Falar do Indizível

Mãe. Palavra monossilábica. 3 letras. 3 fonemas. Duas vogais e uma consoante. Aquela que acolhe, protege. Concebe ou cria. Origem, fonte. Madre. Oriunda do latim. Mater. Essas são traduções da palavra mãe. Significado escasso para quem vê nela uma ressignificação e um contínuo trabalho de entender o motivo de tanto amor sem precedentes.

Nem imagino a trabalheira dos estudiosos dos vocábulos para estar próximo de uma palavra tão poética, emprestada do abstrato e magia do infindo, do que não acaba e que se regenera em nós. Uma palavra que viaja ao silêncio do contraditório, à imperfeição do humano e à substância da vida. Uma fonte de vida, que, por si só, não permite delongas, textos extensos ou grandes palavras. Está aqui entre nós. Perdoe-me o texto sagrado, mas ponho-me a acreditar que mãe é um pedaço do céu, do anil e da cor, da brisa e do mar, da lua e suas fases, do ego tênue e do eu forte.

Aí fico pensando do tamanho de responsabilidade sobre um ser. Antes um ser e vários, hoje, um ser e vários com a transmuta do outro. A empatia que permite o colocar-se diante do outro e do escutar- se, mesmo que a comunicação esteja ruidosa, lancinante, medrosa e triste. O divino que se autoriza a estar num ciclo lado a lado; mãe não deixa de sofrer, de errar e de falar muito; mãe é verso que soa e poesia precisa que se apresenta, portanto, mãe é vida que carrega um fardo pesado: são dois mundos, o julgamento de uma comunidade inteira e a comunhão do silêncio, com a capacidade de ser linguagem acolhedora e de ser amor incondicional.

É árduo dissertar sobre a mãe. Recordo-me no entremeio das lembranças dos seus atos singelos. A vigilância perene, o sentido mais completo, a linguagem que fala quando se cala, a misericórdia. A única certeza de um lar que estará sempre de portas abertas, independente das circunstâncias. A propriedade para dizer isso é que a minha mãe ainda tem o costume de ir no meu quarto para me observar dormindo, para reclamar por minha conexão horas a fio, por ser amor que não descansa. Mas, mesmo assim, ainda é muito raso definir o seu amor por razões óbvias e por atos grandiosos.

Quando se cansa e as forças diminuem, ancora-se no amor e parece que se agiganta mais e mais ao quarar sua lida. É uma verdadeira fera para defender as suas crias. A maternidade transforma o mundo. Mesmo que as palavras insistam por surgir, mãe sempre será um desdobramento das coisas eternas. De um amor gratuito. Para ter colo, não precisa fazer check- in, check- list ou cheque- out. Basta estar próximo dela. O cafuné é sagrado e o afeto, bem-vindo. Gratos sejamos por amar por amar e não precisar convencer os motivos para ser amado.

Oremos nas raízes ecumênicas da vida e abracemos as mães e mães que tornam a nossa caminhada fortalecida. E louvemos alto um amor que será sempre um aprendizado. Afinal, não há manual para ser mãe nem para ser filho. Meditemos e toquemos o barco com a infinitude de bons sentimentos que nos reúnem em um ser maior: a eternidade.