Sobre discursos e conversas

Ababelado Mundo
Jul 10, 2017 · 2 min read

Um “tuíte” que virou “textão” – ou uma conversa que virou discurso?

The populist persuasion, do Kazin, não ajuda a entender apenas a lógica do discurso populista, mas a do discurso político, de modo geral. É que, em última instância, todo discurso político visa, em alguma medida, persuadir, convencer, converter para criar unidade.

Discurso não é conversa. A conversa, desconfio, pressupõe abertura à diferença: cria uma zona de contágio mútuo. Quem discursa, quer contagiar sem deixar-se contagiar: não existe abertura no discurso. O discurso quer reduzir tudo ao Um.

O discurso eficaz recorre a uma série de dispositivos historicamente estabelecidos para criar unidade. Os significantes flutuantes do Laclau.

São não só palavras, mas metáforas, imagens, sintaxes, formas consolidadas pelo uso. Menos do que seu significado, o o que importa é sua eficácia.

É por isso, acredito, que frases de Hitler, sem a referência, podem ser aplaudidas por antifascistas, e frases de Stalin por neoconservadores.

São formas vazias, como clichês cinematográficos: você “sabe” que é truque no entanto, chora – ou pula da cadeira assustado. A eficácia não está no significado, mas na forma e na força (capacidade de mobilizar afetos) desses dispositivos retóricos.

Lakoff e a neurociência: palavras, metáforas, imagens às quais somos expostos criam “vínculos neuronais” em nossos cérebros. Quanto mais fortes os vínculos neuronais estabelecidos por certas palavras no cérebro, mas “sentido” elas fazem, mais impacto elas têm.

Olha a enrascada: o medo, por exemplo, cria verdadeiros “sulcos” no cérebro: vínculos neuronais e trilhas difíceis de apagar. É por isso, creio, que espalhar o medo funciona tão bem num discurso persuasivo. O medo nos faz tremer. “Faz sentido” no corpo.

E é por tudo isso, desconfio, que quando nos defrontamos com um discurso, não tem conversa: tem oposição – ou destruição. Discurso é guerra. Essa metáfora bélica está presente mesmo nos debates mais civilizados. “Demoli” seus argumentos. Minhas críticas foram “no alvo”. “Venci” o debate. Ataquei os “pontos fracos” do seu argumento. Em tempos de pós-verdade, isso nunca foi tão… verdadeiro. Não por acaso, Infowars e Social Justice Warriors nunca foram tão atuais.

Política, tô cada vez mais convicto, se faz sobretudo com “ideias inadequadas: conhecimento de primeiro e segundogênero (Espinosa).

Tá lá, no Tratado Político do Espinosa. E no Teológico-Político também. É só ler com calma.

Hypotheses fingo: o discurso é pré-Molar (D&G), dá em “coagula” (alquimia), tanto quando resulta em imitação quanto em oposição (Tarde); a conversa é pré-molecular (D&G), dá em “solve” (alquimia) e pode resultar em invenção (Tarde).

Acho que quem se incomoda com a polarização política atual, antes de “se posicionar” deveria se perguntar: quero conversar ou discursar?

As duas posturas são válidas: há tempos de conversa e há tempos de discurso. Mas há, também, o tempo de calar.

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