‘degenera assim em mera defesa do livre empreendimento’, o que significa ‘a plenitude da liberdade para aqueles que não precisam de melhoria em sua renda, seu tempo livre e sua segurança, e um mero verniz de liberdade para o povo, que pode tentar em vão usar seus direitos democráticos para proteger-se do poder dos que detêm a propriedade’. Mas se, como é sempre o caso, ‘não é possível sociedade sem poder e compulsão, nem um mundo em que a força não tenha função’, a única maneira de manter essa visão utópica liberal está na força, na violência e no autoritarismo. Para Polanyi, o utopismo liberal ou neoliberal está fadado à frustração pelo autoritarismo ou mesmo pelo fascismo declarado. Perdem-se as boas liberdades e as más assumem o controle”.

[De Neoliberalismo, história e implicações, de David Harvey]