Visitar Auschwitz mudou minha vida.

Em 2015 fui pra Polônia, visitei o campo de concentração mais emblemático da Segunda Guerra Mundial e isso mudou profundamente minha vida. No processo, fiz um ensaio fotográfico que refletisse a experiência.

Pensei muito sobre publicá-lo ou não. Como você pode imaginar, é um álbum particular. Seu objetivo não é mostrar a diversão de viajar. Cada foto carrega uma ENORME carga histórica. E mais importante: o objetivo não poderia ser ganhar Likes.

Decidi seguir nessa direção: usá-lo para continuar lembrando da dramaticidade do assunto. Para que qualquer um que veja uma de suas fotos sinta uma pequena parte do que senti ao fotografá-las. Se isso te causa desconforto, não prossiga. Os próximos parágrafos serão relatos emocionados de meus passos em Auschwitz e Birkenau.


Não pode haver mais ironia e contradição que nas palavras da placa de entrada de Auschwitz: O trabalho te libertará. Principalmente quando, logo a sua frente, está a gigantesca cozinha onde você trabalharia por essa liberdade. Tenho certeza que — não fossem as grades, a escolta e o conforto das acomodações — a primeira vista o campo de concentração até poderia parecer um recomeço. Um grande e belo alojamento, nitidamente provisório, com pátios para trabalho, ruas largas e uma bonita paisagem em volta. O chão é de pedras, rústico e agudo o suficiente pra roer os pés dos descalços. As paredes dos alojamentos não possuem acabamentos. A arquitetura é alemã, carregando em suas linhas as marcas de um trabalho feito as pressas. Marcas que ganhariam profundidade pelos crimes que se seguiram.

As ruas e os galpões são retratos de um estilo arquitetônico alemão construído a pressas, com poucos recursos e nenhum glamour.

É de se esperar que a vida em cativeiro não seja cômoda. Que o digam os detentos que pagam por seus crimes com celas lotadas e nem um pingo de respeito pela vida. Mas até eles, pelos quais muitos lutam para que tenham dignidade lá dentro, possuem tratamento de reis se comparados com Auschwitz.

Um cativeiro feito para matar. De fome, cansaço, a queima-roupa, sufocados. Qualquer Bangu-1 é um paraíso frente à crueldade desse campo.

Se ver que um milhão e meio de pessoas morreram ali não for suficiente pra você sentir um aperto no coração, saiba que a grande maioria sequer sabia que estava sendo levada para um cativeiro. Nos primeiros anos do campo, os presos chegavam para trabalhar e recomeçar a vida — sob custódia dos nazistas. Levavam consigo roupas, toalhas, mochilas, brinquedos, comida, talheres. Itens que lhes seriam confiscados, posteriormente, na seleção. E esse era o primeiro choque de realidade. Nessa hora, pela primeira vez, teriam certeza de que a propaganda era falsa, e estariam ali para morrer.

Não havia privacidade nos banheiros. Nem sequer um mínimo de higiene: as roupas eram as mesmas por meses. Aquelas trazidas nas maletas viraram souvenirs nazistas. Até mesmo os cabelos eram cortados para fazer tapetes.

Como se não bastassem as condições, quem não se comportava apropriadamente ia pro paredão para apanhar até que se rompam os tendões dos braços e os músculos dos ombros. Aí então, inaptos para o trabalho, sofriam de dor até morrerem de fome. Outros, ironicamente mais sortudos, assistiam a morte de seus filhos e sua esposa, para então tomarem um tiro na cabeça.

Prisioneiros eram amarrados nessas hastes de madeira. Após terem seus ligamentos rompidos e se tornarem inaptos pro trabalho, morriam de fome nos abrigos.

Quando havia a necessidade de exterminar um grupo, o jeito era colocá-los em uma das câmaras de gás. Em Auschwitz elas eram pequenas: matavam entre 700 e 800 pessoas por dia. Ali sufocavam por 45 minutos até que o veneno das pedras entupissem as traquéias.

Sem grande-angular. As câmaras de gás eram minúsculas.

O número de prisioneiros crescia de forma exponencial, fazendo aquele campo se tornar insuficiente em pouco tempo. Foram construídos outros campos, sendo Birkenau o maior e mais famoso deles. Mais do que o dobro da área e com máquinas de morte mais eficientes e mais escondidas. Quem passava pela seleção tinha uma expectativa de vida de 3 meses. Os trens lotados chegavam várias vezes por dia.

Turistas visitando a famosa entrada e Birkenau (Auschwitz II).
Lado direito de Birkenau (conhecida como Auschwitz II)

A capacidade de extermínio potencializou para uma décima potência. Os nazistas já eram capazes de matar entre 7.000 e 8.000 presos registrados por dia. Isto é: sem contar os milhares que eram mortos antes dos registros (durante o transporte, durante a seleção, durante a inspeção, por serem velhos demais, novos demais, magros demais ou gordos demais). Não é possível estimar a quantidade de vítimas não registradas.

Os alojamentos, feitos por escravos, eram menores, mais populosos e mais numerosos. Os primeiros de alvenaria, e logo a grande maioria de madeira. Sem calefação, os prisioneiros tinham um único conjunto de algodão para superar -15º do inverno polonês. E durante o verão sofriam com a estufa de 45º dentro e 30º fora daqueles telhados.

Cada chaminé dessa foto é uma cabana de madeira, destruídas após a retomada.

O local onde estavam as câmaras de gás estava escondido em meio a árvores. Para quem chegava, não parecia tão atemorizante. Doce engano. Quando o espaço se tornou insuficiente, começaram a queimar os corpos ao ar livre. O inferno não era apenas o trabalho e as condições de moradia: também era o cheiro, os vermes e as inúmeras doenças causadas pelos corpos carbonizados.

No lado oposto à famosa entrada.

Assim, em apenas 5 anos, o complexo Auschwitz-Birkenau se tornou uma das maiores fábricas de morte que tivemos registro.

Que para sempre este lugar seja um grito de desespero e um alerta para a humanidade, onde os nazistas assassinaram em torno de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, sendo a maioria de judeus dos vários países da Europa.
Panorâmica de Birkenau. Ao fundo, atrás das árvores, ficavam as câmaras de gás, e era onde também queimavam corpos ao ar livre.

Mais algumas fotos:

Destroços de uma das câmaras.
Um dos vagões nos quais os judeus eram transportados para a qualificação, onde eram direcionados para o trabalho escravo ou para morte imediata.
Nas cabanas de alvenaria, cada espaço desse abrigava dezenas de escravos. São 3 níveis, sem calefação nem higiene.
Paredão de fuzilamento.

Você pode acessar o álbum completo no meu facebook, ver o especial que coloquei no portfolio, e também ver fotos exclusivas no Com Limão e no Chocoladesign.