Quem tem medo de Donald Trump?

(e por que têm razão em temer?)

Li ontem um artigo de Yascha Mounk, publicado pelo Vox, levantando a bola do “populismo” na campanha Donald Trump sob o pano de fundo de outros fenômenos eleitorais semelhantes, como os observados na França, na Austrália e na Suécia, entre outros países. Ele toca num ponto que, nos últimos 12 anos, pelo menos, parece vir à tona com certa regularidade na França, toda vez que a Frente Nacional, o partido nacionalista de extrema-direita associado à família Le Pen, desequilibra o jogo político e força, por assim dizer, os principais partidos do país — à “esquerda” ou à “direita” — a se unirem contra o populismo/fascismo dos nacionalistas.

Mounk levanta três aspectos que considera preocupantes no populismo. Um para o caso de vitória (o que representaria para a política internacional americana um candidato como Trump na Casa Branca?); e dois para o caso de derrota: (1)como Trump influencia na pauta das eleições (ao deslocar o “centro” do debate cada vez mais para a “direita”)? E (2) de que modo a coalizão necessária para fazer frente à ameaça populista estaria conferindo ao conário político um “ar de semelhança” que, de modo paradoxal, legitima justamente o discurso anti-establishment de que se alimenta o populismo.

Li, hoje, outro texto — este escrito para o Washington Post — no qual Danielle Allen começa comparando Trump a Hitler e termina recorrendo ao imperativo moral que teriam os republicanos, por assim dizer, conscientes (aqueles supostamente comprometidos com os valores constitucionais americanos, etc.) de se unirem em torno de uma candidatura alternativa, no caso, a de Marco Rúbio (porque Ted Cruz é uma espécie de Trump, menos caricato, mas talvez até mais conservador).

Esse apelo de Danielle me parece cair exatamente no terceiro ponto abordado por Mounk. Candidatos como Trump obrigam o establishment Republicano a constituir um blocão de “resistência”. Nesse blocão, as diferenças tendem a desaparecer, levando a reboque um certo ideal de democracia como espaço da pluralidade de opiniões e pontos de vista, etc.

“I venture the challenging statement that if American democracy ceases to move forward as a living force, seeking day and night by peaceful means to better the lot of our citizens, fascism will grow in strength in our land.” (Franklin Roosevelt, November 4, 1938)

A pergunta que pouco se coloca, no entanto, é: o que o populismo nos diz justamente sobre o estado desse ideal de democracia? Por que é que, eleição após eleição, a insatisfação só cresce entre os eleitores? Por que Obama — o candidato da mudança, do “yes, we can” — frustrou tanta gente? Por que o establishment do partido Democrata, desde as primárias, já se esforça por descredenciar o nome de Bernie Sanders, retomando a velha cantilena da “governabilidade” e acenando, inclusive, com o recurso dos superdelegados, uma espécie de aristocracia do partido, que teria o poder de referendar ou não o voto popular (pero no mucho) das primárias?

Embora comungue da angústia dos liberals americanos quando eles arrancam os cabelos frente ao espectro do “populismo”, não consigo deixar de me perguntar até que ponto a ameaça vai servir para conter todo tipo de demanda mais radical por mudança no modelo político-econômico, da qual o populismo me parece ser um sintoma.

Até que ponto o fantasma Trump não serve justamente para engendrar uma eleição entre Hillary e Rúbio, da qual Rúbio poderia, inclusive, sair vencedor — levando-se em conta a aparente fraqueza de Hillary em campanhas –, garantindo, assim, velha alternância entre Democratas e Republicanos e a permanência do establishment próximo do centro?

Como aponta Mounk: não é justamente contra essa política com cara de mais do mesmo que os eleitores de Trump (e Sanders) se rebelam? Não é justo em cima disso que se ergue a imagem de outsiders que eles cultivam?

Como coloca Mounk: “O desafio mais sério colocado pelos populistas não está num futuro distópico sob a presidência de Trump — um futuro que, até o momento, parece bem improvável. Está, por outro lado, nos caminhos bem concretos por meio das quais os políticos populistas já estão envenenando nossas políticas públicas e tornando nossas eleições cada vez mais sem sentido”.

Me parece que a resposta para esse “desafio” pode vir de maneiras diversas. Com menos participação e mais imposição do establishmento, o que poderia resultar no crescimento da insatisfação popular até quando e por que meios será possível conter a panela de pressão?). Ou com uma mudança radical do nosso entendimento da ideia de democracia mesmo.

Esse último ponto me remeteu a esse videozinho aqui. Não é a coisa mais profunda que você vai ver sobre o assunto, mas tá bem desenhadinho e serve pra dar dar aquela sacodidinha na poeira antes de (re)começar a pensar sobre o assunto.

Não é a coisa mais profunda que você vai ver sobre o assunto, mas tá bem desenhadinho e serve pra dar dar aquela sacodidinha na poeira antes de (re)começar a pensar sobre o assunto.

PS: Quando Mounk fala em populismo, faz isso no sentido pejorativo. Tem gente que não vê necessariamente desse jeito. Mas não quero escrever sobre isso agora. Como diria o Cirilo,de Carrossel, eu “só quis dizer”.

PS2: Sobre fascismo, um texto do Eco aqui.