Uma moto, uma tarde aturdida

O céu se desenhava ali em frente, a poucos quilômetros do meu destino, as nuvens cinzas tingiam o nublado e o sol, tímido, escondia-se e se refletia no gramado de uma fazenda à margem de uma rodovia. Nesse instante, eu voava descompassado na garupa de uma moto. Nada mais fazia sentido: nem mesquinharias nem vãs opiniões. Pela primeira vez, sorvi o arbítrio de sentir desmedidamente, embora, estivesse indo para compromissos.

À tarde, catorze horas, 14 horas e um minuto no relógio do micro-ondas,duas horas no celular, sentado no terceiro degrau da escada, aguardava meu tio para realizar a coleta do censo enquanto a melancolia matinê tomava o percurso diário. Um misto de sentimentos sem nomes, de expressões sem caras e pensamentos sem identidades.

Do lado de fora, chuviscos, um céu que ameaçava chover, uma tarde em que os planejamentos dariam errados. Eis que estiou por alguns minutos e o amarelo sombreou a janela do quarto.

Montado numa moto, apesar do desajeito, corri pelos quilômetros — pulsões de mim, quando me desprendia de mim mesmo e já não mais pensava em quem ali estava, em quem ali se encontrava. Uma vontade voar abriu asas para ir, embora, ir seja tão controverso.

Naquele momento, pensar seria inútil. Entregar- se ou recuar-se. Não importa. Eu ia a cada local como se estivesse a inaugurar um sentimento novo. Eu ia. E eu nutri uma verdadeira paixão pelo que não tem pressa, ao mesmo tempo, urge.

As vias atravessadas me diziam os contrários, a minha contradição, as minhas falácias, desvelando-me, mas, não dava ouvido a mim; já não era eu, eu era um outro, um estrangeiro envolto da essência.

Eu contrabandeava a mim mesmo. Eu subverti a ordem, ao mesmo tempo, não subverti nada, talvez, isso prove alguma coisa ou não prove nada. A chuva me molhou no percurso, a coragem me assombrou no agora. Uma moto, uma tarde. Nada igual.

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