Uma distopia pra chamar de sua
O fim do mundo sob o impacto de um grande cometa é uma versão otimista da fantasia escatológica contemporânea.
É possível que o futuro que estamos construindo combine a vida do 1% mais rico — que parecerá com o da minoria privilegiada em filmes como Jogos Vorazes, Elysium e Expresso do Amanhã — com o deserto hostil a ser disputado pelos 99% restantes, como vemos em A Estrada e Mad Max — Estrada da Fúria.
O fim do mundo sob o impacto de um grande cometa é uma versão otimista da fantasia escatológica contemporânea.
Vemos isso em Melancolia, de Lars Von Trier. A morte súbita da terra também surge como esperança ou delírio em 4:44 — O fim do mundo, de Abel Ferrara. Neste, o cometa dá lugar a um aquecimento global que atinge um ápice inesperado e dá ao mundo dia e hora pra acabar. São filmes marcados pelo desespero: pela angústia da espera. Mundos condenados nos quais a morte nos acena quase como promessa de paz: o silêncio de um sono sem sonhos. Trata-se, no entanto, de uma esperança enviesada.
Há outras abordagens para o tema do fim do mundo, comuns a blockbusters como O Dia Depois de Amanhã e 2012. A ênfase, nesses casos, está na catástrofe mesmo. No drama do armagedom. Sabe-se que a vida segue depois do apocalipse, ainda que como sobrevida.
Filmes como A Estrada e Mad Max — Estrada da Fúria são filmes pós-catástrofe: tratam dos sobreviventes. Retratam um mundo de puro presente, onde sobrevive-se um dia de cada vez, ante uma urgência de fome.
Jogos Vorazes, Elysium e Expresso do Amanhã (Snowpiercer) trazem um cenário pós-apocalíptico que preserva a tendência à concentração de renda, o aprofundamento do abismo entre quem têm dinheiro (e acesso a tecnologia) — the haves — e quem não têm (nem uma coisa nem outra) — the have nots — que a gente verifica no mundo atual.
É possível que o futuro que estamos construindo combine a vida do 1% mais rico — que parecerá com o da minoria privilegiada em filmes como Jogos Vorazes, Elysium e Expresso do Amanhã — com o deserto hostil a ser disputado pelos 99%, como vemos em A Estrada e Mad Max — Estrada da Fúria.
Elementos da distopia no mundo dos cheiros
Tento acompanhar os progressos tecnológicos de nosso tempo, que vão desde a rápida evolução dos drones, aos avanços do Google Glass, passando pelo uso de impressoras 3D na impressão de tecidos vivos (que poderão produzir órgãos como peças de reposição).
A rápida evolução da inteligência artificial tem garantido avanços importantes da computação em áreas de conhecimento que pareciam exclusivos dos seres humanos, como as ciências que levam seu nome: as humanas. Para muita gente não é dúvidas de que o movimento que substituiu os blue collars (o chão de fábrica) por robôs na indústria, vai chegar aos escritórios para substituir os white collars (os burocratas).
Num cenário onde uma redução ainda maior da oferta de emprego tende a acentuar ainda mais a concentração de renda, o medo da violência urbana, por parte dos haves, tende a abrir espaço para todo tipo de iniciativa que prometa dar mais segurança às pessoas.
Essas iniciativas podem incluir, por exemplo:
- O uso de big data para mapear vizinhanças perigosas, mais propícias a produzir criminosos, o que, na prática, transforma oficialmente todo morador de favela em um suspeito em potencial que, por isso, deve ser vigiado mais de perto. A pobreza torna-se probable cause (dispositivo legal que dá a um policial o direito de revistar uma pessoa, seu carro ou sua casa, com base no que ele julga ser uma evidência; hoje, vai desde um farol de carro quebrado, até um sinal de embriaguez).
