Uma viagem parcialmente improvisada à Argentina

Ela e eu na Patagônia.
Ano passado, em Berna, na saudosa Eurotrip.

Patagônia estava longe dos nossos planos. Após voltar de uma emocionante Eurotrip — um sonho realizado, diga-se de passagem — sentei com a Milena para fazer novas contas. Quem viaja sabe: você volta e quer ir de novo. Começa a fuçar as jeans velhas pra achar notas de R$1 lavadas e olha pros móveis antigos com slogan de loja virtual na cabeça.

Eufóricos, debatíamos entre voltar pro velho continente ou ir pra terra do tio Sam. Aí o Real resolveu desvalorizar, o cenário político ficou instável demais, e não dava pra saber se teríamos condições de comprar dólares tão cedo. Guardamos os planos por alguns meses até que a ideia da Argentina veio a mente. Fizemos a conta e… bem… dava!

Vale citar que eu conheço Buenos Aires. Fui algumas vezes e já morei na cidade. Somando isso ao fato de termos recém voltado de uma viagem dos sonhos, qual graça teria?

Bem, de volta ao que interessa: duas cidades eram obrigatórias pela popularidade. Buenos Aires e Bariloche. O que faríamos no meio ainda era obscuro. Compramos as passagens de ida e volta e começamos a planejar. Resolvemos emendar a Patagônia. A parte dos hermanos, por enquanto.

Brasiloche

Como viajamos no começo de setembro, Bariloche era o primeiro destino para tentar pegar um restinho de neve. O objetivo não era só esquiar, mas já que a cidade fica mais bonita com os picos nevados dos Andes, também era garantia de paisagens!

Poucos dias. O primeiro para rodar a cidade e subir nos cerros Viejo e Otto. Vistas incríveis para a cidade, vale ressaltar.

Trocamos Reais por Pesos na rua com um cara sinistro, compramos o primeiro vinho e comemos uma pizza muito gostosa.

Precisamos falar sobre Cerro Catedral.

Fomos esquiar. Fizemos aulinha e tudo. Caímos bastante, esquiamos pouco. Tomamos mais vinho, tiramos mais fotos, tomamos mais tombos e enfim tiramos aquelas botas. É. Aquelas botas de Ski — que não são tão confortáveis quanto um Adidas surrado. Essa foi a melhor parte de Bariloche. Tirar as botas.

Essa botas. Malditas.

A cidade fica bonita ao anoitecer. Saímos a caminhar até acabar a avenida principal. Era nítido que estávamos famintos. Parávamos em cada portinha pra comparar os cardápios e escolher uma pra entrar. Aí um cara de moletom de touquinha notou nossa cara de fome e abordou a gente.

Ele oferecia um cardápio (um pouco caro e com seleções duvidosas), e aproveitou pra puxar assunto. Falou que morou no Pelourinho, que o castelhano é um português mal falado (e vice-versa) e que Bariloche devia se chamar Brasiloche, tá ligado? Ah! É! Ele terminava todas as frases em portunhol com um sonoro “tá ligaaaado?” Acho que ele achou que era cool. E antes que sequer pudéssemos dizer que não curtimos o restaurante (digo, os preços, digo, o papo), o cara ofereceu pra gente: câmbio, carro alugado, aulas de ski e snowboard, desconto pra subir no Catedral e um show de reggae nas aforas da cidade com gente tão cool quanto ele. Não estou exagerando.

Villa la Angostura e San Martin de los Andes

Pegamos o tal do passeio pra San Martin. Ele passa por uns tais de 7 lagos (+ 2 lagoas). Fomos de vã de turismo. Turistões! Confesso que ao entrar percebemos que não era um rolê de gente nova e descolada. A média de idade era algo perto de 100 anos. Mas tudo bem, ao menos a guia turística era simpática e arranhava um portunhol. Esperávamos uns laguinhos dahora e umas cidades fofinhas no caminho. Mas.. Cara…

Vista de lago e seu reflexo do céu e das montanhas.

Esse passeio é uma OBRIGAÇÃO pra quem for pra lá. Principalmente em dias de sol e principalmente se for pós alguns dias de neve (nosso caso). É um lago mais bonito que o outro. Paisagens de tirar o fôlego. Ao menos o pouco de fôlego que você ainda tiver tentando respirar aquele ar gelado.

Assim como esse e o anterior, existem outros 5!

Villa la Angostura foi sucumbida pelas cinzas do vulcão chileno Puyehue, em 2011. O turismo lá acabou por 6 meses, e essa é a principal fonte de renda da cidade. Ela foi praticamente reconstruída, e segue linda. Você encontra fotos do antes-e-depois em todos os cantos. O desastre fez com que a cidade se tornasse um ponto turístico ainda mais impressionante.

San Martin de los Andes é outra pedra preciosa à beira do lago Lácar. Deliciosa de caminhar e conhecer. Dela, vale uma dica: os vendedores não conseguem identificar se seu cartão tem Chip ou não. Aí eles ficam tentando, tentando, tentando, e você acaba se atrasando para o ônibus. Lembre-se de levar dinheiro em espécie.

