Sobre o progressismo de Star Wars e os resíduos do capitalismo

Semana passada, discuti essa história do boicote racista a Star Wars no grupos de velhos nerds que participo no Whatsapp. Todo mundo concordava que era uma imbecilidade isso tudo, mas, por curiosidade e espírito de porco, eu quis levar a discussão mais longe, dizendo que o culto contemporâneo ao Darth Vader dizia muito desse apreço (estranho) que parte da geração Guerra nas Estrelas nutre pelo Dark Side e tudo que ele representa (hierarquia, padronização, domínio pela força, supressão das diferenças, etc., tudo que há de pior no nazismo, no fascismo, no stalinismo e num certo modelo de tecnoteocracia-neoliberal que habita os subterrâneos da democracia ocidental, mas volta e meia dá as caras na superfície). Falei disso tudo, mas revelei, no fim, uma dose de esperança, identifiquei algo de positivo no último trailer de Star Wars, que pinta com contornos neonazis a idolatria do vilão da vez pelo falecido Vader. Falei também de focos cada vez mais intensos de crítica ao conservadorismo e de um alinhamento às chamadas pautas progressistas (tudo isso que os conservadores atacam: o femininismo, a questão racial e direitos dos homossexuais) na indústria de entretenimento. Mas disse, também, que acredito que esse movimento não traduz um devir “socialista” ou “esquerdista” dessa indústria. Pelo contrário: it’s business as usual.

Toda essa especulação nasce da suspeita de que as chamadas pautas progressistas são apoiadas, sobretudo, pela classe média urbana, para a qual dinheiro não é nem o principal problema, nem a prioridade na vida. Dava pra falar em economia do conhecimento e trabalho imaterial aqui, mas prefiro pensar ainda em termos de classe mesmo. Refiro-me aqui a um modo de existência próprio de uma parte dessa classe média, que não está necessariamente associado ao tipo de trabalho por ela realizado, mas ao tipo de redes por ela estabelecidas — e ao tipo de trânsito, de fluxo, de comunalidade que essas redes engendram.

Trata-se, acredito, de uma galera que tem, no mínimo, mais opções à disposição. Que pode, com um pouco de organização, “jogar tudo pro alto” e correr atrás de seus sonhos: seja pra mochilar pelo mundo, viver numa comunidade “verde” ou criar uma Start-up (o termo Start-Up, aliás, me parece ser bastante representativo desse grupo: talvez eles sejam aqueles capazes de “dar partida” em uma série de coisas, sobretudo porque já partem de algum lugar: têm educação, têm acesso às novas tecnologias, falam outras línguas e têm, em geral, renda suficiente para morar com certa dignidade e frequentar espaços de lazer e sociabilidade com certa regularidade e segurança).

Esse grupo, que pode incluir nerds, hipsters, estudantes de humanas e veganos, entre outros, investe tempo e/ou dinheiro na afirmação de seu estilo de vida: colecionam Toy Art, amam jogos de tabuleiro; gastam com discos de vinil ou o último modelo de polaroide; compram livros às pencas, impressos ou digitais; pagam mais caro para ter seu tofu, seu ghee e seu cogumelo orgânico. É pra essa galera que, muitas vezes, são canalizados tanto o ódio dos “coxinhas” abastados (a galera de marca, do carro importado e do camarote), quanto da direita pão-com-ovo (o cara que é duro, mas que acha que pode um dia deixar de ser), que flerta com o fascismo e, eventualmente, tem delírios teocráticos, além de acreditar que o “feminismo”, o “gayzismo”, o “cotismo” e o “comunismo” — entre outros ismos que não o do capitalismo — estão acabando com nossos “valores”. Os produtores de Hollywood e os diretores da HBO, no entanto, não caem nessa. Em meio a isso tudo, fazem o que um capitalista sabe fazer de melhor: capitaliza. Ao colocarem as pautas progressistas em evidência, estúdios, redes de TV e selos de quadrinhos lucram com séries, filmes e gibis que são consumidos sofregamente por hipster, nerds, estudantes de humanas e veganos. E lucram também porque a cultura pop é flexível o suficiente para criar vilões capazes de agenciar os desejos mais sádicos (por meio dos Darth Vaders e Capitães Nascimento da vida), e convertê-los em bilheteria ou assinaturas do Netflix.

O cinema tende a ganhar, me parece, um verniz cada vez mais progressista. E isso vai ser bem interessante. Eu acho, pelo menos.

Mas o abismo entre o salário de homens e mulheres em Hollywood não vai acabar tão cedo, apesar dos protestos da Patricia Arquette. E a cota de negros atrás das câmeras — na direção de filmes — tende a crescer num ritmo mais lento do que a cota de negros na frente dela — como atores. É que o modo de produção da indústria cultural, parece, integra outra dinâmica de mudanças.

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Embora ache que isso tudo é bem-vindo no cinema, na TV e no comercial do Boticário, me parece um erro grave subestimar a importância das velhas relações de classe. Toda essa configuração libertária-pero-no-mucho que o mercado suscita, gera um resíduo do qual depende o sistema: um resíduo do qual ele se alimenta. Assim como o CO2 emerge da queima de petróleo e o lixo atômico da usina nuclear, a miséria (econômica e intelectual) das maiorias é um resíduo do capitalismo: nosso lixo ordinário. O lixo do trabalho infantil, nas minas do Congo, de onde vêm boa parte dos metais que servem de matéria-prima para os circuitos de nossos iPhones. O lixo da violação dos direitos trabalhistas na indústria têxtil. E o lixo do fundamentalismo do ISIS e do Tea Party. Pra isso, as alternativas do mercado, até o momento, são exército e polícia. Guerra e repressão. Drone e Bomba de Efeito Moral.

É por isso que meu otimismo só vai até a página 2.