Nem tão mad assim
Há vida no deserto. Nem tudo é sobrevivência. Mas essa vida se apresenta onde a gente menos espera. Se apresenta no meio do caminho. E a uma velocidade infinita.
Quando vi o primeiro trailer de Mad Max — Estrada da Fúria, há mais de seis meses, as únicas imagens próximas da impressão tive vieram de jogos de videogame como Motor Storm, Twisted Metal, de modo mais nostálgico, Rock’n’Roll Racing. Esse filme vai ser uma bomba, pensei. Mas decidi que queria ver mesmo assim, numa vibe meio saudosista.
Vi o primeiro Mad Max numa sessão de Cinema em Casa, no SBT, em meados dos anos 90. Lembro até hoje de como o filme me causou estranheza e fascínio ao mesmo tempo. Lembro menos das cenas de violência e mais de uma atmosfera de violência onipresente.
No primeiro Mad Max, de 1979, o jovem protagonista de Mel Gibson era um projeto de herói. O melhor policial do departamento. Dono do carro mais veloz e da jaqueta mais estilosa. Diante da morte trágica de um amigo, vítima dos “nômades da estrada”, uma gangue de motociclistas que aterroriza a cidade só por diversão (bikers jus wanna have fun), nosso protótipo de herói decide abandonar a polícia e mudar pra uma vizinhança pacata, com sua família. Sabe que se continuar nas ruas será cada vez mais difícil traçar a linha que o separa dos vilões. Max, que ainda não é completamente Mad, recusa o papel de herói. Mas quando a gangue reaparece para botar o terror na vida dele, matando sua mulher, ele aceita o papel de cowboy fora da lei e vai em busca de justiça, montado no “último dos V8” e munido de uma escopeta.
Em Mad Max 2 temos um salto. O mundo agonizante do primeiro filme morreu rapidamente. O que temos é uma terra devastada, um mundo pós-petróleo e guerra atômica. Já naquela época, nosso herói, pero no mucho, se encontrava entre o passado de traumas e um futuro ameaçador, espremido num presente hostil onde o único objetivo era sobreviver até o próximo posto de gasolina. É esse o ponto de partida de Estrada da Fúria. É assim que encontramos Max, o louco. Mas, ao contrário dos primeiros filmes da série, onde se mantinha ainda certa aura de heroísmo, este Max que encontramos agora, se assume, de imediato, como um sobrevivente. O herói, aqui, não está dado. Se resta algum vestígio dele nesse mundo em ruínas, nesse deserto, trata-se de algo a ser redescoberto (ou recriado). Mas não há, na certa, um caminho. Tudo que temos são encontros. O sobrevivente que cruza o caminho da fugitiva furiosa. O do guerreiro alucinado que só encontra seu Valhalla depois do tropeço e da humilhação.
Há vida no deserto. Nem tudo é sobrevivência. Mas essa vida se apresenta onde a gente menos espera. Se apresenta no meio do caminho. E a uma velocidade infinita.
Essa vida não está no culto dos motores, no Deus V8 louvado pela seita pós-apocalíptica do Immortan Joe — um um híbrido decrépito de corpo envelhecido e máquinas enferrujadas que pode remeter tanto a Darth Vader quanto ao Bane, de Batman (para delírio da nerdaiada), mas sempre como caricatura.
Não está a vida, tampouco, na terra prometida que motiva a fuga da imperatriz Furiosa, personagem de Charlize Theron. Está ali mesmo, debaixo do nariz de todos, sob o império de testosterona criado pelo Immortan.
Não há fuga, nem pro Vale Verde, nem para outros planetas, tampouco para o Valhalla. Isto aqui é tudo que temos. E se queremos que exista alguma vida, precisamos assumir a direção de nossa máquina de guerra
Diferentemente Interestelar, outro filme recente com temática pós-apocalíptica e tempestades de areia (pensando também agora na tempestade de areia de American Sniper e em como essa parece estar sendo uma metáfora recorrente para remeter à desorientação presente), se há redenção, ela deve ser buscada aqui mesmo, no deserto. Não há fuga, nem pro Vale Verde, nem para outros planetas, tampouco para o Valhalla. Isto aqui é tudo que temos. E se queremos que exista alguma vida, precisamos assumir a direção de nossa máquina de guerra: a estrada da fúria é uma desterritorialização e nela outros processos de reterritolizalização serão engendrados: ninguém volta igual depois de correr no deserto e sobreviver aos seus perigos.
Estrada da Fúria confirmou minha expectativa e se parece muito com um videogame projetado numa tela gigantesca. Mas é dessa linguagem gasta, das ruínas do clichê, que George Miller extrai a potencia crítica do filme. O diretor faz pastiche da própria obra e, de certo modo, critica um certo infantilismo de seu público, os cultuadores de Mad Max, com seu imaginário povoado de machos loucos por carros. Um mundo de mortes gloriosas, mulheres troféus e muito rock’n’roll. Zomba de como seria um mundo que refletisse os sonhos molhados de um fã do Slipknot. Ou de um soldado do Estado Islâmico.
Ao contrário de seus fãs, que parecem viver num futuro do passado (em suas referências estéticas, Estrada da Fúria continua o futuro distópico dos anos 80, engendrado no primeiro Mad Max), Miller amadureceu. E parece saber que a crítica que estava presente desde o primeiro Mad Max, nunca foi muito bem assimilada. Mad Max nunca foi herói. O mundo dos motores era, desde aquela época, um mundo de destruição. Mas ninguém ouviu a crítica, que parece ter sido abafada pelo ronco do V8.
Quem matou o mundo?, perguntam incessantemente as rebeldes na estrada da fúria. Essa pergunta repetida em letras garrafais parece endereçada ao fanáticos. E os fanáticos ainda somos nós.