Capítulo 6 — 6 meses depois

_ O que você estava pensando?

Eu acabo de acordar e essa é a primeira coisa que minha mãe me pergunta, como se alguém que acaba de sair do coma pudesse racionalizar facilmente o que aconteceu antes de quase morrer.

Há cinco meses meu pai foi diagnosticado com uma leucemia avançada. É engraçado como eu sempre quis me afastar dele, do que ele era, mas nos últimos meses de vida eu estive sempre com ele.

Eu cancelei um mochilão na Europa quando ele disse que ia começar a quimioterapia e a gente pensa que a pessoa vai passar por algum equipamento de última geração, mas é como se ele tivesse bebido mais do que devia e precisasse de glicose ou soro para se recuperar. A diferença é que esse soro derruba os cabelos e derruba a pessoa tanto quanto o câncer que ela está tentando enfrentar.

Nós passávamos as tardes na casa dele assistindo aos piores programas que a TV já produziu. De culinária a reality shows, nós vimos de tudo. Também vimos muitos filmes. Ele amava os blockbusters de ação e alguns deles eram até bons, mas, como ele não gostava de legendas, os filmes eram sempre dublados. A maioria das vezes a gente passava a tarde olhando para a TV, sem sequer trocar olhares. Em outros dias, a TV era apenas um barulho de fundo e ele falava sobre os negócios, coisas que ele ainda queria realizar e, de vez em quando, me perguntava como iam as coisas. "Vou indo", era minha resposta padrão.

A rotina se repetia todo dia e não me incomodava nem nada, a única coisa que me irritava era a mulher dele. Ela nunca estava lá. Não sei para onde ela ia, se estava ajudando os pobres ou trabalhando, mas ela deveria estar ali. Ela nunca estava.

Todo dia eu dizia a ele que ele iria melhorar, mas chorava todos os dias antes de dormir sabendo que as chances de isso acontecer eram pequenas. A dor se diluiu em quatro meses, então, quando o médico avisou que ele tinha parado de respirar, é como se fosse algo esperado. Você assina os documentos que deve assinar e procura uma funerária. Ele não tinha exigências sobre como deveria ser enterrado ou alguma cerimônia especial. Seguimos o ritual que todos seguem.

O agente funerário perguntou qual era a religião da família e eu respondi que não existia uma específica. Eu não acreditava em nada, enquanto meu pai acreditava em tudo. “Senhor, é só para saber se posso colocar uma cruz no velório”. Colocaram a cruz e até chamaram um padre express para fazer uma última e interminável oração. Parecia uma missa no meio do velório.

Quando alguém morre temos a mania de santificar essa pessoa. Meu pai era uma das pessoas mais rudes que eu conheci, mas não fazia isso por mal. Dava as patadas mais cruéis, mas não demorava muito para esquecer. Frequentemente vinha pedir desculpas.

Essa “inocência” que muitas vezes machucava as pessoas, também fazia com que ele chamasse a todos de amigo. “Eu encontrei ele uma vez em um bar não sei aonde, fala que você é meu filho. Ele é meu amigo”, costumava dizer. A pessoa provavelmente não o considerava amigo, mas ele, genuinamente, sim. O velório parecia muito aquele filme “Peixe grande”. Tinha o ceguinho que ia toda semana vender um bilhete de loteria e saía com uma nota de 50 reais- contador, funcionários, amigos, familiares- e muita gente que nem se importava tanto com ele, mas que fez questão de comparecer por protocolo.

O velório é cansativo, mas a parte mais dolorosa é quando o caixão se fecha, quando ele é colocado debaixo da terra. É ter a consciência surreal de que você jamais vai encontrar com uma pessoa que você gosta, que você gostaria de continuar encontrando, mesmo com todos os senões. Meu pai não sabia nada da minha vida. Certa vez, ele me disse: "Você deveria se inspirar mais nos seus ídolos". Ele recentemente tinha virado vegetariano e queria que eu me espelhasse em Morrissey ou, quem sabe, nele mesmo. Eu respondi: "Pai, todos os meus ídolos se mataram ou tiveram uma overdose." Ele mudou de assunto. Agora era ele quem tinha ido e não havia o que fazer.

Depois de uma longa pausa, respondi à minha mãe:

_ Ainda estou meio grogue, mas parece que eu estava pensando em me matar. Não deu certo.

Minha mãe sempre foi do tipo de não fugir do problema, muito confrontadora, mas desta vez ela saiu do quarto do hospital chorando.

Para mim estava claro, eu tinha tentado me matar. Não sei por que, não sei o que passou pela minha cabeça, o que me levou a tomar uma definição tão definitiva, só sei que não deu certo e agora eu não tinha mais vontade de tentar novamente.

Três dias depois de despertar, um psicólogo me fez algumas perguntas. Sobre meu pai, meu emprego, falta de dinheiro. Não há dúvida de que as coisas não iam bem, mas, aparentemente, esse não seria o fim da história, era só, provavelmente, de acordo com a ordem natural das coisas, o meio.

Eu tinha apenas 30 anos.

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