- A longo prazo, desconfio, o uso de drones para patrulhamento tente a se mostrar mais barato e mais eficiente que o uso de policiais de rua e na contenção de multidões. O governo americano tem usado e abusado de drones para — dizem — combater o terrorismo. Isso tem sido motivo de debate nos Estados Unidos. Não seria novidade se a política utilizada em conflitos fora das fronteiras americanas passasse a valer também internamente. Anteriormente, a guerra ao terror serviu para equipar departamentos de polícia norte-americanos equipamentos de uso militar, que recentemente tem sido usados contra civis americanos.
- A multiplicação de câmeras de segurança, hoje cada vez menores e mais baratas, é outra coisa que deve acontecer nos próximos anos. Hoje é fácil combinar câmeras com dispositivos de reconhecimento facial que se conectam diretamente aos bancos de dados da polícia por exemplo.
- Já convivemos faz algum tempo com os condomínios fechados e com a popularização cada vez maior dos serviços de segurança privada. Tem muita gente por aí que, ante a promessa de mais segurança, abriria mão tranquilamente de espaços públicos como praças e parques e conviveriam de bom grado com cancelas, grades e catracas. Quem tiver um dinheiro sobrando, poderá se dar ao luxo de contratar para si um exército privado para levar a cabo uma guerra particular ou proteger seus interesses.
- Os documentos vazados por Edward Snowden, sobre a espionagem americana na Internet, só fizeram evidenciar ainda mais o fato de que nossos passos digitais são facilmente rastreáveis hoje em dia. Nossos passos no mundo dos cheiros também poderão ser acompanhados cada vez mais de perto e ninguém vai precisar ser “chipado” pra isso: basta carregar no bolso um celular.
Tem mais coisa, mas podemos parar por aqui. Há outro cenário, que combinado a esse conjunto de prognósticos, pode tornar tudo mais caótico: a mudança climática.
Tá quente aqui ou só eu estou sentindo?
Considerando que não há nenhum movimento sério das nações desenvolvidas no sentido de evitar a catástrofe anunciada pelos climatologistas (o governo Obama volta e meia aborda questão do clima, mas sua gestão, curiosamente, foi marcada por uma política drill, baby, drill), é bem provável que nos próximos anos o mundo se defronte, cada vez mais, com secas, falta d’água, inundações, furacões e outras tragédias do tipo.
Acredito, no entanto, que a dinâmica entre haves e have nots tende a se manter, mesmo nesse cenário de crise ambiental. Tudo indica que o número de áreas cultiváveis (e habitáveis) será drasticamente reduzida, mas não deve acabar de uma vez por todas. Lovelock, o criador da hipótese de Gaia, por exemplo, acredita nisso. Lemos no perfil dele na Rolling Stone:
“Em relação à água, a resposta é bem direta: usinas de dessalinização, que são capazes de transformar água do mar em água potável. O suprimento de alimentos é mais difícil: o calor e a seca vão acabar com a maior parte das regiões de plantações de alimentos hoje existentes. Também vão empurrar as pessoas para o norte, onde vão se aglomerar em cidades. Nessas áreas, não haverá lugar para quintais ajardinados. Como resultado, Lovelock acredita, precisaremos sintetizar comida — teremos que criar alimentos em barris com culturas de tecidos de carnes e vegetais. Isso parece muito exagerado e profundamente desagradável, mas, do ponto de vista tecnológico, não será difícil de realizar”.
Falando sobre a cidade onde mora, Oslo, Lovelock fala mais do futuro: “A questão principal a ser discutida aqui é como manejar as hordas de pessoas que chegarão à cidade”, avisa. “Nas próximas décadas, metade da população do sul da Europa vai tentar se mudar para cá.”
A resposta pra esse desafio de que Lovelock antecipa para os países do hemisfério norte, acredito, será uma radicalização da atitude da Europa hoje em relação aos imigrantes: cuidar de mantê-los afastados. Hoje ainda há uma aura de humanitarismo pela qual os governos ocidentais fingem zelar. Mas acho que num cenário de escassez, valerá mais a lógica farinha pouca, meu pirão primeiro. E o que vai garantir a segurança dos enclaves o poderio militar assegurado pela tecnologia: a multidão será contida pelos drones.