Cê vai, ocê fique, você nunca volte

Faz bastante tempo que não escrevo. Lembro que costumava recorrer a essa válvula de escape mais ou menos na época da escola: bastante novo e tímido, eu tentava viver por meio das coisas que lia. É engraçado como a gente (falo por mim!) busca maneiras de sufocar ou encontrar razão para os nossos anseios nas pequenas coisas. Até então eu nunca havia me relacionado com ninguém e — sem muita surpresa — foi em meio a lugares-comuns, preconceitos e caixinhas sociais que as minhas experiências afetivas começaram.

Tal como a maioria das coisas que a gente reproduz sem questionar, o modo mirabolante como eu interpretava os meus sentimentos girava em torno de papeis há muito definidos em termos sociais, de gênero e grau. No entanto, o que eu não sabia era que as consequências das minhas inseguranças encontrariam refúgio em figuras de linguagem dispersas (ainda que não houvesse muito resultado disso e elas bambeassem resignadas). Eu era capaz de precisá-las na ponta do lápis, mas ao tentar tatear o meu próprio terreno continuei pisando em ovos. Não me apropriei de mim, e imagino que talvez não fosse diferente caso tivesse empenhado esforços nesse sentido. Mesmo para os mais aventureiros, desbravar as próprias fraquezas nunca é algo fácil. Não seria no auge de meus quinze anos e uma paixonite obsessiva que isso aconteceria.

Sem mais rodeios, o que sempre pegou pra mim foi a tal da doação pessoal e o apreço. Depois de alguns desajustes de expectativas em projetos de relacionamentos que não chegaram a ocorrer, sempre me vi como aquele que na maioria das vezes toma o outro por prioridade. Com o perdão da pieguice e descontando o exagero da comparação: a via-crúcis soa a mesma.

A empolgação inicial do conforto de estar com outra pessoa (seja lá por que motivo) anima a gente de imediato, e muitas vezes sem nos darmos conta cedemos a alguém novo um espaço diferente (ou ao menos redescoberto) em nossas vidas, seja ele físico, afetivo ou sexual. Sem poder colocar a boa novidade num potinho, a gente fecha as pernas no banco e oferece a mais alguém um cantinho do barco com o qual pretendemos percorrer a travessia da vida.

A imagem não é nova e a sabedoria se vende como préssocrática: não se entra no mesmo rio duas vezes, dizia Heráclito, e assim a ensandecida sensação de estar parado e oferecer, passageiro a passageiro, a oportunidade de fazer parte de nós não muda o fato de que a água que passa do lado de fora (e nos movimenta) nunca é a mesma.

É na dificuldade de perceber o lugar reservado a mim na vida própria, parado em meio a duas margens (e com a sensação de que me imponho como uma terceira aos que passam por minha vida) que reside a dificuldade em apropriar-me de mim. Minha conduta de reagir a esses supostos ingratos — esses mesmos, os que somem do nada, sem mais, sem menos e sem receio por quem fica — com uma conformidade forjada e uma aceitação engolida a seco é repetida e errada; não detenho a condução de mim, e a passagem pra esse filho da puta foi livre.

Um errante colombiano certa vez ecoou a voz de muitos ao esbravejar: as pessoas que a gente ama deviam morrer com todas as suas coisas! Ora, por que raios o ser humano prefere ignorar a importância que lhe foi atribuída e fantasia estar preservando o outro ao escolher sumir de bate e pronto? É aceitável essa mesquinhez de não nos contarem que os nossos ecos já não podem mais corresponder aos apelos de apreço e atenção que fazemos? Não bastasse a falta de cuidado, essa bobagem de que estaremos a salvo sendo cuidadosamente colocados às margens da vida alheia só nos priva do direito e da emoção de viver seja lá o que aquilo for.

O mesmo Gabo acaba por dizer que essa coisa de travessia e de rio talvez seja muito complicada para quem faz parte do referencial de movimento. Se não somos capazes de sobrevoar a nós mesmos marginalmente para avaliar a situação de forma independente, então talvez seja mais honesto admitir que por vezes nos resta dar a volta na grelha da vida e assar mais um pouco, sem nos preocupar com o que aquela experiência em curso nos reserva. Perante o afastamento, nos resta a inércia e a constatação de que faltava reciprocidade. Mesmo assim, crava Drummond: não fica a morte, contudo. A afeição, o afeto, a sensação de algo inacabado e algumas mágoas calejadas persistem.

O ímpeto inicial de se lançar ao outro não necessariamente buscava altos vôos, relacionamentos resistentes, fechados, cheios de ciúme, compromissados, rotineiros e dotados das mazelas cotidianas vendidas em pó solúvel nas prateleiras das lojas. Ao buscar em outra pessoa o que o poeta dizia ser "a vida mínima e essencial", muitas vezes só estávamos a postos para receber de bom grado o que supomos que os outros estivessem dispostos a nos oferecer. Por babaquice ou mau-caratismo (alheio ou nosso) moçada, não rolou, e muitas vezes não rola. E é na maioria dessas vezes que não sei se conseguirei ser homem depois desses pequenos falimentos.

Como quem acata a condição de ser o que não vai, o que fica calado ou o não-escolhido, por vezes restamos com o temor de abreviar com a vida nos rasos do mundo. No esforço de proclamar ao outro “Que se vá!”, mascaramos um amor próprio que malemá vinga em cima da impressão de que não merecemos, de fato, a atenção, o tempo e o esforço de quem nos fez bem. Ainda que, no fundo, seja difícil assimilar a sensatez de ser a minha própria prioridade, sei que a minha vida não é, de modo algum, uma vida menor. Encho o peito de ar e repito, esperando que uma hora o mantra se revista de convicção: cê vai, ocê fique, você nunca volte.

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