Notas sobre a matéria da Consuelo Dieguez sobre o BNDES na Piauí

Algumas coisas me chamaram atenção na matéria da Consuelo Dieguez sobre o BNDES, na última edição da Piauí. A primeira é que na fala dos empregados do Banco entrevistados, as operações da instituição são defendidas com paixão e descritas como lucrativas e de baixo risco. Há uma elogio do critério técnico das decisões. É possível que muita gente torça o nariz aí, dizendo que isso é papo-furado, que é tudo aparelhamento, etc. Eu acho tem mais a ganhar quando considera outras nuances. Que me chamem de ingênuo, mas acredito na boa-fé e na competência técnica dos empregados do BNDES. Acredito quando um deles diz que

Cada solicitação de investimento, (…) afirma [Cláudio Leal, um técnico com vinte anos de carreira na instituição], é submetida a uma análise profunda. Cada projeto é analisado por cinquenta pessoas. Depois disso, mais dez técnicos emitem um parecer sobre a análise de crédito. Em seguida, as avaliações seguem para um comitê de enquadramento até chegar à diretoria. “Você acha que há algum risco de uma equipe tão grande de pessoas aprovar um empréstimo que seria prejudicial para o banco?”, ele perguntou.

Acredito quando falam que os empréstimos concedidos eram bom negócio para a instituição. E esse, me parece, é um ponto que não se pode ignorar: não estamos falando de bom para o país: estamos falando de bom para o BNDES. São finalidades distintas. E é justamente nesse espaço que, desconfio, está o “ralo” mencionado no título da matéria.

Vejam a defesa do funcionário, quando a jornalista questiona o sucesso de algumas operações:

Citei alguns frigoríficos que quebraram, como o Independência, e também o Marfrig e o Bertin, que a despeito de terem recebido mais de 3 bilhões de reais do banco só não quebraram porque foram absorvidos pela JBS. Outro caso de insucesso foram as empresas de Eike Batista, que receberam 6 bilhões de reais de financiamento. Leal defendeu a instituição. “Nós não temos nada a ver com a empresa de petróleo do Eike que quebrou. Nosso empréstimo foi para outros negócios do grupo que acabaram sendo incorporados por outras empresas, como o porto, e estão sendo pagos, pois os novos acionistas assumiram a dívida.”

Não está em discussão aqui o impacto que as aventuras — e a quebradeira — do Eike Batista teriam na economia do país, no desemprego, nas Olimpíadas do Rio. O que está em jogo é o banco e, nesse caso, defende o funcionário

“a grande maioria das nossas operações é bem-sucedida. Sabe qual é a inadimplência do banco?”, perguntou. E ele mesmo respondeu. “Zero. É a menor inadimplência de todo o sistema financeiro. Isso é um sinal do profundo zelo que temos com o dinheiro da instituição.”

Essa dimensão corporativa também aparece na entrevista da diretora que explica os créditos do BNDES para obras no exterior. Questionada sobre os riscos dessas operações, ela

“assegurou que o banco não corre nenhum risco: caso o devedor não pague, quem tem que assumir o prejuízo é o Tesouro, por meio de um seguro de crédito”.

Competência técnica, notem, não impede o uso político de instituições públicas, nem impede que a iniciativa privada tire proveito da rigidez tecnocrática para lucrar no mercado financeiro. Às vezes, dá pra usar justamente a competência de um corpo técnico para colocar uma instituição pública a serviço de interesses privados (e, claro, político-partidários).

Outro aspecto tocado, mas pouco aprofundado, na matéria de Dieguez, tem a ver com isso: a promiscuidade entre capital produtivo e aquilo que se pode chamar — ainda que de modo impreciso — de “capital financeiro”.

A economia contemporânea, economia de mercados globais, distingue-se de outras épocas do capitalismo pelo domínio do capital especulativo sobre o capital produtivo (indústria, comércio, etc.). Nela, até mesmo o capital portador de juros, necessário para a reprodução do capital produtivo, passa a atuar segundo essa lógica. Como se não bastasse, as grandes empresas cada vez mais conjugam sua atuação normal com atividades financeiras, de modo que muitas de suas estratégias se encontram subordinadas às práticas especulativas

Exemplo disso está no mecanismo, descrito na matéria, pelo qual o aumento do crédito, estimulado pelo governo, não refletiu em aumento de investimento das empresas brasileiras, pois as

“empresas tomaram crédito subsidiado do banco para fazer investimentos que já haviam programado, enquanto aplicavam os recursos próprios no mercado financeiro, a juros muito maiores. Ou seja, o investimento que elas fariam com o dinheiro que tinham em caixa passou a ser feito com financiamento do banco. “As empresas não aumentaram seu investimento com o crédito que receberam do BNDES. Elas fizeram o mesmo investimento previsto, só que usando dinheiro público.”

MAIS

Sobre promiscuidade entre capital produtivo e capital financeiro.

Ou

Sobre as armadilhas do desenvolvimentismo.