Calçadão beira-lago da cidade.

Do Calafate ao glacial Perito Moreno

Vento.

Para os vôos locais, contamos com a sorte. Como morei em Buenos Aires, tenho DNI (uma espécie de RG deles). Com esse número, consegui um baita desconto nas passagens, o que nos deu a oportunidade de colocar El Calafate no roteiro. Essa cidadezinha encontra-se um pouco mais ao sul da Patagônia.

Em El Calafate tem muito vento. Ele curva as árvores e arrasta areia pra todos os cantos. Até dentro dos bares de gelo tem areia. Dentro dos carros, do hotel, das medialunas e da sua cueca. El Calafate tem muito vento e isso é tudo que se pode falar sobre lá.

Mas dali saem os passeios para os glaciais. A alta temporada é no verão. Provavelmente porque os ventos são menos gelados — sei lá. Você pega um ônibus, admira o Lago Argentino (azul-calcinha, ou verde-água, ou sei lá qual cor de esmalte que ele é) e numa curva, assim DO NADA, tá ele lá. O glacial Perito Moreno.

Tem muito gelo nessa foto.

Uma parede imensa de gelo em forma de arte. Uma obra magnífica da natureza. De cair o queixo e deixar sem ar. A ponta que podemos ver é só o fim de um imenso rio de gelo que encosta na terra. Em dias abertos dá pra ver o caminho que ele percorre, e é impressionante. Quase 200m de altura (dos quais entre 50 e 70m estão acima da água).

Reparem o barquinho navegando o lago ali perto do glacial. É um Navio.

Torres del Paine

No caminho, essa é a paisagem. Quando tem neve. Quando não tem é só amarelo mesmo.

Pegamos um carro e fomos dirigindo até o Chile. 4h de estradas e paisagens amarelas (tudo é incrivelmente amarelo lá no sul). Chegamos em Puerto Natales. Cidade pequena e não-amarelada, graças a Deus. Tudo nela parece improvisado. Casas, bares, supermercados, hotéis, cachorros, policiais, pessoas. Tudo. Fomos trocar nossos Reais por Pesos Chilenos e a mulher pediu pra gente esperar enquanto ela vendia cigarros para outra senhora. Acredite. A casa de câmbio era uma boa e velha “vendinha da tia”.

A cidade adotou como mascote o Milodonte (Milodón ou Mylodon). Que é uma preguiça de mais de 2m de altura que viveu ali em tempos remotos. Existe uma caverna batizada com seu nome ali perto, e fomos ver. Ao contrário do que as fotos retratam, a danada é gigantesca. O pé direito é de dar inveja em qualquer triplex de luxo em Guarujá. Esculpido por um antigo glacial que vivia ali. É incrível!

Numa manhã fomos para as tais Torres del Paine. 1h30 de carro dali — tirando o tempo que nos perdemos. Mas quando chegamos…

Nas costas do Paine tem esse lago feio.

Funciona assim. Você dirige um pouco, assiste algumas lhamas guanacos comendo pasto e para o carro pra admirar a beleza do lugar. Existem algumas trilhas que podem (e devem) ser feitas. O lugar é feito pra isso: trekking. Tínhamos pouco tempo, então fomos seletivos. Fizemos duas trilhas curtinhas (2h cada), e não pudemos chegar perto das torres pra tirar foto. Mas mesmo assim o passeio valeu a pena. Cada passo lá dentro de dá um choque de beleza. Você fica estagnado admirando as montanhas, os lagos, as vegetações e as geleiras. Tudo é muito lindo.

De volta à Buenos Aires

Saímos do chile e voltamos para El Calafate. Resolvi pegar um atalho e foram 130km de (estradas) pedras, cascalhos e ovelhas. O carro tremia mais do que busão em Sampa, “tá ligaaado?”. Se forem pra lá, não peguem esse atalho.

Entramos no avião e fomos pra Buenos Aires. Foi o primeiro dia de chuva desde que saímos do Brasil. Descansamos. Fizemos todos os passeios sem pressa, aproveitando apenas o que vale a pena — e custa pouco, porque a Patagônia sugou toda nossa economia e mais um pouquinho.

Aproveitamos para reencontrar amigos, caminhar pelas praças, tomar mais vinho, comer mais alfajores e mais medialunas. Já estou sonhando com elas.

Além das medialunas, a Patagônia também cativou meu coração. Quisera poder voltar nela de tempos em tempos pra admirá-la um pouco mais.

Visit South America.

Viajar é possível. É caro, mas é possível. A gente tem que abrir mão de algumas coisinhas, mas se é algo que realmente queremos, todo esforço vale a pena.

Existem viagens para todos os bolsos. Algumas, talvez, exijam um pouco mais de esforço nas economias para se concretizarem. E mesmo quando escolhemos uma em detrimento de outras opções, no fim, acabamos realizados. A América do Sul é linda. Vale a pena visitar.