O porquê gostei de La La Land

Esse texto contém spoilers, então, esteja avisado e avisada.

Não fiz cinema, não sou roteirista (talvez seja… mas não agora), e nem pretendo fazer uma crítica resenha aqui. Meu foco será, assim, um recorte: o motivo pelo qual La La Land funcionou pra mim. Aliás, entendo perfeitamente muitas das críticas que o filme recebeu, sobretudo uma: a de ser um filme ingênuo. Sim, La La Land não é a quintessência da arte visual, embora muito bem executado e repleto de referências, algumas das quais podem ser conferidas, inclusive, aqui:

Dessa forma, seria um amontado de clichês açucarados, dignos de uma sessão da tarde qualquer? Talvez, isso os anos dirão, porém qual o problema se for? Pois, você caro leitor ou leitora apenas assiste filmes de arte, de diretores consagrados pela crítica, laureados por Césares, Leões, “Sundances”, “oscarizados”? Ou, ainda, você é o hipster que gosta somente do que é underrated? Uau, parabéns aos envolvidos, entretanto existe um mundo interessante no que é popular também. É o caso de La La Land e o que explica seu sucesso, em parte, nas premiações e na bilheteria.

Pra mim, a história pode ser batida, todavia funciona muito bem e transpôs de maneira impecável o embate amor versus sonho. Além disso, o desfecho é agridoce, o que destaca a ambivalência da questão: seria justo prevalecer qual? Você poderia dizer, com efeito, que milhares de outros dramas são assim (Titanic, Casablanca…) e ok, são mesmo. O mérito de La La Land é apresentar esse conflito secular de modo onírico e, principalmente, igualitário. Sim, estamos falando de um filme em que as duas partes do casal optaram, não interessa tanto se consciente ou inconscientemente, pelo seu sonho. Sabemos, ou deveríamos, que espera-se sacrifícios ou viradas rocambolescas que terminam no final feliz. Nada disso: La La Land nos brinda com uma história surpreendentemente realista.

Apesar dos números musicais, da velha e boa história de amor, Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) seguem sua individualidade. Mia não abre mão de sua carreira por amor. Sebastian não parte em um cavalo com asas para o outro lado do Atlântico atrás de sua amada. Não. Cada um deles entende a importância daquela história de amor, contudo enxergam também que enterrar o próprio desejo na gaveta ao lado das fotos de formatura seria uma traição pessoal e imperdoável. Talvez pior: algo que jogariam na cara um do outro depois. Alguma coincidência com a “vida real” não é exatamente casual.

A narrativa constrói um conto de amor simultaneamente verossímil e imaginativo. O devaneio de duas pessoas dançando no meio da rua de Los Angeles está lá, bem como um final transgressor e duramente verdadeiro. Subversivo por dar voz própria aos dois, eles não devem se alienar um no outro em nome do amor, da paixão, ou do que for. Sem contar o fato de uma mulher não precisar anular-se por um homem, pelo contrário, reivindicar sua satisfação independentemente dele.

Ah sim, existe uma discussão interessante sobre racismo implícito no filme, na medida em que um rapaz branco se considera capaz de “salvar o jazz”. Sim, concordo e penso que isso merece análise e consideração. Não obstante, isso não anula os méritos e acertos da obra que como qualquer construção humana é imperfeita. Afinal, o que é um bom filme? Eu penso que um critério é ele nos transportar para outro lugar e ao mesmo tempo nos abrir novas perspectivas. La La Land preenche tais requisitos tanto pela entrega de uma atmosfera onírica extremamente rica visual e musicalmente, quanto pelo desfecho pouco frequente no qual os protagonistas simultaneamente contrariam um final simplesmente feliz (o que é relativamente comum isoladamente) e se anularem pelo amor (o que já não é nada habitual em filmes do gênero). Desculpem haters, mas vocês queriam mais o quê?

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.